Criar "o caos dentro das tropas russas" - e aproveitar "um desleixo" muito específico delas: estão em curso os "ataques misteriosos" da Ucrânia

17 ago, 18:00

Acabou a guerra em movimento e a Rússia e a Ucrânia transitam para um conflito estático, cada vez mais semelhante à Primeira Guerra Mundial

Dezenas de milhares de pessoas fogem em pânico. As filas de carros estendem-se por vários quilómetros e todos procuram uma saída, mas as únicas pontes que oferecem uma escapatória não são capazes de escoar um fluxo tão grande de pessoas. Este foi o resultado do que a Ucrânia diz ser a sua nova estratégia para “criar o caos” bem no interior do território ocupado pela Rússia.

Mykhailo Podolyak, conselheiro do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, garante que “nos próximos dois ou três meses” a Rússia vai sofrer uma série de “ataques misteriosos” como os que aconteceram na base aérea de Saky e no depósito de armas de Dzhankoi, bem no interior da Crimeia, a mais de 200 quilómetros da frente de combate. Embora a Ucrânia não tenha assumido a autoria destes ataques, o ministério da Defesa russo foi rápido a apontar a causa dos ataques como atos de sabotagem.

Para os especialistas, estes atos são uma inevitabilidade. Sempre que dois exércitos se enfrentam, a sua primeira ação é a avaliação das capacidades de combate do adversário. Com vidas em jogo, os generais insistem em perceber qual a força do inimigo, o número de soldados de que dispõem, os equipamentos ao seu serviço e quais as capacidades da sua força aérea, para terem a capacidade de evitar os pontos fortes e atacar os pontos fracos do adversário. Isso é algo que acontece desde os primeiros dias da invasão russa na Ucrânia, quando as forças armadas ucranianas, deparadas com o enorme poderio militar de Moscovo, escolheram defender-se no interior de cidades e efetuar emboscadas contra os abastecimentos logísticos.

“As cidades aumentam o potencial de combate de quem defende e reduzem o potencial de combate de quem ataca. Foi isso que a Ucrânia escolheu fazer numa primeira fase, depois de constatar a grande diferença de forças”, explica o major-general Arnaut Moreira.

Os mísseis de seis milhões de euros "não se atiram contra um prediozinho"

Uma linha de defesa pouco preparada permitiu à Rússia ganhar terreno com grande velocidade no sul da Ucrânia, permitindo aquela que foi até ao momento uma das conquistas mais significativas da Rússia - a ocupação de Kherson. Na cidade e nos seus arredores, as fontes ocidentais estimam que estejam destacados mais de 20 mil soldados russos, acompanhados de um grande número de blindados e armas antiaéreas. Trata-se de um contingente muito significativo de tropas que não permite à Ucrânia um avanço tão rápido quanto o desejado.

A teoria militar convencional sugere que a Ucrânia precisa de três soldados por cada russo defensor para fazer uma ofensiva, porém a Rússia ocupa este território há muito tempo e tem empreendido esforços para o fortificar contra futuros ataques. “Neste momento não vemos como é que a Ucrânia será capaz de reunir o número de soldados necessários a curto prazo para levar a cabo uma operação ofensiva convencional a norte do rio Dniepre”, diz Arnaut Moreira.

Estes aspetos indicam também que a guerra está a entrar numa nova fase, em que se torna menos móvel e cada vez mais estática, um pouco como na Primeira Guerra Mundial. “Houve uma mudança na força de ação”, garante o major-general Agostinho Costa.  Os círculos militares referem-se à infantaria como “a rainha das batalhas” e reserva à artilharia o papel do “rei da batalha”. E, uma vez que se “quer evitar baixas”, foi isso mesmo que aconteceu do lado russo: a artilharia passou a ganhar um foco cada vez maior nas operações militares, deixando de ter o papel de apoio inicial e passando a ser o foco das operações de combate russas. As fontes ucranianas estimam que a Rússia utilize 60 mil munições de artilharia por dia, o que requer grandes depósitos de armamento.

“Todas as guerras são exercícios logísticos”, afirma Agostinho Costa. Estas operações atrás das linhas inimigas "fazem parte" da guerra, sublinha o major-general. É normal que dois exércitos tentem atingir alvos importantes na retaguarda, de forma a impedir o progresso do exército oposto. As forças armadas russas fazem-no com recurso a mísseis intercontinentais de alta precisão, como os Kalibr. Porém, esses ataques são muito caros e só são utilizados contra alvos militares considerados de alta importância para os russos. Cada um destes mísseis custa seis milhões de euros. "Não se disparam mísseis deste valor para um prediozinho numa esquina qualquer de uma cidade ucraniana. Até porque a decisão de disparar uma destas munições vem das mais altas chefias", explica Agostinho Costa. 

"Parece existir um completo desleixo" russo num ponto essencial

Embora a situação tenha vindo a alterar-se com a entrega dos Himars, a Ucrânia continua sem ter capacidade de atingir a retaguarda em profundidade com recurso a mísseis balísticos que vão além dos 80 km. É nesse momento que entram em cena as forças especiais. "Sem os mísseis ATACMS, que atingem alvos até 300 km de distância, resta à Ucrânia usar forças especiais", destaca o major-general Agostinho Costa. 

É aí que entra a nova estratégia anunciada pelo conselheiro presidencial ucraniano. “O nosso objetivo é destruir a capacidade logística, as linhas de fornecimento, depósitos de munições e infraestruturas militares. Estamos a criar o caos dentro das suas próprias forças”, explica aquele que é visto com a terceira figura mais poderosa da cúpula ucraniana.

O caos na retaguarda russa vai reduzir o potencial de combate do exército russo, com a destruição de depósitos e de diversos centros de decisão. É essa a aspiração militar da Ucrânia na região de Kherson, comprovada com a destruição das pontes que permitiam o fornecimento de mantimentos aos 20 mil soldados que defendem esta região. Para o major-general Arnaut Moreira, especialista em geoestratégica, estas operações de corte logístico marcaram apenas “uma primeira fase” da campanha. Agora, os esforços de guerra ucranianos nesta zona devem ser focados nos depósitos que abastecem estas forças com munições, combustível e alimentos. “Isto deve permitir à Ucrânia tirar a capacidade da Rússia de se movimentar com unidades mecanizadas.”

Para Arnaut Moreira, ações militares das forças especiais bem no interior do território ocupado pela Rússia, bem como outros apetos do combate de guerrilha, devem ter um papel cada vez mais ativo no desenvolvimento do conflito. Este tipo de ataques requer apenas um pequeno número de soldados e pode ter uma relação custo-benefício muito vantajosa.

Os ganhos militares destas operações podem não ser suficientes para vencer a guerra mas Arnaut Moreira recorda que “as guerras não se ganham só nos aspetos de natureza militar”. A capacidade de introduzir uma perceção de insegurança nas populações vai ser um “elemento fundamental” para o decorrer da guerra: por um lado, “dá alento às populações ucranianas” que ficaram prisioneiras neste território por outro, obriga as chefias militares russas a terem de destacar para regiões de retaguarda forças militares que podiam estar na frente de batalha. “Até ao momento, a Rússia não teve preocupações com a sua área da retaguarda. Esta zona era considerada segura. Este conjunto de ações mostra precisamente o contrário - parece existir um completo desleixo nas regiões do interior dos territórios ocupados”, considera Arnaut Moreira.

Outro dos aspetos relevantes destes ataques é que são impossíveis de esconder, até mesmo para a máquina mediática russa - que é altamente controlada. Os ataques no aeródromo de Saky e no depósito de munições em Dzhankoi geraram uma onda de pânico entre habitantes e turistas na Crimeia. De acordo com fontes oficiais russas, mais de 100 mil pessoas fugiram. De repente, a comunicação social russa mostrou-se incapaz de “esconder que existe capacidade ucraniana de atacar o interior da joia da coroa” russa, alterando a visão de muitos russos sobre aquilo que se está a passar no terreno.

“Estas ações têm, a meu ver, o objetivo de levar a cabo a desmoralização das tropas russas, de lhes fazer crer de que a vitória não é possível, que estão a mais ali, que não são desejados e que vão acabar por morrer. No fundo, introduzir a dúvida aos soldados russos de que a sua causa não é justa e de que a vitória não chegará”, conclui Arnaut Moreira.

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