Presidente russo pode ter perdido um aliado, mas o ataque americano e israelita pode traduzir-se num dupla vitória para Moscovo
A eliminação do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, parecia um duro golpe para a rede de aliados de Moscovo, mas a ofensiva militar liderada por Washington e Telavive arrisca transformar-se num autêntico "balão de oxigénio" para Vladimir Putin. Ao provocar um choque nos mercados de energia que promete encher os cofres russos, e ao forçar o consumo intensivo de mísseis Patriot no Médio Oriente, a crise no Irão oferece ao Kremlin uma dupla vantagem — financeira e militar — deixando a Ucrânia com os céus mais desprotegidos numa altura crítica do conflito.
"A capacidade da Rússia de continuar a guerra na Ucrânia está muito ligada às receitas do petróleo e, com estes acontecimentos, o Estado russo está a obter receitas adicionais. Esta é uma boa notícia para a Rússia e uma má notícia para a Ucrânia", disse Simone Tagliapietra, investigador do grupo de reflexão Bruegel, à CNN na segunda-feira.
Embora as receitas da Rússia provenientes das exportações de petróleo tenham caído drasticamente nos últimos anos, os rendimentos da produção de petróleo bruto continuam a contribuir significativamente para o orçamento do Kremlin e para o seu esforço de guerra. De acordo com o Instituto de Estudos Energéticos de Oxford, as receitas do petróleo e do gás natural representaram cerca de 23% do orçamento federal russo no ano passado, um valor significativo para um país que está a gastar 170 mil milhões de dólares por ano com a invasão na Ucrânia.
"Para o nosso orçamento, [o ataque ao Irão] é uma grande vantagem. Se Trump atacar os campos petrolíferos iranianos, então, por mais lamentável que pareça, nós [a Rússia] tornar-nos-íamos um dos poucos países produtores de petróleo que restam. Nós ganhamos um trunfo neste jogo complexo", disse o conhecido propagandista russo, Vladimir Solovyov, aos seus espectadores.
E esta perceção está a ser amplamente partilhada entre algumas das figuras mediáticas mais influentes do regime russo. Kiril Dmitriev, empresário russo que tem feito a ponte entre o lado russo e a equipa norte-americana nas negociações de paz da Ucrânia, correu para as redes sociais para enfatizar a subida do preço do barril de petróleo. "Em breve, o petróleo ultrapassará os 100 dólares por barril", gabou-se o enviado do Kremlin, logo no sábado à noite.
$100+ oil per barrel soon. https://t.co/GA3gOWAYtu
— Kirill Dmitriev (@kadmitriev) February 28, 2026
A ofensiva americana e israelita contra o Irão está a limitar fortemente a passagem de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, uma pequena passagem marítima que dá acesso ao Golfo Pérsico, uma das principais regiões produtoras de petróleo e gás natural. A decisão teve um efeito quase imediato nos mercados, com o petróleo a disparar mais de dez dólares, num só dia, com o barril de Brent a atingir já os 85 dólares por barril.
"O Irão controla uma das margens e as ilhas que estão no Estreito de Ormuz, que é bastante estreito. A interdição é feita pela ameaça do uso da força e o que acontece é que os petroleiros não querem arriscar a fazer isso", explica o tenente-general Marco Serronha, especialista em assuntos militares.
Os preços do gás natural também dispararam, com o contrato futuro do TTF holandês, considerado a referência europeia, a superar já os 50 euros. O preço desta matéria-prima foi pressionado pela decisão da companhia energética pública do Catar, QatarEnergy, de interromper a produção de gás natural liquefeito (GNL) devido aos ataques iranianos contra as instalações de dois dos seus principais locais de processamento de gás.
Attack against the huge Ras Tanura refinery in 🇸🇦 will not reassure oil markets. pic.twitter.com/dvNglvwV7C
— Carl Bildt (@carlbildt) March 2, 2026
O quão alto podem ir os preços energéticos? Depende, sobretudo, de dois fatores. O primeiro está ligado à dimensão da disrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. Para já, as perturbações registadas são significativas. De acordo com a aplicação de análise de tráfego marítimo em tempo real, Marinetraffic, o trânsito através deste estreito caiu aproximadamente 90%, depois de o ataque ter começado na madrugada de sábado.
Tanker traffic through Strait of Hormuz down by 90%
— MarineTraffic (@MarineTraffic) March 4, 2026
Analysis of vessel activity indicates tanker transits are now around 90% lower than last week. Matt Wright, Principal Freight Analyst at Kpler, explains: "Unlike several other vessel segments where movements have largely… pic.twitter.com/JIhFoAkQKO
O segundo fator prende-se com possíveis ataques contra infraestruturas de produção na região, algo que já aconteceu neste conflito. Não só as instalações da QatarEnergy foram atingidas, como vários drones iranianos atacaram a refinaria de Ras Tanura, na Arábia Saudita, na segunda-feira. Segundo o porta-voz das forças armadas sauditas, os drones foram abatidos e a refinaria, que produz meio milhão de barris por dia, foi encerrada temporariamente como medida de precaução.
Atualmente, a ofensiva americana e israelita não conta com "botas no terreno" e está a levar a cabo uma forte campanha de bombardeamento estratégico contra alvos iranianos. Mas Teerão responde com o envio de dezenas de mísseis balísticos e centenas de drones de longo alcance que, apesar de não atingirem os alvos com tanta precisão, obrigam os países envolvidos a gastar as suas reservas de defesas antiaéreas a um ritmo elevado. Segundo avança o The Wall Street Journal, Estados Unidos e Israel estão numa autêntica corrida contra o tempo para destruir a capacidade militar do Irão antes que as suas próprias reservas de munições e intercetores antiaéreos se esgotem.
A publicação americana relata que este era um problema que já tinha chegado aos ouvidos de Donald Trump através das suas principais chefias militares, mas que agora está a atingir um ponto crítico. A defesa contra as retaliações iranianas está a consumir a um ritmo alarmante mísseis vitais, incluindo os sistemas Patriot e Standard Missiles (SM-3), exatamente o tipo de escudo antiaéreo que a Ucrânia pede incessantemente para travar os ataques russos às suas cidades e infraestruturas elétricas.
Segundo um comunicado oficial conjunto da Lockheed Martin e do Departamento de Defesa dos EUA de janeiro de 2026, a produção do modelo avançado PAC-3 MSE vai ser fortemente acelerada através de um novo acordo de sete anos, passando das atuais cerca de 600 unidades anuais (foram entregues 620 em 2025) para a ambiciosa meta de duas mil unidades por ano. Estes números chocam com a intensidade dos combates no Médio Oriente e na Ucrânia. Só no mês de fevereiro, a Rússia disparou 288 mísseis contra o território ucraniano e 5.059 drones.
Embora Trump garanta que a campanha de bombardeamentos pesados continuará "durante a semana ou o tempo que for necessário", a realidade logística impõe limites severos. Com o consumo maciço de intercetores e mísseis de cruzeiro Tomahawk, a capacidade de Washington para reabastecer as forças ucranianas fica seriamente comprometida. Numa fase em que o Pentágono teme até pelas suas reservas necessárias para conter a China no Pacífico, o desvio destes recursos vitais para o Médio Oriente deixa os céus da Ucrânia cada vez mais à mercê da força aérea de Vladimir Putin.
"Durante os três meses de inverno, os russos lançaram mais de 14.670 bombas aéreas guiadas, 738 mísseis e quase 19.000 drones de ataque, a maioria deles shahed russo-iranianos, contra o nosso povo", afirmou Zelensky.
Esta realidade coloca as necessidades ucranianas muito acima da capacidade de produção norte-americana e agora, com as necessidades dos EUA a aumentar drasticamente com a guerra no Médio Oriente, Kiev pode ter ainda mais dificuldades a conseguir adquirir os mísseis intercetores que precisam para defender as suas infraestruturas contra os ataques de Vladimir Putin.