Cortes de energia, escassez de combustível e cancelamento dos acampamentos de verão: como os ataques da Ucrânia estão a transformar a Crimeia numa "espécie de apocalipse"

CNN , Zahra Ullah, Katharina Krebs, Daria Tarasova-Markina
26 jun, 09:00
Crimeia (CNN)
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Vladimir Putin tem supervisionado investimentos de milhares de milhões de dólares na Crimeia, transformando-a num destino turístico cada vez mais desenvolvido. Mas essa iniciativa encontra-se agora sob pressão, à medida que a Crimeia enfrenta ataques sistemáticos às suas principais rotas de abastecimento e ligações de transporte

As falhas de energia continuam a afetar Sebastopol, a maior cidade da Crimeia controlada pela Rússia, na sequência dos repetidos ataques ucranianos contra a península.

O governador da cidade nomeado pelo Kremlin, Mikhail Razvozhayev, afirmou na quinta-feira que tinham sido introduzidas restrições em toda a cidade e instou os residentes a reduzirem a carga na rede elétrica. O comandante das forças de drones da Ucrânia, Robert Brovdi, afirmou que Kiev tinha atacado a principal subestação elétrica de Sebastopol sete vezes nas primeiras horas de quarta-feira.

A Rússia anexou a Crimeia em 2014, uma ação amplamente condenada pela comunidade internacional, depois de os protestos de Maidan terem derrubado o então presidente ucraniano pró-Kremlin, Viktor Yanukovych. A cidade portuária de Sebastopol foi, historicamente, sede da Frota do Mar Negro da Rússia.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou ambiciosamente que pretendia recuperar o controlo da Crimeia quando foi eleito em 2019 - uma mensagem que ganhou força desde a invasão russa em grande escala da Ucrânia em 2022.

Nas últimas semanas, a Ucrânia intensificou os seus esforços militares na região, refletindo a estratégia mais ampla de Kiev para aumentar a pressão sobre o Kremlin. Essa campanha perturbou o quotidiano das pessoas na península, resultando em frequentes ataques com drones, na proibição da venda de gás aos residentes comuns e na suspensão dos acampamentos de verão para crianças.

Uma imagem de satélite mostra o fogo e o fumo a subir dos tanques de petróleo, após um ataque com drones a um depósito de petróleo na cidade de Kerch, na Crimeia, a 21 de junho. (Vantor/Reuters)

Uma residente de Sebastopol disse à CNN que os alertas de ataque aéreo na cidade se tinham tornado mais frequentes nas últimas semanas, chegando a ocorrer várias vezes por dia.

A mesma residente descreveu drones a sobrevoar a cidade e os seus arredores e referiu que as interceções ocorrem frequentemente sobre a cidade, em vez de sobre o Mar Negro, como acontecia anteriormente. A cidade tornou-se “mais perigosa”, garantiu.

O governo regional da Crimeia, instalado pela Rússia, afirmou no domingo que o combustível só estaria disponível para as agências governamentais, e não para a população em geral nem para as empresas.

A residente de Sebastopol - que preferiu não se identificar por razões de segurança - disse à CNN que não havia combustível nos postos de abastecimento, mas que os transportes públicos continuavam a funcionar. Ela comprou gasolina quando ainda estava disponível, a um preço muito mais elevado do que antes, afirmou.

Clima de "cautela" entre os turistas

A Crimeia tem sido um destino de férias popular entre russos e ucranianos desde antes da era soviética. Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade balnear de Ialta acolheu o encontro histórico entre o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente Franklin Roosevelt e o líder soviético Joseph Estaline. Durante a guerra, a Crimeia também viveu um capítulo sombrio do domínio soviético: a deportação forçada da população tártara da Crimeia, por ordem de Estaline.

A península era um destino emblemático na era comunista. Após a independência da Ucrânia em 1991, os resorts históricos da Crimeia perderam o seu brilho, mas as suas costas selvagens e as festas à beira-mar atraíram turistas internacionais. Desde a anexação de 2014, o atual presidente russo, Vladimir Putin, tem supervisionado investimentos de milhares de milhões de dólares na Crimeia, transformando-a num destino turístico cada vez mais desenvolvido. Mas essa iniciativa encontra-se agora sob pressão, à medida que a Crimeia enfrenta cortes de energia e escassez de combustível.

O chefe da Crimeia nomeado pela Rússia, Sergey Aksyonov, anunciou também esta semana que todos os acampamentos infantis seriam suspensos até 1 de setembro.

Valentina Orlova e a sua família relaxam numa praia quase vazia na cidade turística de Alushta, na península da Crimeia, a 18 de junho de 2023. (Olga Maltseva/AFP/Getty Images)

Vários vídeos filmados em Simferopol, a segunda maior cidade da Crimeia, e publicados online mostram estradas e espaços públicos vazios. Num vídeo gravado por volta das 21:00 de terça-feira, uma mulher descreve a cidade como se estivesse “no meio de uma espécie de apocalipse”.

“Há apenas um carro. Não há mais nada lá fora, só o vazio”, disse.

Num outro vídeo publicado nas redes sociais na quarta-feira, um residente fala sobre ter encontrado prateleiras vazias num supermercado local depois de os cafés e cantinas terem deixado de funcionar. “Queríamos comprar algo para comer, mas não há nada. As prateleiras estão vazias”, observou.

A proprietária de uma pousada na cidade turística de Noviy Svet disse à CNN que os hóspedes continuam a chegar e que o ambiente é de “cautela, não de pânico”.

“No que nos diz respeito, pessoalmente, não vejo qualquer impacto crítico no funcionamento da pousada neste momento. Os hóspedes continuam a chegar; o mar, as praias, os cafés e as infraestruturas turísticas estão a funcionar. Há, sim, incerteza e uma maior atenção às notícias”, afirmou.

"Em breve, não teremos nada para comer"

Os residentes da península mostram-se frequentemente relutantes em manifestar-se publicamente, dado o controlo que a Rússia exerce no terreno.

Mas uma declaração de Aksyonov no Telegram, onde anunciava a proibição generalizada da venda de gás, levou centenas de pessoas a responder, dando voz às suas frustrações.

Um taxista, Aleksandr, perguntou ao chefe da república como é que ele deveria sustentar a sua família e pagar os empréstimos. “Perguntei aos bancos o que fazer em relação aos empréstimos. Simplesmente não haverá dinheiro para os pagar - e em breve não teremos nada para comer, nem meios para comprar comida. Os bancos recusam-se a conceder moratórias, alegando que não foi declarado estado de emergência”, escreveu na quarta-feira.

Outra utilizadora do Telegram, Diana, disse que o seu negócio de fornecimento de aves refrigeradas precisa de gasóleo. “Os nossos produtos são perecíveis. A nossa base de clientes inclui todas as cadeias de retalho e mercados da península”, reclamou.

Uma terceira utilizadora, Olesya, comentou na terça-feira que não havia maneira de chegar ao trabalho através dos transportes públicos, uma vez que os autocarros estavam sobrelotados e sobrecarregados. “Simplesmente não há espaço para mais passageiros. Toda a gente precisa de chegar ao trabalho”, alertou.

A Ucrânia tem vindo a tentar aumentar a pressão sobre o Kremlin para que este participe em negociações de paz, lançando ataques que se estendem mais para o interior do território russo, visando principalmente refinarias de petróleo, mas também realizando ataques em grande escala com drones na capital russa e em São Petersburgo. Tem-se verificado um descontentamento crescente por parte de alguns russos, à medida que a guerra se aproxima lentamente das suas portas.

Atualmente, na Crimeia, Kiev está a atacar sistematicamente as principais ligações de transporte e rotas de abastecimento que ligam a península às forças russas do sul, com o objetivo de perturbar a logística e isolar as infraestruturas militares na região.

Uma imagem de satélite mostra fumo a subir da Ponte da Crimeia após um ataque ocorrido a 22 de junho. (Vantor/Reuters)

Zelensky afirmou na quarta-feira que a operação na Crimeia foi “cuidadosamente calculada” para “criar as condições que obrigarão a Rússia a optar pela paz”.

“A situação é difícil”, afirmou Tatiana Stanovaya, fundadora da empresa de análise política R.Politik, à CNN, que diz não acreditar que o aumento das pressões internas sobre Putin venha a afetar as suas considerações e objetivos na Ucrânia.

“Tudo o que estes ataques vão conseguir é contribuir para o sentimento anti-ucraniano na Rússia, um sentimento mais pró-Estado e não pró-Putin. É improvável que conduzam a uma mudança política”, acrescentou.

Na sua opinião, a campanha de Kiev significa que, quando os russos perguntam por que razão o país continua a lutar, “agora Putin pode dar a resposta”.

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