Como Trump acabou de dar a Putin "um trunfo num jogo complexo" com a guerra no Irão

6 mar, 07:00
Ataque Irão (AP)

Presidente russo pode ter perdido um aliado, mas o ataque americano e israelita pode traduzir-se num dupla vitória para Moscovo

A eliminação do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, parecia um duro golpe para a rede de aliados de Moscovo, mas a ofensiva militar liderada por Washington e Telavive arrisca transformar-se num autêntico "balão de oxigénio" para Vladimir Putin. Ao provocar um choque nos mercados de energia que promete encher os cofres russos, e ao forçar o consumo intensivo de mísseis Patriot no Médio Oriente, a crise no Irão oferece ao Kremlin uma dupla vantagem — financeira e militar — deixando a Ucrânia com os céus mais desprotegidos numa altura crítica do conflito.

"A capacidade da Rússia de continuar a guerra na Ucrânia está muito ligada às receitas do petróleo e, com estes acontecimentos, o Estado russo está a obter receitas adicionais. Esta é uma boa notícia para a Rússia e uma má notícia para a Ucrânia", disse Simone Tagliapietra, investigador do grupo de reflexão Bruegel, à CNN na segunda-feira.

Embora as receitas da Rússia provenientes das exportações de petróleo tenham caído drasticamente nos últimos anos, os rendimentos da produção de petróleo bruto continuam a contribuir significativamente para o orçamento do Kremlin e para o seu esforço de guerra. De acordo com o Instituto de Estudos Energéticos de Oxford, as receitas do petróleo e do gás natural representaram cerca de 23% do orçamento federal russo no ano passado, um valor significativo para um país que está a gastar 170 mil milhões de dólares por ano com a invasão na Ucrânia.

"Para o nosso orçamento, [o ataque ao Irão] é uma grande vantagem. Se Trump atacar os campos petrolíferos iranianos, então, por mais lamentável que pareça, nós [a Rússia] tornar-nos-íamos um dos poucos países produtores de petróleo que restam. Nós ganhamos um trunfo neste jogo complexo", disse o conhecido propagandista russo, Vladimir Solovyov, aos seus espectadores. 

E esta perceção está a ser amplamente partilhada entre algumas das figuras mediáticas mais influentes do regime russo. Kiril Dmitriev, empresário russo que tem feito a ponte entre o lado russo e a equipa norte-americana nas negociações de paz da Ucrânia, correu para as redes sociais para enfatizar a subida do preço do barril de petróleo. "Em breve, o petróleo ultrapassará os 100 dólares por barril", gabou-se o enviado do Kremlin, logo no sábado à noite.

A ofensiva americana e israelita contra o Irão está a limitar fortemente a passagem de navios petroleiros no Estreito de Ormuz, uma pequena passagem marítima que dá acesso ao Golfo Pérsico, uma das principais regiões produtoras de petróleo e gás natural. A decisão teve um efeito quase imediato nos mercados, com o petróleo a disparar mais de dez dólares, num só dia, com o barril de Brent a atingir já os 85 dólares por barril.

"O Irão controla uma das margens e as ilhas que estão no Estreito de Ormuz, que é bastante estreito. A interdição é feita pela ameaça do uso da força e o que acontece é que os petroleiros não querem arriscar a fazer isso", explica o tenente-general Marco Serronha, especialista em assuntos militares.

Os preços do gás natural também dispararam, com o contrato futuro do TTF holandês, considerado a referência europeia, a superar já os 50 euros. O preço desta matéria-prima foi pressionado pela decisão da companhia energética pública do Catar, QatarEnergy, de interromper a produção de gás natural liquefeito (GNL) devido aos ataques iranianos contra as instalações de dois dos seus principais locais de processamento de gás.

O quão alto podem ir os preços energéticos? Depende, sobretudo, de dois fatores. O primeiro está ligado à dimensão da disrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz. Para já, as perturbações registadas são significativas. De acordo com a aplicação de análise de tráfego marítimo em tempo real, Marinetraffic, o trânsito através deste estreito caiu aproximadamente 90%, depois de o ataque ter começado na madrugada de sábado. 

O segundo fator prende-se com possíveis ataques contra infraestruturas de produção na região, algo que já aconteceu neste conflito. Não só as instalações da QatarEnergy foram atingidas, como vários drones iranianos atacaram a refinaria de Ras Tanura, na Arábia Saudita, na segunda-feira. Segundo o porta-voz das forças armadas sauditas, os drones foram abatidos e a refinaria, que produz meio milhão de barris por dia, foi encerrada temporariamente como medida de precaução.

Atualmente, a ofensiva americana e israelita não conta com "botas no terreno" e está a levar a cabo uma forte campanha de bombardeamento estratégico contra alvos iranianos. Mas Teerão responde com o envio de dezenas de mísseis balísticos e centenas de drones de longo alcance que, apesar de não atingirem os alvos com tanta precisão, obrigam os países envolvidos a gastar as suas reservas de defesas antiaéreas a um ritmo elevado. Segundo avança o The Wall Street Journal, Estados Unidos e Israel estão numa autêntica corrida contra o tempo para destruir a capacidade militar do Irão antes que as suas próprias reservas de munições e intercetores antiaéreos se esgotem.

A publicação americana relata que este era um problema que já tinha chegado aos ouvidos de Donald Trump através das suas principais chefias militares, mas que agora está a atingir um ponto crítico. A defesa contra as retaliações iranianas está a consumir a um ritmo alarmante mísseis vitais, incluindo os sistemas Patriot e Standard Missiles (SM-3), exatamente o tipo de escudo antiaéreo que a Ucrânia pede incessantemente para travar os ataques russos às suas cidades e infraestruturas elétricas.

Segundo um comunicado oficial conjunto da Lockheed Martin e do Departamento de Defesa dos EUA de janeiro de 2026, a produção do modelo avançado PAC-3 MSE vai ser fortemente acelerada através de um novo acordo de sete anos, passando das atuais cerca de 600 unidades anuais (foram entregues 620 em 2025) para a ambiciosa meta de duas mil unidades por ano. Estes números chocam com a intensidade dos combates no Médio Oriente e na Ucrânia. Só no mês de fevereiro, a Rússia disparou 288 mísseis contra o território ucraniano e 5.059 drones.

Embora Trump garanta que a campanha de bombardeamentos pesados continuará "durante a semana ou o tempo que for necessário", a realidade logística impõe limites severos. Com o consumo maciço de intercetores e mísseis de cruzeiro Tomahawk, a capacidade de Washington para reabastecer as forças ucranianas fica seriamente comprometida. Numa fase em que o Pentágono teme até pelas suas reservas necessárias para conter a China no Pacífico, o desvio destes recursos vitais para o Médio Oriente deixa os céus da Ucrânia cada vez mais à mercê da força aérea de Vladimir Putin.

"Durante os três meses de inverno, os russos lançaram mais de 14.670 bombas aéreas guiadas, 738 mísseis e quase 19.000 drones de ataque, a maioria deles shahed russo-iranianos, contra o nosso povo", afirmou Zelensky.

Esta realidade coloca as necessidades ucranianas muito acima da capacidade de produção norte-americana e agora, com as necessidades dos EUA a aumentar drasticamente com a guerra no Médio Oriente, Kiev pode ter ainda mais dificuldades a conseguir adquirir os mísseis intercetores que precisam para defender as suas infraestruturas contra os ataques de Vladimir Putin.

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