O secretário-geral da NATO defendeu que os aliados deveriam aumentar os gastos com defesa para 3,7% do PIB, de modo a garantir a segurança do velho continente. Mas os analistas ouvidos pela CNN Portugal afirmam que "a ameaça de que a Rússia vai invadir a Europa não passa de fogo fátuo"
"Se os gastos com a defesa não aumentarem, os europeus devem preparar-se para aprender a falar russo ou então mudar-se para a Nova Zelândia", disse o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, mostrando-se "profundamente preocupado com a situação de segurança na Europa". "Estamos seguros agora, mas como será daqui a quatro ou cinco anos", questionou na sua primeira intervenção do Parlamento Europeu, na segunda-feira, afirmando que provavelmente será necessário exigir que os membros da Aliança gastem até 3,7% do PIB em defesa.
As declarações de Rutte surgem depois de, na semana passada, o presidente eleito dos EUA ter pedido aos aliados que gastassem 5% do PIB em defesa. "Não estamos em guerra, mas também não estamos em paz", considerou o secretário-geral da NATO. "Isto significa que precisamos de investir mais em defesa e ter mais capacidade. Isso não pode esperar. Temos de aumentar a resiliência das nossas sociedades e a infraestrutura crítica."
A preocupação de Rutte é legítima, considera o major-general Agostinho Costa. Afinal, como secretário-geral da NATO, a sua missão é precisamente garantir a segurança dos aliados. No entanto, o especialista militar da CNN Portugal considera que existe algum exagero nestas preocupações, uma vez que é pouco provável que Vladimir Putin queira invadir e ocupar a Europa. "Há algumas zonas críticas, como o corredor de Suwałki, que liga a Bielorrússia a Kaliningrado, na Rússia, e o mar Báltico. Há ali um grupo de países mais nervosos que querem fechar o mar Báltico aos russos, mas até agora tem havido bom senso por parte da União Europeia", diz. "Sabemos também que há países, como a Estónia e a Letónia, que têm uma percentagem de população russa bastante grande, e isso pode servir de argumento para os russos intervirem. Mas na Polónia nem pensar. A questão dos russos não é território, é a questão das populações russas."
Também Tiago André Lopes, especialista em política internacional, acredita que "a ameaça de que a Rússia vai invadir a Europa não passa de fogo fátuo". "Se Putin quisesse, já poderia ter invadido a Moldova ou poderia fazê-lo na Geórgia ou no Cazaquistão, e não o fez. Essa ameaça não cola", argumenta, reconhecendo que "essas preocupações devem existir, mas não devem ser exacerbadas". Na sua opinião, Rutte está a tentar assustar os europeus, mas "esse é o discurso do populismo e é ineficaz".
Opinião diferente tem João Annes, especialista do Observatório de Segurança da SEDES, que defende que a Europa tem de investir agora se quiser "acompanhar o crescimento gigantesco da Rússia em termos de defesa". "Neste momento, a Rússia não tem capacidades militares em escala para ameaçar a Europa como um todo, mas está a investir como nunca na defesa e daqui a quatro ou cinco anos terá uma capacidade bélica muito maior do que a Europa. Por isso, os países europeus têm de também investir agora para dissuadir futuros conflitos. Quando lidamos com potencias com tendências imperialistas e que veem a guerra como forma de atingir objetivos políticos, sabemos que elas não se vão deter de outra forma: têm de sentir que o outro lado também é uma ameaça e que não podem entrar em conflito para evitar evitar a destruição mútua", explica.
João Annes chama ainda a atenção para as mudanças políticas que estão a acontecer do outro lado do Atlântico: "A América tem suportado as despesas de defesa da Europa, mas já deu mostras de que não está disposta a continuar a fazê-lo. Por um lado, porque o seu competidor principal neste momento é a China, essa é a sua preocupação. E também porque, perante uma ameaça tão expressiva da Rússia. acha que os europeus não podem continuar à espera que os americanos os salvem. Os europeus têm de pagar a sua parte, como disseram Biden e Blinken recentemente."
2% ou 3% do PIB: quanto devem os europeus gastar com a defesa?
Tiago André Lopes recorda que "Mark Rutte foi primeiro-ministro durante 13 anos 8 meses e 2 semanas e só no ano passado é que os Países Baixos chegaram a uma despesa de 2% do PIB". "E agora vem exigir a outros Estados que gastem 3,5%. O único país que cumpre essa percentagem é a Polónia, que gasta mais de 4%. Nem os EUA, que gastam 3,38%, chegam a esse patamar", sublinha.
Além destes, dos 32 membros da NATO, só Grécia, Letónia e Estónia é que chegam aos 3%. "E a Grécia é porque a economia ainda não alavancou e tem um PIB muito baixo", explica Tiago André Lopes. Há outros países, como Canadá, Espanha, Bélgica e Luxemburgo, que nem chegam a 1,5%.
Portugal comprometeu-se a chegar aos 2% em 2028, mas "isto implica escolhas políticas", alerta o especialista.
Neste momento em que Trump se prepara para assumir o poder nos EUA e forçar uma negociação com a Rússia, "será muito difícil convencer a opinião pública a investir mais em defesa", antevê Tiago André Lopes. "Só aceita se houver ameaças reais e tangíveis. Agora, a opinião pública quer o fim do conflito e vai querer resolver questões de habitação e saúde."
E mesmo que os países aumentassem a sua despesa com defesa, "gastar onde e com quem?". "É um problema político", diz Tiago André Lopes.
3% é um valor "absolutamente incomportável" para a grande maioria dos países, concorda o major-general Agostinho Costa. "Rutte fala em 3,5%, Trump quer 5%, com base em quê?, qual é o critério?"
Além disso, Agostinho Costa também é de opinião que se pode "investir muito em defesa e investir mal". "Quando estamos a comprar 'patrulhões' não estamos a investir em defesa, estamos a investir em segurança interna, são coisas diferentes, mas vai para o orçamento da defesa. Quando estamos a apoiar a Ucrânia, por outro lado, estamos a investir na defesa, então, porque é isso não é contabilizado nos 2% do PIB?"
"Deveríamos sentar-nos a pensar, porque podemos até investir 15% mas depois, se não tivermos homens e mulheres para irmos para as fileiras, não serve de nada. E estamos num momento de mudança tecnológica, vamos investir no quê? Isso tem de ser pensado", defende o especialista militar.
Mark Rutte, o "moço de recados de Washington"
Mark Rutte acrescentou, no entanto, que a compra conjunta de armas e equipamentos, bem como o investimento na inovação, poderiam reduzir a quantidade de financiamento necessária. O secretário-geral da NATO insistiu que a Europa ainda está dependente dos EUA para dar resposta às suas necessidades de segurança e considera que foi uma "ilusão" pensar que a Europa pode defender -se sozinha. "Envolver aliados de fora da UE nos esforços industriais de defesa da UE é vital, acredito, para a segurança da Europa", disse. "A cooperação industrial de defesa transatlântica torna-nos a todos mais fortes."
O que Rutte quis dizer com isto é que a Europa tem de continuar a comprar material de defesa aos EUA. Tiago André Lopes afirma que Rutte "veio fazer de moço de recados de Washington", dizendo que "a União Europeia tem legitimidade para desenvolver a indústria de defesa mas também deve comprar material", deixando implícito que deve comprá-lo aos EUA.
Para Agostinho Costa, "Trump é um negociante". "Vê os 5% como uma transferência de capital da Europa para os EUA. Neste momento, com o fim da energia barata, a produção de material de guerra é incomportável na Europa, tem de comprar quase tudo aos EUA. 75% do material que a Europa está a ceder à Ucrânia é importada", recorda.
Rutte está, "acima de tudo, a lutar para manter a posição que acabou de ganhar", a tentar mostrar-se relevante para Washington num momento em que as forças políticas no mundo estão a mudar, observa Tiago André Lopes. E Agostinho Costa subscreve: "Sabemos que Trump não é um dos maiores entusiastas da NATO. Rutte é capaz de ter um downgrade de importância", avisa. "Vamos ver se ele é chamado para a mesa das negociações quando Trump falar com Putin. O que estamos a ver é que nem União Europeia nem eventualmente ucranianos nem NATO serão chamados."