Condições horríveis, chão emporcalhado, paredes ensanguentadas, medo, desespero. Ex-fuzileiro americano relata a sua vida nas prisões russas

CNN , Maegan Vázquez
23 mai, 13:23
Trevor Reed

EXCLUSIVO CNN. Trevor Reed, que foi condenado na Rússia a nove anos de prisão, fala pela primeira vez da detenção, da prisão e do seu regresso, que aconteceu numa troca de prisioneiros com um contrabandista russo condenado.

Na sua primeira entrevista em televisão desde que regressou aos Estados Unidos, depois de estar preso na Rússia, Trevor Reed contou os antecedentes e as condições horríveis da sua detenção, bem como a troca de prisioneiros que encerrou uma provação de quase três anos, para ele e para a sua família.

Reed disse a Jake Tapper, para uma reportagem especial da CNN - "Finalmente em casa: a entrevista de Trevor Reed" - que foi para o ar este domingo à noite, que está a sentir-se um pouco melhor a cada dia que passa, desde que voltou para casa há menos de um mês.

"Nos últimos dias, as coisas têm sido mais reais para mim. Mas há um tempo em que simplesmente não aceitas isto. Que estás de volta. Não consegues entender que estás realmente livre", contou.

Reed, um cidadão americano e ex-fuzileiro naval, foi condenado a nove anos de prisão em julho de 2020, depois de ser acusado de colocar em risco a "vida e a saúde" de agentes da polícia russos numa luta no ano anterior. Ele e a sua família negaram as acusações.

Como parte de uma troca com os EUA de prisioneiros, por Konstantin Yaroshenko, um contrabandista russo condenado por conspirar para importar cocaína, Reed foi libertado da Rússia no final de abril. Os EUA comutaram a sentença de Yaroshenko.

A prisão

Durante o verão de 2019, Reed viajou para Moscovo planeando passá-lo com a sua namorada, a advogada Lina Tsybulnik. Depois de o casal participar numa festa numa noite que incluiu muito álcool, Reed desmaiou e ficou doente na beira da estrada, antes da polícia chegar ao local e levá-lo para a entrada da esquadra, contou à CNN.

Reed diz que dormiu no lóbi esperando sair de manhã. Mas quando estava à espera de uma boleia para ir para casa da namorada, houve uma mudança de turno na esquadra.

Reed lembrou: "Novos agentes entraram com um novo chefe da polícia. Ele viu que eu estava a falar inglês com o responsável de lá... E após cerca de três minutos, eles voltaram e disseram-me que eu não podia sair. Tentei perguntar porquê. Mas não me responderam." Segundo Reed, oficiais da FSB, a organização sucessora da KGB, chegaram cerca de dez minutos depois.

Quando Tsybulnik chegou à esquadra, de acordo com Reed, os agentes da polícia alegaram que ele havia sido preso por agredir polícias dentro da esquadra. Mas quando Tsybulnik pediu imagens da câmara, a polícia parou de falar com eles. A polícia mais tarde mudou a sua história, para dizer que Reed agredira os agentes no carro da polícia a caminho da esquadra, conta.

"Lina estava a seguir o carro da polícia até à esquadra. E disse, ‘sabe, obviamente isso não aconteceu’", lembra Reed. "A minha equipa de defesa acabou por receber um vídeo da estrada onde isso supostamente acontecera, e foi capaz de provar não aconteceu nada disso."

Reed acredita também que foi espancado por polícias quando estava desmaiado na esquadra.

A vida de Reed dentro da prisão russa

Durante o tempo como prisioneiro na Rússia, Reed recusou-se sempre a admitir qualquer culpa. Recusou-se a participar no trabalho enquanto esteve num campo de trabalho, o que levou ao confinamento solitário. E participou em greves de fome para protestar contra o campo de trabalho e ter atendimento médico.

O tempo na prisão teve um preço físico. Reed diz que perdeu 45 quilos e tossiu sangue durante meses, temendo ter contraído covid-19 ou tuberculose.

Questionado sobre se esteve perto de um ponto de rutura, Reed respondeu a Tapper: "Não. E para ser honesto - quanto mais tempo eu lá estava, mais dedicado estava a não permitir que eles me quebrassem".

"Talvez tivesse morrido. Mas, psicologicamente, eles nunca me quebrariam", acrescentou.

Reed disse também a Tapper que acredita ter sido enviado para o centro de tratamento psiquiátrico como punição pelo seu esforço contínuo em recorrer da sua condenação. Ele descreve a instalação: "Havia sangue nas paredes - onde os prisioneiros se mataram, ou mataram outros prisioneiros, ou tentaram fazê-lo".

"A casa de banho é apenas um buraco no chão. E há, sabe, porcaria em todo o sítio, no chão, nas paredes. Há pessoas que caminham por lá que parecem zombies", continua. Reed diz que não dormiu durante dias, por medo do que as pessoas na sua cela poderiam fazer-lhe.

Dentro da prisão, Reed negou a si mesmo a esperança de sair.

“Muitas pessoas não vão gostar do que eu vou dizer, mas eu quase via a esperança deles como uma fraqueza”, confidencia. "Por isso, não queria ter essa esperança de, tipo, ser libertado de alguma forma e depois ver isso a ser-me tirado."

"Eu não iria permitir-me ter esperança".

A troca

Assim que a guerra da Rússia contra a Ucrânia começou no início deste ano, o desespero de Reed aprofundou-se. Na entrevista com Tapper, ele lembrou-se de pensar: "OK, agora não há como sair daqui".

Mas com o desenrolar da guerra, Reed foi transferido de um hospital para uma prisão do FSB em Moscovo. Ali, um funcionário do Departamento de Estado dos EUA disse-lhe que ele seria provavelmente libertado. Reed, no entanto, permaneceu cético. Funcionários de dentro e de fora do governo dos EUA vinham trabalhando há anos nos bastidores para libertar Reed.

Certa manhã, na prisão do FSB, Reed foi levado numa carrinha do FSB e colocado num avião com destino à Turquia. Quando o avião estava na pista na Turquia, disse Reed, “não fazia ideia do que estava a acontecer".

Oficiais russos do FSB a bordo disseram a Reed como funcionaria a troca: "Temos um homem lá na América. Um jato americano voará até aqui. Pousará ao nosso lado. Tu sairás do avião. Ele sairá do avião. Vão cruzar-se um com o outro na pista e entras no teu avião”, recordou Reed.

"Eu estava, tipo, 'Não'", diz Reed rindo-se. "Tipo, este gajo tem de estar a brincar comigo." Foi então que Roger Carstens, o enviado especial dos EUA para assuntos de reféns, entrou no avião para identificá-lo. Depois, ele e Yaroshenko cruzaram-se na pista.

Ao deixar a Turquia, Reed diz que comeu um bife a bordo e ligou para a sua mãe e o seu pai.

Esta troca no mês passado, segundo disse antes à CNN um funcionário do governo, foi o culminar de "meses e meses de trabalho árduo e cuidadoso em todo o governo dos EUA", que ocorreu no contexto de crescentes tensões entre Washington e Moscovo – que foram dramaticamente exacerbadas pela guerra brutal da Rússia contra a Ucrânia.

Foi a combinação de fatores em torno do caso de Reed - incluindo a deterioração da sua saúde na prisão, o ativismo persistente da sua família, que levou a uma reunião com o presidente dos Estados Unidos, e a situação na Ucrânia - que levou Biden a autorizar a troca por Yaroshenko, afirmou uma fonte à CNN no mês passado.

Família dá crédito a políticos e à imprensa e defende troca de prisioneiros

Os Reed dizem que devem aos legisladores de ambos os lados por ajudarem a fazer a troca acontecer, incluindo o representante republicano do Texas August Pfluger e a administração Biden.

"Isto não é político", disse o pai de Trevor, Joey Reed, a Tapper. "Quando eles apanharam o Trevor, eles não apanharam um republicano ou um democrata. Eles apanharam um americano, e um veterano. Precisamos de começar a olhar para estes casos como sendo um ataque à América. E vamos trazê-los para casa. Se não podemos forçá-los, devemos negociar ou fazer o que for necessário para trazer os nossos americanos para casa."

Trevor Reed agradeceu também à imprensa, por cobrir a sua detenção, e deu créditos aos repórteres por ajudarem a garantir o seu regresso aos Estados Unidos. Durante grande parte da detenção de Reed, os seus pais apareciam frequentemente diante da imprensa defendendo o retorno do seu filho. Reed disse que a sua libertação no mês passado "nunca teria acontecido" se a imprensa americana não cobrisse e consciencializasse o público sobre a sua prisão.

"Nos EUA, a comunicação social desempenhou um papel fundamental em tudo isto. Por isso, quero agradecer à CNN, ABC, Fox News – a todos que cobriram - por fazer isso", continuou. "E quero dizer: continuem o bom trabalho e continuem a fazer isto com outros reféns... Isso é algo, infelizmente, de que nosso governo precisa para funcionar”.

Mas a família Reed também disse que alguns legisladores rejeitaram os seus pedidos, porque a família não era do seu distrito no Congresso. E Joey Reed disse que a família "não ouviu nada do Corpo de Fuzileiros Navais" ou de qualquer grupo do Corpo de Fuzileiros Navais em resposta à prisão do seu filho. "Sentimo-nos muito dececionados com o Corpo de Fuzileiros Navais", disse Joey Reed. "Há milhões de ex-fuzileiros navais. Pense no poder de voto que você teria. Pense na voz que você teria. E não pode usar nada disso em benefício de outro fuzileiro?" O porta-voz do Corpo de Fuzileiros Navais, major Jim Stenger, disse à CNN: "Trevor Reed serviu o seu país honrosamente como fuzileiro naval e agradecemos-lhe pelo seu serviço. Estamos felizes por ele ter voltado para casa em segurança e desejamos-lhe, a ele e à sua família, o melhor ao reunirem-se".

Trevor Reed também realçou que não acredita que a participação dos EUA em trocas de prisioneiros para trazer americanos de volta deva ser controversa.

Embora alguns críticos digam que a participação dos EUA nas trocas poderia incentivar governos estrangeiros a manter americanos reféns ou prisioneiros sob falsas acusações, como forma de alavancagem numa negociação, Reed disse que essas nações “continuarão a fazer isso enquanto os cidadãos americanos viajarem para lá”.

"O que é preciso entender é que países como a Coreia do Norte – agora a Rússia, obviamente, a China, a Síria, o Irão, a Venezuela - países como estes farão reféns americanos, não importa o que aconteça", disse Reed. "Mesmo que não recebam algum tipo de troca por esses prisioneiros, farão isso de qualquer maneira apenas por pura maldade, apenas para mostrar aos Estados Unidos que 'apanhámos os vossos cidadãos'."

Reed também disse que o que diferencia os EUA de outras nações é a sua disposição de trazer os americanos para casa quando são mantidos reféns ou presos injustamente no estrangeiro.

"(Os) Estados Unidos tomaram a decisão ética de trocar prisioneiros para tirar os seus americanos inocentes daquele país, mesmo enquanto os trocavam por alguém que é mais importante e valioso nos Estados Unidos", disse Reed, acrescentando depois que "os russos, os chineses, os venezuelanos, o Irão, a Síria, a Coreia do Norte - nenhum deles jamais em toda a sua história fez ou jamais faria uma troca por um prisioneiro que é apenas um dos seus cidadãos médios. Eles nunca o fariam e é isso que diferencia os Estados Unidos."

Enquanto isso, mais dois americanos, Paul Whelan e Brittney Griner, continuam detidos na Rússia.

Um alto funcionário do governo disse à CNN no mês passado que não vê necessariamente a repatriação bem-sucedida de Reed como traduzindo-se num impulso para os casos de Whelan e Griner, mas que o governo dos EUA continuará a pressionar a sua libertação e que o canal para possíveis trocas permanecerá aberto.

O secretário de Estado Antony Blinken falou com a mulher de Griner, Cherelle Griner, na semana passada. De acordo com um alto funcionário do Departamento de Estado, o diplomata principal dos EUA retransmitiu que a libertação de Griner é uma prioridade para o departamento e tem toda a sua atenção.

Para Reed, defender outros americanos presos no estrangeiro parece agora estar a tornar-se numa nova missão. “Precisamos de fazer absolutamente tudo o que pudermos, como americanos, para defender os americanos que estão detidos ilegalmente no exterior e fazer tudo o que pudermos para tirá-los de lá”, disse Reed à CNN. "Quando me disseram que eu ia sair, pensei que Paul (Whelan) ia sair comigo. E quando descobri que o deixaram aqui, foi difícil."

Reed disse que, embora perceba que não há nada que pudesse ter feito para trazer Whelan com ele, "o facto é que os Estados Unidos deveriam tê-lo tirado de lá, e temos de tirá-lo, a qualquer custo".

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