Ciente dos riscos que a política da nova administração poderia representar para a segurança da Ucrânia, o ex-presidente dos Estados Unidos decidiu tomar medidas para garantir que Kiev conseguiria continuar a defender-se enquanto Trump estivesse no poder
A eleição de Donald Trump mudou tudo para a Ucrânia. Aquele que era o apoio militar mais importante para a Ucrânia está agora à mercê da visão da nova administração americana, que tem demonstrado uma postura ambígua em relação a Kiev. O fim deste apoio, poderia ter consequências bastante graves para o exército ucraniano, mas o antigo presidente norte-americano Joe Biden pode ter deixado uma linha salva-vidas para o governo de Zelensky, que poderá permitir que a Ucrânia continue a receber equipamento militar sem interrupções até ao final de 2026, ano em que se realizam as eleições intercalares que podem equilibrar o poder nos Estados Unidos.
"O presidente Joe Biden, sendo um político experiente e bastante astuto, equacionou a possibilidade de perder as eleições e quis assegurar que a Ucrânia não ficava desamparada e fez contratos de compra de armamento até 2026. Foi uma autêntica boia de salvação para Kiev, garantindo que a nova administração não consegue torpedear o apoio à Ucrânia", diz à CNN Portugal o major-general Isidro de Morais Pereira.
Ciente dos riscos que a política de Trump poderia representar para a segurança da Ucrânia, o presidente Joe Biden decidiu tomar medidas para garantir que a Ucrânia conseguiria continuar a defender-se enquanto Trump estivesse no poder. Antes de abandonar a Casa Branca, o então presidente assinou contratos para a produção e exportação de munições de artilharia, defesas antiaéreas, veículos e outros equipamentos, até ao final de 2026.
A revelação foi feita por Celeste Wallander, uma antiga oficial do Pentágono que trabalhou como assistente do Secretário da Defesa, em declarações ao Wall Street Journal. O objetivo era garantir "uma posição de força" à nova administração e mostrar a Vladimir Putin que "os ucranianos conseguiam continuar a lutar". Só que tudo mudou quando Trump chegou ao poder em 2025. O presidente classificou Zelensky como sendo um "ditador sem eleições", acusando-o de querer prolongar a guerra e de adiar as eleições para se manter no poder. Ao mesmo tempo, Trump recusou-se a chamar Vladimir Putin de "ditador", sublinhando que "não usa essas palavras de ânimo leve".
Só que, apesar das mais recentes declarações levantarem dúvidas acerca do quão disposto Donald Trump está em continuar a apoiar Kiev, o programa utilizado por Joe Biden para garantir este apoio militar faz com que o presidente americano não consiga travar o seu envio. A Casa Branca assegurou contratos com a indústria da Defesa para produzir armas para a Ucrânia através de um programa conhecido como Ukraine Security Assistance Iniciative (USAI). O dinheiro necessário para as compras de armamento para Ucrânia através do USAI já foram aprovadas pelo Congresso e os acordos já foram assinados, o que significa que o presidente não consegue cancelá-los diretamente sem uma justificação legal. O cancelamento unilateral poderia violar as leis de aquisição federal.
"Há pouco que o presidente americano possa fazer. Os fundos já foram aprovados e entregues às empresas. A administração Biden 'armadilhou' bem este negócio. Cancelar este acordo prejudicaria bastante as empresas americanas", explica Isidro de Morais Pereira.
Apesar disso, Donald Trump pode atrasar significativamente o processo de entrega de armamento através da solicitação de revisões administrativas ou de auditorias. Outra das hipóteses que está nas mãos do presidente americano passa pela renegociação dos contratos diretamente com as empresas de defesa, colocando pressão política sobre uma indústria que depende de contratos com o Estado americano.
A data escolhida para a continuidade do apoio também chama a atenção. Os contratos com as empresas norte-americanas estendem-se até ao final de 2026, um ano crucial para a política americana. A 3 de novembro desse ano realizam-se as eleições intercalares americanas, para renovar os 435 lugares da Câmara dos Representantes e um terço dos lugares do Senado, bem como alguns dos governadores. Isto é importante porque, historicamente, o partido que está no poder perde o controlo do Congresso, o que limita significativamente o poder do presidente no poder. Só dois presidentes conseguiram manter a maioria na Câmara dos Representantes desde 1934: Clinton, em 1998, e Bush, em 2002.
Sem o apoio norte-americano, a Ucrânia pode ser privada de alguns dos seus armamentos mais evoluídos e ver-se com uma severa falta de munições. O apoio militar enviado por Joe Biden nas últimas semanas do seu mandato, através do programa Presidential Drawdown Authority (PDA), é suficiente para cobrir, pelo menos, os próximos seis meses. Depois disso, seria extremamente difícil para a Ucrânia aguentar contra o ritmo dos ataques russos, particularmente no que toca à utilização de sistemas cruciais como os mísseis ATACAMS.
O antigo vice-chefe de Estado Maior das Forças Armadas ucranianas, Ihor Romanenko, disse exatamente o mesmo durante a Conferência de Segurança de Munique, sublinhando que a Europa não tem capacidade de substituir os Estados Unidos no apoio militar à Ucrânia. E não está sozinho na análise. O próprio presidente Volodymyr Zelensky insistiu que "há sempre uma hipótese", mas que as chances de sobrevivência sem o apoio americano "são muito baixas".
Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes, afirmou que "não há apetite" nos Estados Unidos para aprovar novos pacotes de apoio à Ucrânia no Congresso, trazendo de volta a sombra do impasse de seis meses que atrasou o envio de ajuda militar a Kiev e levou à queda da cidade de Avdiivka, em abril, um dos principais bastiões defensivos ucranianos. Qualquer nova interrupção poderia ter consequências catastróficas para os ucranianos.
A ausência de apoio militar norte-americano, que ultrapassa os 70 mil milhões de dólares durante três anos, teria um efeito quase imediato em toda a linha da frente, uma vez que os americanos fornecem uma vasta parte das munições de 155mm utilizadas pela Ucrânia e que são fundamentais para travar os ataques russos em toda a frente. Ainda assim, vários países da União Europeia têm vindo a aumentar a produção de munições e a própria Ucrânia está a acelerar o ritmo de produção de munições de vários calibres.
Mas numa área em particular a Ucrânia está completamente nas mãos do apoio americano: a defesa antiaérea de longo alcance. A antiga administração norte-americana foi capaz de fornecer à Ucrânia os sistemas de defesa aérea de longo alcance Patriot, capazes de abater mísseis e drones russos a longas distâncias. Estes sistemas têm sido fundamentais para proteger a capital, Kiev, mas também alguns dos alvos prioritários como as infraestruturas críticas que produzem energia. Aliados ucranianos como a Alemanha e a Itália produzem alguns mísseis de curto e médio alcance, mas podem não ser suficientes para as necessidades da Ucrânia, que vai ficar muito mais exposta.
Ainda assim, a Ucrânia conseguiu sérios progressos na capacidade de produção de armamento no último ano. Em pouco mais de três anos, a Ucrânia revolucionou por completo a sua indústria da defesa, para fazer frente à falta de armamento enviada pelo Ocidente. De acordo com o presidente ucraniano, a Ucrânia duplicou a capacidade de produção de armamento e já fabrica 40% de tudo aquilo que precisa no campo de batalha. Apesar de ainda depender do apoio militar norte-americano e europeu, Kiev domina a produção de drones aéreos, navais e terrestres, sistemas de inteligência artificial para uso militar, veículos blindados, sistemas de artilharia, munições de artilharia de todos os calibres e até um surpreendente programa de mísseis de longo alcance.
A Ucrânia continua, no entanto, limitada pela sua capacidade de atrair capital para acelerar a produção e desenvolver novas soluções. Apesar de ser capaz de produzir mais de 40% das suas necessidades - e tudo indica que esta percentagem voltará a aumentar em 2025 - o material ainda é insuficiente para travar os avanços russos no campo de batalha, que têm conseguido importantes conquistas no último ano, apesar do elevado preço pago por Moscovo.