"Corremos o risco de olhar para os russos como olhámos para os alemães": como ficam as relações entre Moscovo e o mundo no fim da guerra (e como vai ser difícil recuperá-las)

8 set, 09:00
Vladimir Putin (AP Images/Andrei Gorshkov)

É impossível prever quando vai terminar o conflito na Ucrânia, mas já é possível dizer que nada ficará como antes de 24 de fevereiro - e a Rússia é quem mais vai sofrer com isso

A guerra na Ucrânia já ultrapassou os seis meses e a expectativa é que o conflito esteja para durar. Com ou sem vitória de Moscovo, como será o mundo depois do conflito? Pode a Rússia voltar a ter o peso que tinha na comunidade internacional, ou vai passar a ser um país completamente isolado do Ocidente?

O comentador da CNN Portugal Azeredo Lopes acredita que, seja qual for o desfecho da guerra, nada ficará como antes. Prova disso, diz, é a forma como os países europeus procuram, desde o início, diversificar as suas fontes de energia, numa tentativa de deixar de depender do gás natural e do petróleo russos, que serve para o imediato, mas também para o futuro, como mostra a possibilidade de um gasoduto a partir do Porto de Sines, e que poderá vir a fornecer energia à União Europeia num futuro próximo.

O especialista vê uma extensão do conflito da Rússia com a Ucrânia para a comunidade internacional, falando numa guerra de atrição, para referir que, quando a guerra acabar, e prevendo uma derrota da Rússia, essa derrota será muito rápida.

“A guerra de atrição consiste em desgastar as capacidades do adversário e em fazer com que a sua capacidade de reposição de forças seja sempre inferior às forças que são destruídas. A parte derrotada de uma guerra de atrição é sempre estrondosamente derrotada e de uma forma muito rápida. O conflito é muito longo, mas quando acaba, acaba rapidamente”, explica, apontando o exemplo da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, que aconteceu em poucos dias após o lançamento das duas bombas atómicas por parte dos Estados Unidos.

Para Azeredo Lopes, esse será o cenário em cima da mesa, que faz parte de uma “estratégia dos Estados Unidos, principalmente”, e que passa por um colapso da capacidade russa em manter a posição na Ucrânia. Após essa derrota, refere o especialista, “não vai haver um conjunto de negociações muito longas que permita salvaguardar a honra de cada um”, pelo que é previsível que a conclusão deste conflito resulte numa Rússia “profundamente desgastada”.

Apontando exemplos recentes, como a guerra na Sérvia, no Afeganistão ou no Iraque, Azeredo Lopes sublinha que “o vencedor pura e simplesmente deixa de ter relações com o vencido”. O mesmo é dizer que o Ocidente não vai reatar as relações, seja a nível comercial, seja a nível diplomático, com a Rússia. E isso vai acontecer com especial foco na União Europeia, onde “é percetível pelas declarações de responsáveis, que têm tido pronúncias mais duras, uma morte da Rússia do ponto de vista da ausência completa de relações”.

“No fundo, é como se a Rússia deixasse de existir para alguns países europeus”, aponta, falando num cenário que pode durar “muito tempo”, e que passa, em grande parte, pela redução da dependência desses países em relação aos recursos energéticos.

A professora de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Licínia Simão, lembra que, nem que seja ao nível diplomático, terão de existir sempre relações entre as partes, apontando que será sempre necessário um caminho com "diálogo e cooperação" entre o Ocidente e a Rússia.

Ainda assim, diz à CNN Portugal, a relação dificilmente voltará aos níveis que se verificavam antes da guerra, pelo menos durante os próximos tempos. "É muito complicado regressar a antes de 24 de fevereiro, isso vai depender de como a guerra termina", explica, sublinhando que existe um histórico recente de guerras que não terminam no espaço que foi dominado pela União Soviética. É o caso do conflito constante na zona de Nagorno-Karabakh, que opõe Azerbaijão e Arménia.

Mesmo nesse cenário, acrescenta a investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o elevado nível de envolvimento do Ocidente, sobretudo da União Europeia, condiciona um retomar de relações. Ainda assim, Licínia Simão diz que é impossível que Ocidente e Rússia fiquem de costas voltadas para sempre, mesmo que depois de Vladimir Putin venha alguém que continue a sua linha política.

No reatamento de relações, quer políticas, quer económicas, o ponto terá de ser sempre assente no diálogo, defende a investigadora, que vê como essencial que esse caminho seja feito.

Rússia mais bem-preparada (e um erro europeu)

Licínia Simão não tem dúvidas: a Rússia preparou-se para esta guerra, também ao nível económico, algo que a União Europeia não soube fazer, nomeadamente ao nível energético. Se os 27 se apressam a apresentar planos para fazer face à crise energética, muitos deles empenhados também numa transição do consumo, que passará de combustíveis fósseis para energias renováveis, a Rússia focou-se na diversificação dos seus mercados muito antes de iniciar a ofensiva.

A investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra aponta que a Rússia alcançou novos contratos com países emergentes, com a China à cabeça, para conseguir escoar o seu gás natural e petróleo. "Esses países já pagam preços muito próximos dos europeus", nota.

"Se o Ocidente está a fazer essa transição, o resto do mundo ainda precisa de combustíveis fósseis. A Rússia vai continuar a ter clientes e está preparada", acrescenta Licínia Simão, que antevê que a Rússia pode sofrer menos consequências económicas que a Europa no pós-guerra. Isso porque a economia russa assenta, essencialmente, em produtos em que o país é autossuficiente, como são os casos do gás natural ou do petróleo. Além disso, explica a especialista, a Rússia tem ainda vários componentes, nomeadamente para a indústria tecnológica, de que o Ocidente vai sempre precisar.

"Os russos estão preparados para manter uma situação económica difícil, mais do que os europeus", sublinha.

E tudo isto por causa de um erro já amplamente apontado à União Europeia, nomeadamente à Alemanha: é que, ao longo de 30 anos, houve uma perspetiva de segurança energética a partir de Moscovo, algo que acabou de um momento para o outro. "Os líderes europeus convenceram-nos de que a Rússia era sinónimo de estabilidade, agora convencem-nos do contrário, e isso deixa-nos baralhados", nota Licínia Simão, que fala em "mais de três décadas de interdependência que beneficiou ambas as partes com um fluxo regular e permanente de energia a preços aceitáveis", a tal segurança energética.

Com o fim abrupto dessa segurança energética, aquilo que a professora de Relações Internacionais prevê é que os cidadãos europeus paguem um "preço muito elevado", que, de resto, já se começa a notar, com os 27 a desmultiplicarem-se em planos para fazer face à crise energética.

"Face à guerra estamos a mudar tudo, mas não nos preparámos para isso", afirma a investigadora, que também faz críticas ao planeamento de Portugal, que falhou em tentar alcançar a segurança energética através de acordos com outros países, como Marrocos, Argélia ou Nigéria.

No fundo, diz Licínia Simão, o virar de costas à energia russa vem acelerar um plano que já existia, o da transição digital. Mas como essa aceleração surge de repente, não existem garantias de que tudo vá correr bem ao início. "Esta transição já estava a decorrer, mas agora vai acontecer de forma dramática com custos para os cidadãos, a quem se pede uma conta cada vez maior", termina.

Um isolamento para lá de Putin (e o poder da memória)

Se é impossível prever quanto tempo durará este corte de relações, Azeredo Lopes garante que o mesmo vai existir para lá do presidente russo. É que, apesar de esta ser uma guerra muito pessoal de Vladimir Putin, o que acontece no Ocidente funciona como um “corte cultural” para com a Rússia.

"Hoje atribui-se uma carga muito negativa à própria ideia de ser russo ou da representação da própria cultura russa. Vamos assistir a um processo de cancelamento da Rússia, pelo menos por parte dos países europeus", vinca, falando numa guerra "traumática que deixa feridas muito para além de Vladimir Putin".

No fundo, diz o especialista, é como se os países europeus “matassem” o mercado russo, procurando assim isolar Moscovo em relação ao Ocidente. O mesmo não deverá acontecer com os Estados Unidos. Seja pela menor proximidade física com a Rússia, seja pela menor dependência económica, a administração de Joe Biden tem sido menos incisiva que os vários governos europeus.

Isso é explicado pela “memória coletiva”, que “é a mais assustadora, porque não pode explicar-se, é instintiva e condiciona a decisão política”.

“Qualquer decisor político vai pensar duas vezes antes de falar com uma nova Rússia”, afirma, referindo que será sempre assim, mesmo perante uma Rússia que possa vir a alterar as suas políticas e se democratize.

Licínia Simão concorda que existe um estigma em relação aos russos, mas não percebe a sua razão de ser. Para a especialista, "temos generalizado muito, temos caído no facilitismo de associar a guerra aos russos e a toda a Rússia", quando esta é, claramente, uma guerra travada por parte de um homem: Vladimir Putin.

A investigadora lamenta que os ocidentais não tentem entender as dificuldades que estão a assolar os russos, muitos deles contra a guerra, como são os conhecidos casos dos jornalistas Marina Ovsyannikova ou Ivan Safronov - este último foi mesmo condenado a 22 anos de prisão por "alta traição". Como eles, outros milhões de russos no anonimato poderão estar contra a guerra.

"Corremos o risco de vir a olhar para os russos como olhámos para os alemães. Não é por acaso que a imagem de Vladimir Putin já foi associada à de Adolf Hitler", acrescenta Licínia Simão, que dá mesmo um exemplo pessoal: investigadores portugueses ficam reticentes em convidar colegas russos para palestras e conferências, temendo pela proteção e segurança dos mesmos, sentindo mesmo que, muitas vezes, a sua presença "não é bem-vinda". "Havia portas para entendermos a Rússia, mas fechámo-las todas", conclui.

Manifestação de ucranianos em Portugal compara Putin a Hitler (Horacio Villalobos/Getty Images)

Seja pela via comercial ou económica, seja pela via diplomática, os especialistas entendem que as relações entre a Rússia e o Ocidente, em especial a Europa, dificilmente voltarão aos níveis pré-guerra.

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