Como um paiol na Transnístria (o maior da Europa) está a "pôr os russos nervosos"

5 mai, 08:00

Tem mais de 20 mil toneladas de material guerra, de calibre soviético, que poderá resolver os problemas das forças ucranianas. A situação na região pode inclusive criar um novo palco de conflito na Europa de Leste, segundo o major-general Agostinho Costa

Com o desenrolar da guerra na Ucrânia, há cada vez mais receios de que possa surgir um novo palco do conflito na Europa de Leste. Os olhares pendem agora para a Transnístria, um território separatista dentro da Moldova e que tem sido alvo de vários ataques nas últimas semanas. E há um fator que pode significar um ponto de viragem na centralidade da guerra. Tudo por causa de um paiol.

Em declarações à CNN Portugal, o major-general Agostinho Costa explica que o paiol da Transnístria, o maior da Europa, com mais de 20 mil toneladas de material de guerra, "suscita um grande apetite para a Ucrânia" pela quantidade de munições que abriga e que "podem dar muito jeito" às forças de Kiev.

Isto porque a Ucrânia está há mais de 60 dias a ver os seus depósitos de armamento serem atingidos por mísseis de longo alcance, portanto, é natural que esteja com "um problema logístico", que poderá se resolvido com as milhares de munições que se encontram no paiol da Transnístria e que correspondem aos "calibres soviéticos", que a Ucrânia utiliza.

É certo que "o Ocidente está a fornecer artilharia à Ucrânia", ao abrigo do apoio militar para ajudar na defesa do país contra a invasão russa. "Só que esses calibres não são soviéticos", acrescenta.

"Portanto, [o paiol na Transnístria] suscita um grande apetite para a Ucrânia", diz o especialista militar, salientando que este interesse "põe os russos nervosos" perante uma eventual entrada das forças ucranianas na Transnístria "para se apoderarem deste paiol" e garantirem o seu "reabastecimento durante algum tempo".

Se a Ucrânia efetivamente entrar na Transnístria, as tropas russas, que têm ali cerca de 2.500 militares a garantir a segurança do paiol, têm duas hipóteses, de acordo com o major-general: "Ou se rendem e morrem ou são obrigadas a ter um plano de contingência que passa por direcionar as forças que neste momento estão no Donbass para aquela região."

Ou seja, a eventual entrada das forças ucranianas na Transnístria pode "alterar substancialmente a manobra no plano operacional", que se trava agora no Donbass e na região de Zaporizhzia. Segundo o vice-presidente do Eurodefense-Portugal, se a Rússia decidir abandonar o contingente militar que está na Transnístria, isso pode significar uma "derrota significativa", sobretudo do ponto de vista político, uma vez que, nesse caso, o conflito travar-se-ia fora das fronteiras da Ucrânia.

"Por outro lado, se os russos decidirem intervir, terão de abrir uma nova frente direcionada a Odessa e, tendo em conta a capacidade e o volume de forças que os russos têm no teatro, isso não lhes facilitaria muito a vida", acrescenta.

A ligação à União Soviética e a "espinha na garganta" da Roménia

O major-general salienta, ainda, que "a questão da Transnístria é uma questão sensível para todas as partes", quer para a própria Moldova, como para a Rússia ou para a Ucrânia. Em primeiro lugar, "porque a Moldova fazia parte da União Soviética e ainda não está integrada no Ocidente", embora a sua atual presidente, Maia Sandu, seja "pró-Ocidente" e esteja a tentar orientar o país no sentido de uma aproximação à União Europeia (UE).

Por outro lado, e à semelhança do que acontece na Ucrânia, com as regiões separatistas no Donbass e a Crimeia, a Moldova tem um problema na Transnístria, que é controlada militarmente pelo Kremlin, "o que logo à partida torna difícil a sua eligibilidade tanto para entrar na NATO como na UE.

Agostinho Costa explica que "esta região da Transnístria sublevou-se com o apoio e interesse russo, no sentido de assegurar a manutenção da presença militar" russa no território. Daí que "uma boa parte da população ainda seja pró-russa", salienta.

"Da parte ocidental, temos de ter presente que a Moldova é um pouco uma espinha na garganta da Roménia, que entende aquele território como o seu espaço estratégico natural", pelo que terá, no mínimo, o interesse em "manter a Moldova próxima da sua área", diz o major-general. "Não estou a dizer anexar ou ocupar, mas sim retirar a Moldova do espaço de influência russo."

Da mesma forma, acrescenta, "há um elemento importante ao nível estratégico naquela área, que é a Polónia". "Há algumas indicações de que haverá uma predisposição para juntamente com a Roménia poderem intervir na Moldova, mas isso é mera especulação que os canais transmitem. Temos de perceber que há muita propaganda no meio de tudo isto."

O major-general Agostinho Costa sublinha, também, que, a par do conflito militar que está a travar no terreno, existe também uma "guerra de propaganda de parte a parte". "Os ucranianos dizem que os russos vão atacar a Ucrânia a partir da Transnístria - não se percebe bem como é que 2.500 militares atacam a Ucrânia, que é um país imenso. Por sua vez, os russos falam nesta preparação para uma intervenção na Moldova por parte da Roménia e da Polónia, a coberto dos exercícios da NATO que estão a decorrer neste momento na Roménia."

Face a este "quadro de incerteza", motivado pelos ataques que têm atingido a Moldova nas últimas semanas, o especialista assume que "é possível" assistirmos a uma mudança da centralidade do conflito. "Vamos ver surgirem mais incidentes na Transnístria e depois, em função disso, tiraremos as nossas conclusões."

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