Equipadas com sistemas de guerra eletrónica e deteção de drones, estas novas unidades de "cavalaria moderna" russa com 6 a 16 soldados realizam missões variadas: reconhecimento, infiltração, apoio logístico e ataques de flanco
Num campo de batalha onde os blindados, drones e artilharia dominam, a Rússia surpreendeu ao transformar motocicletas em ferramentas de assalto tático. Com movimentos de alta velocidade pelas planícies ucranianas, grupos motorizados russos desafiam a lógica da guerra moderna, enfrentando drones FPV e fogo de artilharia com agilidade e ousadia. A estratégia obteve alguns resultados catastróficos, mas também sucessos em vários pontos da frente. Para os militares ucranianos que combatem as unidades russas no terreno, esta está longe de ser uma inovação militar revolucionária. No entanto, isso não impediu as Forças Armadas ucranianas de criarem as suas próprias unidades.
A guerra é um jogo constante de gato e do rato, onde cada lado tenta adaptar-se para encontrar uma solução às ameaças criadas pelo outro lado. Sem supremacia aérea e com a artilharia e os drones a dificultarem qualquer operação de superfície, tanto a Rússia como a Ucrânia transitaram para operações com pequenas unidades, de forma a tornar os movimentos mais difíceis de detetar, minimizando perdas. Só que, em 2024, a Rússia acrescentou-lhe um novo elemento: motociclos todo o terreno, utilizados em operações relâmpago contra pontos muito específicos das frente de combate.
Os analistas da Frontelligence Insight, com base em comunicações russas interceptadas, entrevistas de soldados e relatos de operadores de drones ucranianos, destacam a agilidade das motos no campo de batalha, que escapam à artilharia e complicam ataques de drones. Contudo, a tática tem limitações graves: o tamanho reduzido das unidades impede a exploração de sucessos iniciais, e a falta de proteção blindada resulta em altas taxas de baixas.
Equipadas com sistemas de guerra eletrónica e deteção de drones, estas novas unidades de "cavalaria moderna" russa com 6 a 16 soldados realizam missões variadas: reconhecimento, infiltração, apoio logístico e ataques de flanco. A velocidade e as pequenas dimensões dos veículos, em comparação aos blindados soviéticos, permitem escapar à artilharia e transportar armas pesadas, como lança-granadas e mísseis antitanque, oferecendo flexibilidade tática aos militares russos.
Nas ofensivas registadas pelos operadores de drones ucranianos, estes grupos atacam com seis a oito motas, com um ou dois passageiros por veículo. Quase sempre uma das motas do grupo está equipada com sistemas de deteção de drones, que funcionam como alerta para a presença de drones inimigos e outras ameaças. Dependendo do tamanho da unidade, estão equipados com sistemas de guerra eletrónica.
The Russian workhorse for frontline logistics is now a fast motorcycle.
— Roy🇨🇦 (@GrandpaRoy2) June 21, 2025
Although still an easy target for FPVs, the time spent traversing the killing zone is minimized. https://t.co/p53pzUN1K6 pic.twitter.com/hptJbKhOkY
“O aumento do uso de motocicletas pela Rússia é uma adaptação em resposta aos ataques generalizados de drones ucranianos contra veículos blindados russos e às perdas insustentáveis de veículos blindados que as forças russas sofreram no final de 2023 e 2024”, escreveu o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW).
Só que por detrás de cada ataque, esconde-se uma realidade brutal. Cada sucesso russo é conquistado com um elevado sacrifício humano. Só que Moscovo aceita as altas taxas de mortalidade, usando recrutas com pouco treino, atraídos por salários altos, para desgastar as defesas ucranianas e identificar pontos fracos na linha da frente. Segundo o vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitri Medvedev, 30 mil soldados assinam contrato mensalmente, o suficiente para cobrir as perdas das ofensivas.
Ukrainian FPV drones dismantle a Russian “combat biker” assault group during a failed breakthrough in the Donetsk region. After running into obstacles, the fighters tried hiding in the bushes — but that didn’t help much. pic.twitter.com/aQ3VMMP84R
— WarTranslated (@wartranslated) July 4, 2025
Esta estratégia explora a escassez de recrutas ucranianos, que, desde o final de 2023, estão obrigados a dispersar as suas unidades em pequenos grupos responsáveis por grandes setores do terreno, facilitando infiltrações russas rápidas que podem alcançar a retaguarda e ameaçar cercos. Vídeos nas redes sociais mostram a dificuldade de atingir motos em movimento, mesmo por parte de operadores experientes.
O custo das motos faz parte da estratégia de atrição do Kremlin. Cada mota custa apenas entre dois mil a quatro mil euros, uma pequena fração do valor de um blindado. Desde o início da invasão, em 2022, a Rússia já perdeu mais de quatro mil tanques e oito mil veículos blindados, de acordo com os analistas do grupo de Oryx que verificam as perdas do conflito em fontes abertas. Uma parte significativa destas perdas, mais de 70% em alguns setores da frente, foram causadas por drones FPV baratos, apoiados por potentes drones de vigilância.
Mesmo os custos e o tempo de manutenção são muito inferiores aos dos complexos veículos blindados que requerem técnicos especializados e a utilização de peças sobressalentes mais difíceis de obter.
Só que Moscovo não tem capacidade de produção suficiente para produzir todas as motos que necessita para o seu gigantesco aparelho militar. Isso fez com que o ministério russo da Defesa tenha encontrado na China a solução para este problema, uma vez que as empresas chinesas conseguem entregar grandes quantidades de veículos a preços mais reduzidos do que a indústria russa.
Contudo, a tática tem as suas limitações. Para aproveitar a vantagem que a velocidade dá a estes veículos, a Rússia está obrigada a utilizá-las no verão ucraniano. Durante o outono e o inverno, este tipo de ataques torna-se praticamente impossível, uma vez que a lama e neve retiram a estas unidades um dos seus mais importantes atributos, a sua velocidade, que lhes garante o efeito surpresa.
"Apesar do termo 'assalto' no seu nome, estas unidades não são utilizadas apenas para ataques de assalto direto. Na prática, os seus papéis são mais diversificados, desde manobras de diversão e reconhecimento até à infiltração atrás da linha, logística e apoio de flanco durante ataques maiores", pode ler-se no relatório.
Na linha de frente, as forças ucranianas olham para estas unidades com algum ceticismo. Embora reconheçam sua utilidade para missões como reconhecimento ou logística, destacam a vulnerabilidade a drones e artilharia, considerando a tática longe de revolucionária. Ainda assim, em maio de 2025, a Ucrânia criou o 425.º Regimento de Assalto Separado, uma “cavalaria moderna” para romper posições russas e mudar rapidamente a direção dos ataques.