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Como a guerra na Ucrânia virou uma grande oportunidade para os Estados Unidos recrutarem espiões russos

CNN , Análise de Josh Campbell
5 jun, 08:00
Destroços num edifício residencial em Belgorod (AP)

Nota do Editor: A série original da CNN “Secrets & Spies: Um Jogo Nuclear” examina a ténue geopolítica global durante a Guerra Fria através da lente de dois notórios agentes duplos: Oleg Gordievsky e Aldrich Ames

A brutal invasão da Ucrânia pela Rússia tem proporcionado aos serviços secretos norte-americanos uma rara oportunidade para recrutar elementos do Kremlin furiosos com a forma como a guerra está a ser conduzida.

“O descontentamento cria uma oportunidade única para nós”, disse o diretor da CIA, Bill Burns, no ano passado, durante um discurso no Reino Unido. “Estamos muito abertos ao negócio.”

“Esse negócio é a troca de informação que o ativo ou o agente forneceria por algo que eles querem”, refere David McCloskey, antigo oficial da CIA e autor de Moscow X. “Queremos pessoas que tenham alguma noção das prioridades dos líderes [russos] - o que estão a tentar alcançar.”

O esforço de recrutamento em curso está longe de ser um segredo de Estado. A CIA divulgou vídeos em russo nas redes sociais apelando ao patriotismo de russos descontentes com acesso a informações que poderiam ser úteis aos EUA.

O esforço evidencia a evolução de um serviço de informações que, historicamente, tem conduzido a sua missão essencial de combater as ameaças à segurança nacional e informar os decisores políticos sob um manto de secretismo.

De facto, até o impopular e efémero diretor da CIA, James Schlesinger, ter finalmente colocado uma placa numa autoestrada a assinalar o local da sede ultrassecreta da organização na Virgínia, em 1973, a sua localização estava protegida do público.

Hoje em dia, a agência de espionagem não só está omnipresente nas plataformas das redes sociais, como também utiliza ativamente a sua recém-descoberta presença pública para cumprir um dos principais objectivos da CIA: recrutar espiões estrangeiros para roubar segredos.

As publicações incluem instruções passo a passo para os potenciais informadores russos sobre como evitar a deteção pelos serviços de segurança russos, utilizando redes privadas virtuais, ou VPN, e o navegador Tor para contactar a agência de forma anónima e encriptada na chamada Dark Web.

O FBI lançou um esforço semelhante com o objetivo de recrutar fontes governamentais russas nos EUA, incluindo anúncios nas redes sociais para telefones localizados perto da embaixada da Rússia em Washington DC.

“Este apelo direto é uma abordagem invulgar, mas que pode revelar-se eficaz para chegar a uma população russa com poucas opções para exprimir o seu descontentamento”, explica Douglas London, um antigo chefe da estação da CIA colocado no estrangeiro. “Os russos revoltados com a corrupção e os abusos do Kremlin, sancionados pelo Estado, sem poderem agir abertamente, têm poucas alternativas para além da procura de apoio externo.”

Mas embora a tecnologia seja nova, a espionagem tem sustentado, e muitas vezes minado, as relações entre os EUA e a Rússia durante décadas.

Essa batalha secreta entre os serviços de informação é o foco de um novo documentário da CNN-BBC - “Secrets and Spies” - que estreou este domingo.

Com entrevistas nunca antes ouvidas a espiões da Guerra Fria e aos traidores que lhes traçaram o destino, “Secrets and Spies” segue o rasto dos operacionais que trabalharam nos bastidores para roubar e partilhar informações vitais quando o mundo estava à beira de uma guerra nuclear.

Mais de 30 anos após a dissolução da União Soviética, o mundo regressou a um período de conflito entre grandes potências. No seu último livro, Jim Sciutto, analista-chefe de segurança nacional da CNN, descreve-o como “uma rutura definitiva entre a era pós-Guerra Fria e uma era inteiramente nova e incerta”.

À semelhança da Guerra Fria do passado, a espionagem continua a ser uma ferramenta vital para ambos os lados do último conflito, como o demonstram os agentes dos serviços secretos norte-americanos com conhecimentos tecnológicos que tentam recrutar novos ativos à vista de todos e os agentes ligados à Rússia que, segundo consta, estão a aumentar as suas operações em toda a Europa.

Embora a espionagem seja ilegal em todas as nações do mundo e os agentes secretos tenham sido certamente utilizados para fins nefastos como a sabotagem, o assassínio e a interferência em eleições, “Secrets and Spies” levanta o véu sobre uma função menos conhecida e historicamente crítica da espionagem: reduzir a incerteza e o erro de cálculo entre adversários com armas nucleares.

Como o documentário sublinha, as lições de espionagem da Guerra Fria podem muito bem determinar a estabilidade global futura.

“É preciso conhecer o inimigo”, acrescenta o historiador presidencial da CNN Tim Naftali. “Se não o fizermos, podemos assustar o nosso inimigo e levá-lo a fazer algo que nenhum dos dois quer que aconteça.”

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