Aviões privados dos oligarcas russos continuaram a voar sobre a Europa apesar das sanções

1 abr, 11:34
O avião de Alisher Usmanov é um A340 que pode levar mais de 300 pessoas na versão comercial (Foto: reprodução Youtube)

Investigação do Guardian e de consórcio de jornalistas revela as movimentações dos aviões privados dos multimilionários russos nas semanas que se seguiram à invasão russa da Ucrânia, já depois de terem sido impostas sanções pelo Reino Unido e União Europeia

Aviões privados ligados a oligarcas e políticos russos parecem ter continuado a voar para aeroportos na União Europeia e no Reino Unido, apesar das sanções impostas à Rússia na sequência da invasão da Ucrânia e que proibiam a passagem pelo espaço aéreo europeu. A informação foi avançada esta quinta-feira pelo jornal britânico The Guardian, que investigou, em colaboração com o Organized Crime and Corruption Reporting Project - em português, Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado, um consórcio de jornalistas e meios de comunicação internacionais - as movimentações de empresários como Roman Abramovich e Alisher Usmanov, ou políticos como Igor Shuvalov, antigo vice-primeiro-ministro russo. 

A análise do Guardian permitiu ainda perceber que, na semana após a invasão da Ucrânia, a 24 de fevereiro, os aviões ligados aos russos poderosos voaram como nunca para os Emirados Árabes Unidos, que é um centro financeiro e de lazer de eleição dos oligarcas ligados ao Kremlin.

O jornal britânico acrescenta que os Emirados Árabes Unidos têm sido descritos como a "Suíça do Golfo Pérsico", devido ao nível de sigilo bancário: várias organizações que lutam pela transparência fiscal têm realçado que os oligarcas impedidos de operar noutros centros financeiros viajaram para os Emirados para organizarem os seus negócios. 

Segundos os dados recolhidos pela investigação agora publicada, aeronaves ligadas a Roman Abramovich, o antigo dono do Chelsea que tem passaporte português, estiveram em movimento nas semanas que se seguiram à invasão da Ucrânia, o que resultaria na aplicação de sanções ao empresário no Reino Unido e na União Europeia. Um dos aviões que pertencerá a Abramovich, um Bombardier Global 6000, está agora na Letónia, impedido de voar porque as autoridades locais pediram informações sobre a propriedade da aeronave ao Luxemburgo, onde está registada. A confirmar-se que o avião é de Abramovich - que terá pelo menos outros três jatos privados - será apreendido pelas autoridades, disse à imprensa local o chefe da agência de aviação civil da Letónia, Aivis Vincevs. 

Sanções não preveem gastos com combustível

Eugene Shvidler, parceiro de negócios de Abramovich, também viu dois jatos serem apreendidos pelas autoridades britânicas, nos aeroportos de Biggin Hill, na região de Londres, e Farnborough, no condado de Hampshire. De acordo com o site Flightradar24, que monitoriza dados de voos, um dos aviões de Shvidler partiu de Biggin Hill para Farnborough a 27 de fevereiro e, ainda nesse dia, voou para os Estados Unidos, tendo aterrado num aeródromo nos arredores de Nova Iorque. Regressou ao Reino Unido a 4 de março, dois dias depois de ter entrado em vigor a proibição de aeronaves russas sobrevoarem espaço aéreo britânico. 

Recorde-se que as regras das sanções europeias permitem que os alvos das penalizações possam fazer pagamentos para satisfazer "necessidades básicas", mas não preveem gastos com movimentos de aviões privados, nomeadamente a compra de combustível.

Um porta-voz de Shvidler garantiu que não houve violações da lei, realçando que o empresário não é cidadão russo e não tem laços com o Kremlin. Mas os aviões de outros dirigentes ligados a Abramovich e até ao político da oposição ucraniana Viktor Medvedchuk voaram da Europa para os Emirados Árabes Unidos. Um Boeing 737 ligado ao oligarca Andrey Melnichenko - cujo superiate foi apreendido pelas autoridades italianas no início do mês - voou para o Dubai a 9 de março, segundo o Flightradar, e está sob investigação no Luxemburgo, onde está registado. Um porta-voz de Melnichenko garantiu que o empresário não tem qualquer relação com os "trágicos acontecimentos" na Ucrânia e não tem filiações políticas, pelo que não há justificação para que seja parte da lista dos sancionados na Europa.

No que diz respeito a Igor Shuvalov, aeronaves ligadas ao vice-primeiro-ministro russo foram monitorizadas a voarem de e para aeroportos na União Europeia após imposição de sanções por Bruxelas. O seu Bombardier Global Express fez vários voos entre Genebra, Munique, Paris, Milão e Helsínquia, ainda que os registos dos voos não permitam saber quem ia a bordo do avião, que custa cerca de 10 milhões de dólares, perto de 8,9 milhões de euros.

Oligarcas negam má conduta

Também o multimilionário Alisher Usmanov, que nasceu no Uzbequistão, está ligado a duas areonaves que voaram de e para aeroportos europeus já depois de os aviões com proprietário ou registo russos terem sido banidos do espaço aéreo do velho continente. 

Usmanov, que chegou a deter 30% do clube inglês Arsenal, é um dos homens mais ricos da Rússia, dono da USM, com negócios na área da metalurgia, exploração mineira, tecnologia e telecomunicações. A USM era uma das principais patrocinadoras do Everton até ao início de março. Usmanov usa nas suas deslocações um Airbus A340, cuja versão comercial pode levar até 370 passageiros.

Este mesmo avião, que tem decoração personalizada na fuselagem, pintado em tons de vermelho escuro, tem como número de cauda MI-ABU, que significa “I’m Alisher Burhanovich Usmanov”, ou seja, "sou Alisher Burhanovich Usmanov", em português. É um dos maiores aviões privados da Rússia e custará entre 350 e 500 milhões de dólares (315 a 450 milhões de euros).

A 28 de fevereiro, já depois da invasão da Ucrânia e da imposição de sanções europeias, o A340 saiu de Munique, na Alemanha; o último dado de que há registo coloca-o a descer para Tashkent, capital do Uzbequistão, nesse mesmo dia. Também a 28 de fevereiro, um avião ligado a Usmanov saiu de Florença, Itália, alegadamente em direção a território uzbeque. 

Ao Guardian, um porta-voz de Usmanov disse que as sanções contra ele são baseadas em informações "incorretas" que assumem que tem ligação privilegiada ao Kremlin, acrescentando que a propriedade dos bens do multimilionário, incluindo aviões, foi transferida para um trust irrevogável, uma estrutura fiduciária que não prevê mudanças após a assinatura do contrato e que implica que o proprietário dos bens transferidos perca o direito de propriedade sobre os ativos. 

"Dado o facto de que o MI-ABU que invocaram não ser detido ou controlado pelo senhor Usmanov, e só pode ser usado por ele em termos de empréstimo, não existe fundamentação legal para qualquer proibição em relação às sanções individuais que lhe foram impostas", disse a mesma fonte. 

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