Como proteger um presidente que viaja de carro no meio da guerra (a propósito de Zelensky e do seu acidente "estranho")

15 set, 17:00
Volodymyr Zelensky (EPA/SERGEY DOLZHENKO/LUSA)

Presidente ucraniano teve um acidente em Kiev: como é possível alguém ter batido nele, ele que é um homem particularmente protegido? Especialistas na área militar ouvidos pela CNN Portugal são claros: em qualquer protocolo há margem para a falha

Os detalhes do acidente com o carro do presidente da Ucrânia na noite desta quarta-feira são escassos. A viatura chocou contra um carro particular em Kiev, perto da Praça da Vitória. Volodymyr Zelensky foi avaliado pelos médicos, não tendo ferimentos graves. Já o condutor do outro veículo foi assistido no local pela equipa do presidente, acabando levado de ambulância.

Uma das imagens que circulam no Twitter mostra que o acidente terá acontecido numa zona de confluência de vias. Mas com Zelensky escoltado, inserido numa caravana de viaturas, que margem é que havia para este choque? Os especialistas na arte da guerra dizem que há sempre alguma margem porque do protocolo à realidade há sempre diferenças - ainda assim, por se desconhecerem os contornos do acidente, optam por uma análise cautelosa.

O major-General Carlos Branco explica que, num contexto de guerra, variam de país para país as regras de segurança nas deslocações de figuras importantes, como um chefe de Estad: “Cada país tem as suas formas de atuação”, resume. O cenário é corroborado pelo general Garcia Leandro: “O protocolo de segurança é adaptado à situação real e concreta. E pode evoluir”.

Daí que Carlos Branco, embora considere que o choque “é uma coisa estranha”, admita que um acidente contra um veículo particular é algo possível, dado o contexto urbano. Garcia Leandro segue no mesmo sentido: “Pode sempre acontecer. Não há uma solução que resolva isso a 100%”, referindo-se ao cruzamento de veículos. O militar socorre-se das memórias de outros episódios para confirmá-lo: um dos exemplos, na década de 1990, aconteceu em Portugal, em Almada, quando um autocarro, ao ver ligar-se a luz verde do semáforo, avançou e acabou por embater num veículo oficial. Faltou o polícia para proibir a passagem, diz Garcia Leandro.

Também o coronel Carlos Mendias Dias sublinha que existe uma “adaptação dos protocolos à situação de guerra”, com maior atenção, por exemplo, à revista da viatura e à definição do percurso, para evitar pontos com eventuais atiradores. Mas, como em tudo, há margem para falhar: “Estes protocolos de segurança são para mitigar as probabilidades de acontecer alguma coisa. Mas há sempre possibilidade de haver furo”.

Sinalizar? Em guerra é melhor não (basta ser discreto no dispositivo)

Se a sinalização de uma caravana prioritária é algo comum nas deslocações VIP, em contexto de guerra a identificação – por exemplo, com polícias nas ruas onde ela passa - pode significar riscos adicionais. Aqui poderia estar outra explicação para o sucedido em Kiev.

Pelas imagens que circulam no Twitter, não é possível determinar se existiu essa sinalização – ou mesmo quantos viaturas faziam parte da comitiva e a sua posição face ao veículo de Zelensky. Nos registos visuais surgem carros da polícia e um veículo dos bombeiros a delimitar a área do acidente.

“Não sei se a caravana estava sinalizada ou não mas estas deslocações devem ser o mais discretas possível. O Presidente deveria sempre deslocar-se numa viatura descaracterizada e blindada”, afirma Carlos Branco. Já Garcia Leandro também concorda que a viatura deveria circular despercebida e avisa que, num contexto de guerra, “a confusão é maior” no que toca a protocolos de segurança.

Mas, mesmo que a viatura seguisse descaracterizava, não poderia haver qualquer cedência no dispositivo montado em torno dela. “Mesmo que seja de noite [período de maior calma], não justifica que à hora da passagem não estivesse a segurança garantida. Teria de haver garantias de segurança nos cruzamentos, mesmo que de forma discreta [com polícia à paisana, por exemplo], para garantir que o trânsito está desimpedido. A noite não justifica nenhuma falha de segurança”, insiste o coronel Carlos Mendes Dias, lembrando que o risco de atentado, em especial num contexto de guerra, deve sempre fazer parte da estratégia.

Para evitar um acidente como este, dizem os especialistas, os serviços de informações e a execução (como os batedores) deveriam ter estar plenamente alinhados.c“Entre o protocolo e a prática há sempre uma margem. Pelas informações que existem, aquilo foi um acidente, não foi um assalto ou ataque”, resume Garcia Leandro, destacando que o episódio se dá em Kiev, zona controlada pelos ucranianos.

Zelensky voltava da região de Kharkiv, depois de uma visita surpresa à recém-libertada cidade de Izium. O acidente está agora a ser investigado pelas autoridades, confirmou o porta-voz do presidente ucraniano, ao anunciar o acidente.

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