Como a nova estratégia ucraniana ameaça fazer cair "dois gigantes" russos e contagiar o sistema bancário

30 jul, 08:00
Uma nuvem de fumo negro é vista sobre o porto de São Petersburgo, na Rússia, na quarta-feira, 3 de junho de 2026, após um ataque com drones ucranianos. Foto: AP
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Mais de 10% da capacidade de armazenamento da empresa conhecida como "a Amazon da Rússia" foi destruída nos últimos dias, causando milhares de milhões em prejuízos, perturbando operações e aumentando receios de que a nova campanha ucraniana possa ter perigosas ramificações no sistema bancário russo

As Forças Armadas ucranianas voltaram a atacar dois centros logísticos do gigante do retalho online russo Wildberries, desta vez na região de Ryazan, na quarta-feira, e em Sarapul, na a região de Udmúrtia. Esta é uma nova e calculada campanha de ataques de drones ucranianos que está a atingir o coração da economia digital russa e não está apenas a perturbar o fornecimento militar de bens de duplo-uso. A estratégia está a provocar estragos na vida de centenas de milhares de pequenos empresários e a ameaçar contagiar o próprio sistema bancário russo.  

De acordo com o governador da região de Ryazan, Pavel Malkov, seis pessoas foram hospitalizadas devido ao mais recente ataque de drone ucraniano contra o centro logístico da empresa. Imagens partilhadas nas redes sociais russas mostram a superfície industrial de grandes dimensões a ser consumida pelas chamas. 

É a oitava infraestrutura da empresa a ser atacada desde a madrugada de 19 de julho, naquilo que parece ser uma campanha deliberada das forças ucranianas para danificar uma das joias da coroa da economia digital russa. Os primeiros alvos ucranianos foram os armazéns de Moscovo e Tambov, seguindo-se Krasnodar e Nevinnomyssk três dias depois. No dia seguinte, foi a vez das instalações de São Petersburgo. Nove funcionários morreram e dezenas ficaram feridos. 

Kiev argumenta que estas infraestruturas estão a ser utilizadas pelo exército russo para o fornecimento de bens civis que podem ser utilizados no campo de batalha, principalmente componentes para drones, sistemas de navegação e equipamento de proteção individual militar, como capacetes e coletes à prova de bala. 

Em declarações à BBC, Serhii Kuzan, presidente do Centro de Cooperação e Segurança Ucraniano, descreveu a infraestrutura da Wildberries como um "componente vital" da operação logística do exército russo, dificultando o fornecimento de bens de duplo-uso. No entanto, a operação ucraniana está a ter um impacto mais profundo, levando a guerra diretamente à sociedade russa, que utiliza os serviços da empresa.

Os ataques estão a prejudicar severamente milhares de pequenas e médias empresas que recorrem aos serviços da Wildberries para fazer chegar os seus produtos aos consumidores. Nas redes sociais, dezenas de empresários publicaram mensagens de desespero, revelando que perderam todo o seu inventário. 

"Não é só um armazém que está a arder, é o tempo que tu investiste, o stress imenso que suportaste, o teu dinheiro, a tua última réstia de esperança. Tudo o que eu sinto é um vazio", desabafou Tatyana Mikhailova, num vídeo no Instagram, depois de ter visto arder todos os quatro mil casacos de pele que tinha comprado para vender no inverno.

Casos como os de Tatyana multiplicam-se, com mais de 552 mil metros quadrados de bens armazenados consumidos pelas chamas. As perdas superaram os dois mil milhões de euros, de acordo com a Data Insight, uma agência de investigação russa, citada pelo jornal de negócios russo Kommersant. 

A empresa já começou a pagar a compensação pelas perdas, mas muitos comerciantes queixam-se de que o valor pago não é suficiente. Dificilmente a empresa vai reembolsar os seus clientes de forma a que estes consigam repor aquilo que perderam.  Uma carta enviada pela associação do setor ao governo a pedir apoio aos comerciantes, referia que os armazéns afetados poderiam albergar mercadorias pertencentes a 220 mil clientes.

A Wildberries apressou-se também a anunciar um pacote de medidas de apoio aos comerciantes afetados que inclui reduções de taxas de armazenamento, descontos promocionais em produtos selecionados, isenção em taxas de transporte e o congelamento de reembolsos de empréstimos para pequenas e médias empresas.

Ao mesmo tempo, a imprensa russa dá conta de que a empresa está numa corrida contra o tempo para encontrar armazéns vagos no Cazaquistão, de forma a escapar aos ataques ucranianos. Ainda assim, o jornal económico Kommersant relata que o total de metros quadrados vago no país é apenas uma fração da área perdida e que, mesmo ocupado, estaria espalhado em várias cidades, dispersando ainda mais as operações.

Vários analistas têm alertado também para o perigo que o colapso da empresa poderia ter no sistema russo. De acordo com o Banco Central russo, a Wildberries deve cerca de 1.3 biliões de rublos (aproximadamente 15 mil milhões de euros). A vasta maioria desta dívida é para com o Sberbank, o maior banco russo, que poderá ter de arcar com o peso de quaisquer pagamentos de indemnização. 

"Penso que, para que estas compensações funcionem, o Estado russo encontrará uma forma de subsidiar a Wildberries, por exemplo, através de um empréstimo em condições muito favoráveis do Sberbank", afirmou Konstantin Sonin, professor da Universidade de Chicago e economista russo exilado, em declarações ao Kyiv Independent.

"Obviamente, o Sberbank perde dinheiro com estes empréstimos, mas é compensado pelo Banco Central, o que acaba por se traduzir numa inflação elevada", acrescentou Sonin. "É assim que o governo russo tem vindo a compensar as empresas pelas perdas relacionadas com a guerra desde o início da invasão em grande escala".

Mas a dimensão da empresa e a sua ligação aos principais atores do setor bancário russo podem vir dar algumas dores de cabeça a Moscovo. Em 2021, ainda antes da invasão russa da Ucrânia, um dos oligarcas mais próximos do Kremlin já alertava para o risco de falência do sistema bancário em caso de queda do império da Wildberries. 

"A falência da Wildberries destruiria o sistema bancário. Como se costuma dizer, quando deves um milhão ao banco, tens um problema. Quando deve mil milhões, o banco tem um problema. E o Wildberries não deve mil milhões, deve vários milhares de milhões", alertou Oleg Deripaska, oligarca russo próximo do Kremlin, em declarações no fórum económico, em 2021.

E pode não estar longe da realidade. Esta quarta-feira, o próprio Sberbank admitiu que está a pensar aumentar as provisões para as perdas com empréstimos, devido aos ataques de drones ucranianos aos armazéns da Wildberries, uma vez que milhares de comerciantes serão incapazes de pagar. 

Taras Skvortsov, diretor financeiro do banco, admitiu que a qualidade de crédito dos retalhistas online e dos fornecedores se deteriorou, com cerca de 300 empresas a procurarem reestruturar os seus empréstimos. No entanto, sublinhou que nenhuma decisão foi tomada por parte do banco.

Só que a hipótese de a Ucrânia poder estar a atacar a Wildberries para aumentar a pressão no sistema bancário russo ganhou ainda mais força devido às palavras de um dos maiores produtores de armamento ucraniano. Numa entrevista publicada na segunda-feira, Denys Shtilerman, co-fundador da Fire Point, empresa que fabrica mísseis balísticos ucranianos, insistiu que os ucranianos vão acabar com a Wildberries, que descreveu como o maior credor da Rússia.

A dimensão do risco ganha aumenta quando combinada com a concentração do mercado. Em conjunto com a rival Ozon, as duas plataformas representam 8,5% do PIB russo e sustentam quatro milhões de postos de trabalho, mais de 5% da força de trabalho do país.

Com a entrada recente do banco estatal VTB na estrutura da empresa, os dois maiores pilares financeiros de Moscovo estão agora diretamente expostos à vaga de destruição. Ao visar os armazéns digitais de Vladimir Putin, Kiev parece ter encontrado uma alavanca para desestabilizar não só o abastecimento no terreno, mas também a fragilizada espinha dorsal da economia russa e levar o peso psicológico da guerra ao cidadão russo que vive com os olhos fechados para as consequências da guerra iniciada pela Rússia de Vladimir Putin.

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