Bakhmut: uma das batalhas mais sangrentas do século XXI levou uma rebelião a Moscovo

20 nov 2024, 22:00
Soldado ucraniano durante disparos contra posições russas na frente de Bakhmut (Libkos/AP)

Bakhmut: a batalha que levou à ascensão do Grupo Wagner (e ao início da sua queda)

MIL DIAS DE GUERRA || Quando uma pequena cidade perdida na linha da frente se tornou o epicentro da guerra, tornado-se a batalha mais sangrenta de toda a guerra. Esta é a sua história

Cada casa, uma fortaleza. Cada rua, um campo de batalha. Dois exércitos, armados com as mais recentes inovações militares, lançaram tudo o que tinham durante dez meses pelo controlo de uma pequena cidade, esquecida na linha da frente, no coração do Donbass. A Ucrânia chama-lhe Bakhmut, o bastião que se tornou o símbolo da sobrevivência do país nesta guerra; para a Rússia é Artemovsk, o “triturador de carne”.

Bakhmut é hoje uma ruína, um cemitério a céu aberto onde dezenas de milhares perderam a vida, numa das mais sangrentas batalhas de guerra urbana desde o final da Segunda Guerra Mundial, e que no século XXI só encontra paralelo na Guerra Civil da Síria ou no combate contra o Estado Islâmico no Iraque.

As operações russas começaram com uma intensa campanha de bombardeamentos no final de maio de 2022, focada nas posições ucranianas instaladas nas vilas da periferia da cidade. Foi preciso esperar quase dois meses, até ao primeiro dia de agosto, para a Rússia fazer a sua primeira tentativa de assalto a Bakhmut. Mas esta tentativa durou pouco tempo. As tropas ucranianas estavam bem entrincheiradas, em posições preparadas ao longo de oito anos, depois de a cidade ter sido atacada por grupos armados apoiados por Moscovo, em 2014.

Em setembro, as forças regulares do exército russo, dispersas por uma frente de combate com mais de mil quilómetros, estavam a perder a capacidade de conduzir operações ofensivas. Este desgaste obrigou o Kremlin a decretar uma “mobilização parcial” de cerca de 300 mil reservistas, utilizando-os para colmatar a falta de soldados em vários pontos da frente.

A Ucrânia aproveitou a ocasião para reconquistar a região de Kharkiv, ocupada desde os primeiros dias da invasão, e, mais tarde, recapturar a cidade de Kherson, o que conseguiu em novembro. Bakhmut parecia esquecida entre as conquistas do exército ucraniano, mas, para as chefias russas, começou a ser verbalizada a ideia de que a cidade seria um ponto-chave na conquista da região do Donbass pela sua localização estratégica, atravessada por três estradas principais. O ministro russo da Defesa russo, ainda Sergei Shoigu, insistiu que a cidade era crítica para a Rússia poder “furar” a linha defensiva ucraniana e poder conduzir operações no interior do território ucraniano.

A solução encontrada pelas chefias militares russas foi idêntica à encontrada noutros locais: bombardear posições inimigas até à exaustão, lançando em seguida investidas de infantaria apoiada por veículos blindados. Um potente cocktail de munições de 152 mm, explosivos de fósforo branco e bombas termobáricas chovia sobre os edifícios da cidade ininterruptamente, sete dias por semana, 24 horas por dia. Mas qualquer investida russa contra as posições ucranianas encontravam uma feroz resistência.

O número de baixas foi descrito como “bastante significativo” e as imagens que chegaram fizeram lembrar o desastre de Mariupol. Em dezembro, Zelensky acusou a Rússia de transformar “outra cidade do Donbass em ruínas”.

Apesar dos milhares de mortos, das explosões recorrentes, da falta de luz e água canalizada, centenas de pessoas resistiram e mantiveram-se na cidade. Quase todas sobrevivem no interior de caves, o único sítio capaz de aguentar o impacto dos rebentamentos constantes que destroem as mais imponentes estruturas e fazem tremer tudo em redor. Em março, dez mil habitantes resistiam no interior da cidade, mas, entretanto, grande parte foi transportada para cidades maiores na retaguarda, como Kramatorsk ou Sloviansk. Quantos restam na cidade, é impossível saber.

A batalha mais sangrenta

Os números não são precisos, mas as estimativas são elevadas. De acordo com o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional norte-americano, John Kirby, o número de baixas russas é “assombroso”, com a ofensiva russa na pequena cidade ucraniana a culminar em mais de 20 mil mortos e 80 mil feridos, um número semelhante ao avançado pelos ucranianos. A vasta maioria destas baixas pertencia aos mercenários de Yevgeny Prigozhin, do Grupo Wagner, um misto de veteranos das Forças Armadas russas e de condenados do sistema prisional russo que se voluntariaram em troca do alívio ou perdão das suas sentenças.

O número de baixas do lado ucraniano também é elevado. Não existem dados oficiais, mas, segundo a imprensa ucraniana, as unidades que defendiam o que resta desta cidade chegaram a registar entre 100 e 200 baixas por dia, nos momentos mais sangrentos dos combates. Números tão elevados levaram muitos analistas, particularmente ocidentais, a questionar o propósito de defender de forma tão intransigente uma localidade em que poucos viam qualquer importância estratégica. Segundo o Ministério da Defesa da Rússia, cerca de 20 mil soldados ucranianos perderam a vida.

Estas estimativas fazem da batalha de Bakhmut a mais sangrenta batalha urbana desde o final da Segunda Guerra Mundial, a uma larga distância das restantes. Em 1994, a Rússia desencadeou uma batalha na Chechénia que chocou o mundo pela sua brutalidade. Perto de dois mil soldados russos perderam a vida e esta campanha foi vista, em larga medida, como um falhanço. Nem mesmo a batalha de Aleppo, na Síria, que se estendeu durante quatro anos, teve um preço tão caro em vidas humanas: estima-se que 33 mil pessoas tenham morrido neste conflito.

Dois lados em colisão

Apesar do custo elevado, as razões que levaram à sangrenta defesa de Bakhmut foram simples e as chefias militares ucranianas não as esconderam: infligir o máximo de perdas ao inimigo durante o maior período possível. A lógica passa pelo desgaste da Rússia no combate urbano, que favorece bastante quem defende, e ganhar tempo para a constituição de novas unidades treinadas e equipadas com equipamentos modernos ocidentais para conduzir um contra-ataque para recuperar o território perdido. Neste tipo de combate, até mesmo as ruínas de um prédio podem tornar-se uma perigosa posição defensiva difícil de ultrapassar.

A geografia também estava do lado dos defensores. Já no passado, durante o reinado de Ivan, o Terrível - importante czar russo do século XVI -, foi ordenado que fosse construído em Bakhmut um forte para proteger a região. Atravessada pelo rio Bakhmutka, que separa o lado Este e Oeste da cidade, a cidade encontra-se na parte mais baixa de um vale, o que permite também à artilharia ucraniana ocupar regiões mais altas nos seus arredores e poder acertar com maior precisão nas posições inimigas. Estas condições tornam esta cidade a “fortaleza perfeita” aos olhos das chefias militares e políticas ucranianas. 

“Tomámos as decisões necessárias para assegurar a defesa efetiva [de Bakhmut] e para infligir o maior número de perdas ao inimigo”, afirmou o coronel-general Oleksandr Syrksyi, que comandou as forças terrestres ucranianas durante esta batalha e viria a ser promovido para o cargo de Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, sucedendo o general Valerii Zaluzhnyi.

Do lado russo, as intenções que levaram a uma campanha tão cara do ponto de vista humano e material não são claras. Inicialmente, os especialistas argumentavam que o ataque à cidade de Bakhmut, que aconteceu logo após a queda das cidades de Severodonetsk e Lysychansk, fazia parte de uma tentativa de cercar o grupo de combate ucraniano que defendia a região do Donbass, mas, à medida que a intensidade dos combates no resto da frente se foi perdendo, depressa se percebeu que as forças armadas russas não tinham capacidade para o fazer. Alguns especialistas acreditam que a conquista de Bakhmut foi uma decisão política e não militar, com o objetivo de encontrar a todo o custo uma vitória para a vender internamente.

O momento decisivo

Com a chegada das temperaturas negativas em dezembro vieram as vagas de ataque mais poderosas por parte do grupo Wagner, que obteve algum sucesso ao conquistar algumas zonas nos limites da cidade. Começava o derradeiro esforço dos homens de Yevgeny Prigozhin, um dos maiores protagonistas da batalha, para reclamar para si a conquista de Bakhmut. Os seus mercenários obtiveram importantes conquistas territoriais no início de 2023, ao focar os seus ataques nos flancos da cidade, numa tentativa de a cercar, conquistando as estradas que a ligam ao território controlado pela Ucrânia.

Do lado ocidental, começaram a surgir muitas dúvidas acerca da relação custo-benefício para o exército ucraniano em defender a cidade, que corria o risco de ficar operacionalmente cercada. Essa era precisamente a crença dos serviços secretos norte-americanos no início de março, segundo os documentos classificados que vieram a público. Para os Estados Unidos, a situação podia tornar-se “catastrófica”, com as tropas ucranianas a ficaram cercadas no interior da cidade, e vários oficiais americanos sugeriram que a Ucrânia mudasse de tática e abandonasse Bakhmut.

Perto de ficarem completamente cercados pelo exército russo, o futuro dos homens que defendiam Bakhmut parecia cada vez mais precário, no mês de abril. O rápido avanço do grupo Wagner em Soledar, a norte, e na direção de Chasiv Yar, a sul, tornaram o abastecimento da cidade possível apenas por uma pequena estrada, que ganhou a alcunha de “estrada da vida”. Era necessário tomar uma decisão. Abandonar e lutar mais um dia ou ficar e defender Bakhmut até ao último homem? Volodymyr Zelensky encontrou-se com as duas principais figuras militares do país, Valerii Zaluzhny e Oleksandr Syrskyi, e a resposta foi unânime. A Ucrânia não só decidiu lutar, como foi dada a ordem para reforçar a defesa da cidade e dos seus flancos. Unidades recém-formadas foram enviadas para a linha da frente.

E esse momento foi decisivo. A irredutível defesa ucraniana frustrou todos os esforços feitos pelo grupo Wagner, que ficou cada vez mais desprovido de veteranos qualificados e viu-se obrigado a recorrer a cada vez mais a voluntários, aumentando significativamente o número de baixas. No entanto, pouco a pouco, rua a rua, prédio a prédio, o grupo foi avançando cidade dentro. A 12 de maio, Prigozhin alegava “controlar 95% da localidade”. Em simultâneo, a Ucrânia começava a verbalizar as suas intenções de levar a cabo um contra-ataque decisivo, que viria a ficar para sempre conhecido como a “contraofensiva do verão de 2023”. Munições e unidades militares começaram a ser utilizadas de forma racionada e o Kremlin, para frustração de Prigozhin e dos seus homens, reduziu o apoio logístico que enviava aos mercenários em Bakhmut.

E o grupo pagou a falta de apoio com vidas. “Dezenas de milhares”, admitiu o seu líder. Segundo o porta-voz do Conselho de Segurança norte-americano, John Kirby, até ao dia 1 de maio, o exército russo sofreu mais de 100 mil baixas, entre os quais 20 mil mortos, apenas nos últimos meses de combates. Em público, Prigozhin não escondeu a frustração e não poupou críticas às mais altas chefias militares.

“O sangue ainda está fresco”, disse Prigozhin à frente de dezenas de cadáveres de militares do grupo Wagner, num vídeo publicado no seu canal de Telegram. “Eles vieram para aqui como voluntários e estão a morrer para que vocês se possam sentar como gatos gordos nos vossos escritórios luxuosos. Shoigu, Gerasimov, onde estão as munições?”, questionou o líder dos mercenários. Para António José Telo, estas baixas, maioritariamente compostas por mercenários e prisioneiros, “têm um peso muito pequeno” para sensibilizar a sociedade russa e o Estado Maior das Forças Armadas daquele país.

A situação entre a liderança russa tornou-se ainda mais tensa quando Prigozhin ameaçou abandonar as posições conquistadas na cidade no dia 10 de maio, um dia depois da celebração do Dia da Vitória, que marca o fim da Segunda Guerra Mundial na Rússia. O cenário captou a atenção dos meios de comunicação ocidentais, que estranharam que uma figura tão proeminente da máquina de guerra russa criticasse abertamente algumas das principais figuras políticas do executivo de Vladimir Putin.

Independentemente dos protestos e das lutas políticas internas, os avanços russos continuaram, ainda que se tenham limitado apenas a algumas centenas de metros por dia. A Ucrânia dominava menos de 5% do que resta de Bakhmut, controlando o hospital pediátrico e alguns edifícios de grandes dimensões. O líder dos mercenários gravou um vídeo onde anuncia o "controlo total" da cidade. Versão que as chefias militares desmentiram pouco tempo depois. "As nossas unidades estão a lutar em Bakhmut. Os nossos defensores controlam algumas instalações industriais e de infra-estruturas", disse o porta-voz militar Serhiy Cherevatyi à Reuters.

Nos últimas semanas, já pouco havia a fazer. O destino de Bakhmut estava traçado e no dia 20 de maio de 2023, a Rússia anuncia a sua conquista. Mas o preço pago pela vitória foi elevado. De acordo com o líder do grupo Wagner, cerca de 20 mil mercenários perderam a vida nesta batalha. A Ucrânia estima que o número de feridos do lado russo ronde os 60 mil, catapultando o número total de baixas nesta batalha para 80 mil. Os números do lado ucraniano não são conhecidos, mas os dados indicam que esta é uma das batalhas mais sangrentas do século 21. 

Apesar do aparente sucesso, a violência dos confrontos criou um fosso entre os mercenários do Grupo Wagner e as chefias do ministério da Defesa russo. O exército privado de Yevgeny Prigozhin era cada vez mais poderoso e as críticas que faziam abertamente a liderança política eram cada vez mais violentas. Para resolver a situação, o então ministro da Defesa, Serguei Shoigu, ordenou que o grupo passasse a ser subordinado ao ministério. A notícia não caiu bem entre os homens do Wagner, que conseguiam condições salariais muito mais benéficas no grupo, e o impensável aconteceu.

"O conselho de comandantes do Wagner tomou uma decisão - é preciso acabar com o mal que a liderança militar do país traz", afirmou Yevgeny Prigozhin, anunciando uma marcha até à capital para trazer à justiça as chefias militares russas. Um dia depois, o grupo Wagner "captura" a cidade de Rostov sem qualquer oposição. Horas mais tarde, começa a marcha até Moscovo. O confronto parecia inevitável, mas a intervenção do ditador bielorusso, Alexander Lukashenko, travou a marcha do grupo antes que este chegasse à capital. Dois meses depois, o avião privado de Yevgeny Prigozin foi abatido durante uma viagem de Moscovo para São Petersburgo. Era o fim, o mercenário que conquistou Bakhmut e ousou enfrentar o Kremlin.

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