Leão XIV vai presidir, com o patriarca ortodoxo Bartolomeu, a um encontro ecuménico com representantes de várias confissões cristãs que assinala os 1.700 anos do Concílio de Niceia
A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 dividiu ainda mais o mundo ortodoxo e diminuiu o alcance do encontro ecuménico previsto para esta semana na Turquia entre o Papa Leão XIV e o Patriarca de Constantinopla.
“A política vai estar presente no encontro. O Patriarca de Moscovo [Cirilo] e a sombra de Putin serão os dois ausentes mais presentes na reunião”, comentou à Lusa Pedro Constantino, autor da tese de doutoramento “Igreja Ortodoxa Russa e o Estado nas relações de política externa russo-ucranianas”.
Na sexta-feira, em İznik, a poucos quilómetros da capital turca, Leão XIV vai presidir, com o patriarca ortodoxo Bartolomeu, a um encontro ecuménico com representantes de várias confissões cristãs que assinala os 1.700 anos do Concílio de Niceia, um encontro magno de cristãos que definiu a essência dos dogmas da fé, ainda antes dos cismas que foram dividindo os fiéis entre católicos, ortodoxos, protestantes ou evangélicos.
O encontro ecuménico foi preparado pelos papas Bento XVI e Francisco e está prevista a assinatura de uma declaração conjunta entre católicos e ortodoxos, num mundo religioso e político cada vez mais fragmentado.
Desde o século XV, com a conquista de Constantinopla, atual Istambul, pelos turcos, a Roma do Oriente perdeu peso político entre os ortodoxos e foram nascendo algumas igrejas autónomas, designadas como autocéfalas, cada uma com o seu patriarca, ficando o líder religioso de Constantinopla como o primaz, um símbolo moral, mas sem peso efetivo para fazer cumprir decisões.
“Bartolomeu tem um peso simbólico muito grande e por isso o encontro terá importância, porque todos os ortodoxos o olham como uma referência, mas na realidade o grande poder ortodoxo está em Moscovo. É lá que se decide tudo”, resume Pedro Constantino.
Cirilo não vai estar na Turquia porque está em rutura com Bartolomeu por causa da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que pediu a separação de Moscovo em 2019. O patriarca de Kiev foi excomungado pela Igreja russa, enquanto Bartolomeu reconheceu esta nova estrutura autónoma, aumentando a divisão no mundo ortodoxo.
“Isto será um espinho no encontro, mas vamos rezar para que o caminho do diálogo e da reconciliação se faça”, afirmou Armando Domingues, presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização, estrutura da Igreja Portuguesa para o diálogo inter-religioso e ecumenismo.
“O contexto político não é fácil. A guerra é um problema mundial e o Papa está muito consciente disso. Mas não podemos desistir de lutar pela paz”, afirmou o também bispo de Angra do Heroísmo, Açores.
O responsável pela Subcomissão de Diálogo Inter-religioso, Adelino Ascenso, recorda que as diferenças teológicas entre ortodoxos e católicos é “residual, naquilo que é a essência”, porque as duas confissões professam o “mesmo credo de Niceia”, a oração eucarística concebida há 1.700 anos que une a cristandade.
“O que dividiu [ortodoxos e católicos] nunca foi a fé, mas a política. Os ortodoxos têm estado muitas vezes divididos e nem sempre é fácil definir um interlocutor com autoridade concreta sobre os cristãos orientais", disse à Lusa Adelino Ascenso.
A recente rutura da Igreja autocéfala de Kiev teve consequências em Portugal: a principal paróquia ortodoxa do país mudou a fidelidade doutrinária para Moscovo em vez de Constantinopla e não há nenhuma estrutura formal ortodoxa portuguesa que alinhe com Bartolomeu.
A Agência Lusa tentou obter um comentário junto dos ortodoxos portugueses sobre o tema e aguarda resposta.
Os ortodoxos portugueses seguiram o caminho de outras dioceses europeias, que alinham com Moscovo, não por questões políticas de apoio à Rússia na invasão da Ucrânia, mas porque o reconhecimento da Igreja Ortodoxa Ucraniana como legítima - o primeiro cisma em 600 anos - por Bartolomeu abre caminho a novas divisões.
Em paralelo, o patriarca russo Cirilo tem reforçado canais de financiamento, demitido bispos e padres que condenam publicamente a guerra na Ucrânia, colocando as várias dioceses ortodoxas sob a sua orientação espiritual, enquanto a propaganda russa acusa Bartolomeu de ser uma marioneta dos Estados Unidos e de Erdogan, uma versão que Pedro Constantino rejeita.
“Bartolomeu continua a ser o patriarca ecuménico, porque o que divide os ortodoxos são os territórios, não a fé”, explicou.
Cirilo tem aproveitado as ligações ao Kremlin para se afirmar como o grande líder mundial dos ortodoxos, sustentando o histórico argumento de que Moscovo é a “terceira Roma”, após a queda de Constantinopla, cabendo-lhe a legitimidade espiritual da liderança cristã oriental.
Cirilo e Putin “são dois parceiros na reconstrução do império russo” a partir de 2000, data em que os dois dirigentes atingiram o poder.
“Hoje está perfeitamente escrito e comprovado que o patriarca foi do KGB, como Putin e são estes dois operacionais que estão a liderar a Rússia”, adiantou Pedro Constantino.
A saída da Ucrânia da “Sagrada Rússia Ortodoxa” em 2019 foi um “ataque que teve resposta em 2022”, com a invasão de Putin, explicou o investigador da Universidade de Coimbra, salientando que “religião e política são quase um só” na gestão do Kremlin.
Exemplo disso são as declarações de Cirilo que “veio dizer que perdoa os pecados daqueles que assassinem ucranianos”, algo que “é inacreditável” por parte de um líder religioso.
“Para a Igreja Ortodoxa de Moscovo, a guerra na Ucrânia é uma cruzada. É este o tipo de homem que temos como o patriarca mais poderoso do mundo ortodoxo”, explicou Pedro Constantino.
E será a sombra de Cirilo que irá estar no encontro entre Leão XIV e Bartolomeu, um dia depois de terminar o prazo dado pelos Estados Unidos à Ucrânia para aceitar um plano de paz, que inclui várias cedências à Rússia.
“O Papa tem falado na paz, precisamos de paz e do fim da guerra”, mas as condições para qualquer acordo dependem dos políticos, avisou Armando Domingues, que prefere focar-se nas celebrações dos 1.700 anos de Niceia
“É uma data que devemos refletir e comemorar, porque nos une enquanto cristãos, na diversidade das várias confissões”, acrescentou o bispo português.