Como Putin esconde uma fortuna. “Não há literalmente nenhum rasto”, explicam especialistas sobre a Rússia

CNN , Curt Devine, Casey Tolan e Majlie de Puy Kamp
18 mar, 20:39

Putin declara um salário anual de 140 mil dólares, mas pode ser uma das pessoas mais ricas do planeta. A invasão da Ucrânia mostra no entanto que ele já não estará tão interessado na sua fortuna

O extenso palácio multimilionário que fica no topo de uma colina com vista para o Mar Negro é visto por alguns críticos do Kremlin como o derradeiro símbolo do legado de corrupção do Presidente russo, Vladimir Putin.

Denominado “Palácio de Putin”, a mega mansão, com cerca de 17 650 metros quadrados, foi supostamente construída para seu uso pessoal, com fundos de oligarcas multimilionários, que Putin alegadamente permitiu que crescessem na economia russa notoriamente corrupta, desde que partilhassem a sua fortuna... com ele.

A propriedade tem o seu próprio anfiteatro, um ringue de hóquei subterrâneo e um porto privado, de acordo com o documentário realizado pelo grupo anticorrupção do líder preso da oposição russa, Alexei Navalny. Há uma zona de interdição do espaço aéreo e uma zona de interdição a barcos nas águas que a rodeiam.

A magnífica fortaleza é um enorme contraste com o apartamento minúsculo de 74 metros quadrados que Putin reclama na sua divulgação de dados financeiros de 2020.

Ainda assim, apesar da opulência do retiro no topo da colina, Nate Sibley, especialista em corrupção russa e consultor dos membros do Congresso, disse à CNN que “ficaria muito surpreendido se Putin voltasse a lá entrar”,

Sibley afirma que o palácio simboliza o que ele vê como uma era passada da tentativa de Putin viver um estilo de vida luxuoso, que nunca poderia pagar com o seu salário governamental, através da riqueza dos oligarcas. Apesar de se acreditar que Putin arrecadou uma fortuna secreta através desses meios, no início da sua carreira, segundo Sibley, ele tem vindo a depender menos da riqueza dos benfeitores ao longo dos anos, e tem-se rodeado de pessoas leais ao governo e ao exército, que partilham a sua visão nacionalista dura.

Os extensos palácio e propriedade na costa do Mar Negro vistos nesta imagem são de um vídeo da Fundação Anticorrupção, de Alexei Navalny.

Alguns especialistas sobre Rússia disseram à CNN que essa mudança pode fazer com que seja mais difícil que Putin sinta, a nível pessoal, os efeitos das sanções económicas que os EUA e os aliados europeus impuseram para o punir pela invasão à Ucrânia.

Putin pôs-se numa posição, como Sibley descreve, “acima da confusão”.

Nem sempre foi assim. Quase duas décadas antes de Putin ter enfurecido o mundo com a sua mais recente invasão injustificada à Ucrânia, o Kremlin foi buscar o homem mais rico da Rússia ao seu jato privado e acusou-o de crimes contra o Estado.

Mikhail Khodorkovsky, um oligarca que já teve um património estimado nos 15 mil milhões de dólares, esteve preso numa cela no meio do tribunal, durante o seu julgamento altamente publicitado. Khodorkovsky, que criticou a corrupção do governo sob a liderança de Putin, foi condenado por evasão e fraude fiscal, apesar de argumentar que as acusações tiveram motivações políticas. Putin perdoou-o em 2013 e Khodorkovsky tem vivido exilado desde então.

O ato ousado de Putin contro o magnata de petróleo multimilionário foi visto como uma mensagem para os outros oligarcas: eles poderiam ser os próximos.

A tática exigia a lealdade inabalável da oligarquia.

O subsequente afluxo de dinheiro, presentes e boa vontade é uma explicação para a suspeita de que Putin, que reclama um salário de apenas 140 mil dólares anuais, possa ser uma das pessoas mais ricas do planeta. Há rumores de que ele é dono ou tem acesso não só ao palácio no Mar Negro, mas também a um iate de 100 milhões de dólares, de acordo com relatórios publicados. A CNN não conseguiu verificar a ligação de Putin ao palácio ou ao iate. O Kremlin ignorou os relatórios sobre a suposta fortuna secreta de Putin.

O facto de as propriedades e outros bens não estarem em seu nome não interessa, disse Tom Burgis, autor de um livro sobre branqueamento internacional de capitais, chamado Kleptopia. Burgis comparou Putin a “O Padrinho” e disse que todos sabem que quando este pede algo a um oligarca, na verdade, não é um pedido.

Mikhail Khodorkovsky, à esquerda, e o seu associado de confiança, Platon Lebedev, numa cela de um tribunal de Moscovo, a 12 de julho de 2004

“Em última instância, eles devem tudo o que têm ao chefe. E com um estalar de dedos, como já fez no passado, Putin pode tirar-lhes tudo”, disse Burgis. “Por muito influentes que possam parecer, estão dependentes dele”.

Muitos dos associados mais próximos de Putin, incluindo amigos de infância, uma mulher com quem alegadamente teve uma relação e um violoncelista profissional, que é o padrinho de uma das suas filhas, têm arrecadado enormes fortunas fora da Rússia, durante o seu tempo no poder, segundo documentos financeiros já divulgados.

Uma complicada teia de empresas de fachada, bancos offshore e transações ocultas encobrem a sua riqueza, com contas dentro umas das outras, como as matrioscas russas. Mas uma série de fugas de informação nos últimos anos, de empresas que facilitam o sistema financeiro offshore, incluindo os Panama Papers e os Pandora Papers, têm retirado algumas das camadas do sigilo.

Os ativos ligados ao círculo íntimo de Putin incluem um apartamento num edifício de luxo no Mónaco, com vista para o porto reluzente do principado. O apartamento no quarto andar foi comprado em 2003 por 4,1 milhões de dólares, por uma empresa de fachada chamada Brockville Development Ltd., uma empresa registada nas Ilhas Virgens Britânicas, como mostram os documentos publicados pelo The Washington Post.

O verdadeiro dono da empresa: Svetlana Krivonogikh, antiga empregada de limpezas de São Petersburgo, que alegadamente teve uma relação com Putin há duas décadas, de acordo com documentos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e reportado no Post e no The Guardian. A empresa foi registada apenas semanas depois de Krivonogikh, que tinha 28 anos na altura, ter dado à luz uma menina.

Proekt, um órgão de comunicação social russo independente que foi proibido no país no ano passado, noticiou que Putin tinha iniciado uma relação com Krivonogikh nos anos 90, antes de se tornar presidente, e que a sua filha tem um segundo nome patronímico que significa “filha de Vladimir”.

Krivonogikh recusou-se a fazer comentários sobre Putin aos jornalistas, mas a sua filha, que tinha dezenas de milhares de seguidores no Instagram, antes de apagar recentemente a sua conta, admitiu aos entrevistadores que tem semelhanças com o Presidente.

Para além do apartamento no Mónaco, Krivonogikh detém uma quota maioritária numa estância de esqui, onde Putin foi visto a desfrutar das encostas, vários outros apartamentos de luxo em São Petersburgo e um iate, informou o Post e o The Guardian.

Os documentos divulgados não deixam clara a origem das fortunas acumuladas pelo círculo íntimo de Putin. Mas, em vários casos, empresas e instituições financeiras ligadas a elas ganharam contratos estatais lucrativos.

A Rússia tem a maior riqueza escondida em paraísos fiscais offshore, tanto em termos de volume absoluto (estimativas conservadoras apontam para cerca de 800 mil milhões de dólares em 2017), como em percentagem do PIB nacional, de acordo com um relatório de 2020 do Atlantic Council.

Em média, 10% do PIB mundial é mantido em offshores. Contudo, na Rússia, a riqueza offshore representava até 60% do PIB em 2015, de acordo com um artigo de investigação do Journal of Public Economics de 2018, a estimativa mais recente disponível.

Especialistas dizem que cerca de um quarto deste dinheiro obscuro é indiretamente controlado por Putin e pelo seu círculo interno de oligarcas e representa uma “séria ameaça à segurança nacional” para os Estados Unidos. O relatório Mueller ilustrou como as contas offshore russas foram utilizadas para interferir nas eleições de 2016.

No início deste mês, o Departamento de Justiça anunciou a formação de uma força operacional, dedicada à aplicação de sanções e outras restrições económicas, destinadas a isolar a Rússia dos mercados globais. A força operacional KleptoCapture visará não só os funcionários e oligarcas russos, mas “aqueles que ajudam ou ocultam a sua conduta ilegal”.

Gary Kalman, diretor do departamento norte-americano da Transparência Internacional, um grupo de defesa anticorrupção, disse que a aplicação de sanções não seria fácil. “É extremamente difícil as autoridades tentarem 'seguir o dinheiro' porque, a dada altura, vai literalmente bater numa parede de tijolos”, disse Kalman. “Não há literalmente nenhum rasto”.

Os Estados Unidos e o Reino Unido são locais ideais para guardar grandes quantidades de dinheiro, estão entre os mercados financeiros mais profundos do mundo e ambos aceitam empresas de fachada anónimas, de acordo com o Atlantic Council.

Um grupo de investigadores internacionais descobriu que as empresas de fachada nos EUA podem ser criadas em menos de uma hora por apenas 200 dólares, sem terem de revelar legalmente quem as possui ou controla. Durante décadas, as empresas ocidentais, bancos e sociedades de advogados, lucraram ao ajudar os oligarcas russos a esconder o seu dinheiro, criando estruturas empresariais complicadas que tornam quase impossível a ligação dos bens, ou contas bancárias, a indivíduos.

O Presidente russo, Vladimir Putin, ao centro, e o Ministro da Defesa, Sergei Shoigu, veem a parada do Dia da Marinha, a 27 de julho de 2014, na principal base naval de Severomorsk, Rússia.

Aos olhos de antigos observadores de Putin, o enigmático líder russo passou o seu foco de busca pela riqueza para a consolidação do poder.

“É difícil compreender o que está exatamente a acontecer dentro do Kremlin e na mente de Vladimir Putin. No entanto, ele está numa relação cada vez mais estreita com um grupo muito pequeno de pessoas, que tendem a estar mais do lado militar e dos serviços secretos do que dos empresários”, disse Jill Dougherty, ex-chefe de gabinete de Moscovo da CNN, “porque, obviamente, se Putin se preocupasse com os negócios, não estaria a avançar com esta guerra na Ucrânia”.

“Neste momento, não depende dos oligarcas”, disse Stanislav Markus, professor associado de negócios internacionais na Universidade da Carolina do Sul. “São as armas, não o dinheiro, que falam mais alto no Kremlin de hoje”.

Independentemente de as prioridades terem mudado dentro do Kremlin, Maria Pevchikh, chefe de investigações da Fundação Anticorrupção de Navalny, defende que tanto o palácio perto do Mar Negro como a invasão russa da Ucrânia demonstram a forma como Putin se vê a si próprio, como muito mais do que um funcionário do governo.

“Ele vê-se a si próprio como um czar, como uma espécie de rei”, disse Pevchikh à CNN. “Tem grandes planos. Ele vê-se como uma figura histórica, sendo tão poderoso, tão grandioso, tão importante - e eles investem muito dinheiro nesta narrativa”.

Scott Glover contribuiu para este artigo.

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