Conhecer a guerra durante a guerra: exposição em Kiev revela conflito na Ucrânia

13 jun, 13:36

Os habitantes de Kiev sabem bem que o conflito ainda não acabou, mas agora podem visitar uma exposição com parafernália de guerra deixada pelos soldados russos. Mas há também sapatos, uniformes, escovas de dentes, comida e reproduções de abrigos usados pelos civis durante os ataques

Visitar uma exposição num museu dedicado a grandes conflitos da História não é uma novidade. Saber mais sobre as duas Grandes Guerras Mundiais do século passado, por exemplo, é fundamental para a compreensão do mundo atual. Uma aquisição de conhecimentos que se faz, por regra, em relação a episódios de um passado mais ou menos recente.

Mas o Museu Nacional da História da Ucrânia na Segunda Guerra Mundial, em Kiev, decidiu lançar uma exposição sobre outro conflito. Uma guerra muito próxima da imensa maioria dos visitantes. Uma guerra que começou há pouco mais de 100 dias, com a invasão de território ucraniano pelas tropas da Federação Russa.

A chamada por Moscovo como “operação militar especial”, onde a referência ao conflito como uma guerra foi banida pela Duma (câmara baixa do parlamento russo) começou dia 24 de fevereiro. Há porções do território totalmente controladas pelas tropas do Kremlin, principalmente no leste do país. O conflito não começou agora. Em março de 2014, a Rússia invadiu e anexou a Península da Crimeia, uma iniciativa condenada pela Organização das Nações Unidas, pela União Europeia e pelos Estados Unidos.

Conhecer a guerra durante a guerra

Em todo o caso, o conflito na Ucrânia continua a marcar os títulos da atualidade internacional. Talvez não abra boletins informativos de rádio e televisão todos os dias como nos últimos dois meses, mas os bombardeamentos russos e o assédio à população civil não têm diminuído.

Enquanto a Comunidade Internacional investiga possíveis crimes de guerra, o Museu Nacional de História Ucrânia na Segunda Guerra Mundial quer que o conflito não seja esquecido.

Dmytro Hainetdinov é coordenador do Departamento de Educação do museu. Explicou à Associated Press que a exposição tem “ um pouco de tudo” e que o importante é ver a realidade da ocupação russa da forma mais prática possível:

“Temos um grande número de artefactos do ocupante russo. Por exemplo, à entrada da exposição, as pessoas podem ver os destroços de veículos militares russos destruídos pelos combatentes ucranianos. Também temos artigos deixados pelos soldados russos, como uniformes e munição.”

Grande parte dos artigos foram recuperados há apenas algumas semanas em território recuperado. Mas há também peças oferecidas pelas Forças Armadas Ucranianas.

Dmytro Hainetdinov conta que um Comandante do exército ucraniano doou um mapa ao museu.

“O mapa foi usado por um grupo subversivo russo e foi confiscado depois deste ter sido neutralizado pelas forças ucranianas. O grupo estava à espera da chegada das forças russas a Kiev para organizar uma série uma de ataques contra os combatentes ucranianos,” explica.

A exposição apresenta uma curiosa mistura entre parafernália de guerra e artigos de uso pessoal. Para além de destroços de mísseis recuperados de zonas residenciais, hospitais, escolas e teatros, há escovas de dentes, sapatos e telemóveis dos soldados russos.

Uma visita que pode ser dolorosa

Poucas vezes se ouviu falar de uma exposição sobre um conflito que afeta de forma tão dramática quem a visita. E visitá-la pode ser experiência dolorosa, como explica Anna Kivadenko, residente na capital ucraniana:

“A exposição é realmente notável e acho que a ideia é excelente. Mas custa olhar para os artigos. Eu estava fora de Kiev quando tudo aconteceu (os bombardeamentos), pelo que é difícil ver isto tudo com os meus próprios olhos.”

Roman Tomashov também vive em Kiev e passou pela experiência dos ataques nos últimos meses. Diz que a ideia “é excelente.”

“Toda a gente deveria vir e ver a exposição. Mas acho que é ainda melhor é visitar os lugares que foram recuperados (ao exército russo) para ver o que se passa e para recordar que a guerra ainda não acabou.”

Reprodução de abrigos usados durante os bombardeamentos

“A exposição tem como objetivo dar a conhecer os vários aspetos desta guerra lançada pela Rússia contra a Ucrânia,” explica Hainetdinov. Por isso, o Museu Nacional de História Ucrânia na Segunda Guerra Mundial decidiu também recriar abrigos usados pelos ucranianos para se protegerem dos bombardeamentos russos.

Algumas das instalações mostram camas com cobertores e almofadas usadas pelos habitantes de cidades e povoações em todo o país. O mais interessante é que os artigos foram realmente usados pelos ucranianos e permitiram que muitos sobrevivessem durante os ataques dos últimos meses.

A exposição da guerra na Ucrânia, patente em Kiev, permite conhecer uma realidade que vai, sem dúvida, entrar para os manuais de História Contemporânea, mas que, por enquanto, continua a ser presente dos ucranianos. E permite conhecer melhor a realidade de um conflito cujo final, por agora, está longe de ser conhecido.

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