Apoio militar à Ucrânia "foi quase insignificante" mas Portugal tem uma arma com "enorme valor geoestratégico" que mais ninguém tem

29 mai, 07:00

O pacote de ajuda militar português foi muito mais reduzido do que o de outros países, mesmo quando comparado ao valor do Produto Interno Bruto do país. Mas Portugal garante à Ucrânia algo que os outros países não podem oferecer

Depois de uma visita em contrarrelógio a três capitais europeias em dois dias, Volodymyr Zelensky recebeu várias centenas de milhões de euros, aviões de combate e garantias de segurança. Em Lisboa, onde o presidente ucraniano recebeu as promessas mais reduzidas de apoio militar e financeiro, a Ucrânia pode não ter saído de mãos a abanar. O líder ucraniano conseguiu de Portugal uma arma poderosa e difícil de quantificar, mas de “um enorme valor geoestratégico”.

“O apoio militar e financeiro português é quase insignificante. É o elemento político e diplomático que trouxe Zelensky a Lisboa. Portugal tem um enorme valor geoestratégico, que pode beneficiar muito a causa ucraniana: nós temos uma forte influência em países que a Ucrânia quer trazer para a sua causa”, explica José Filipe Pinto, especialista em Relações Internacionais.

Para os especialistas, Volodymyr Zelesnky sabia que não podia esperar de Portugal um pacote de apoio militar capaz de alterar significativamente a dinâmica no campo de batalha. Luís Montenegro “ofereceu” 126 milhões de euros em apoio militar, dos quais 100 milhões já tinham sido prometidos pelo Governo de António Costa, para ajudar a Ucrânia a comprar munições de 155 mm na iniciativa da Chéquia. Mas, para o líder ucraniano, o verdadeiro interesse estava no apoio que Portugal pode dar no campo diplomático, que faz com que o nosso país seja “mais do que um retângulo junto ao Atlântico”.

Este apoio é particularmente importante para a Ucrânia, numa altura em que o presidente ucraniano procura convencer o maior número possível de países a estar presentes na Cimeira da Paz, que vai decorrer na Suíça nos próximos dias 15 e 16 de junho. Convencer países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa como Angola e Brasil, que já recusaram participar no encontro, é uma das prioridades de Kiev no campo diplomático e Portugal pode ter uma palavra a dizer.

O próprio primeiro-ministro insistiu no papel crucial dos esforços diplomáticos portugueses enquanto discursava ao lado de Zelensky. Luís Montenegro garantiu que Portugal “continuará a fazer todos os esforços e todos os contactos a todos os níveis” para mobilizar e motivar “o maior número de países”, sublinhando o “inabalável e firme” apoio português à causa de “legítima defesa” ucraniana.

“Portugal representa uma diplomacia de influência muito grande junto ao Sul. Portugal não dispõe de nenhuma tutela em relação aos países lusófonos. Não há aqui nenhum neocolonialismo, mas existe da nossa parte uma diplomacia de influência. Nós não interferimos nas decisões destes países, mas tentamos apelar a que haja posições conjuntas”, reforça José Filipe Pinto.

Mas a capacidade portuguesa de influenciar estes dois países “está longe de estar garantida”, insiste o especialista. Ao mesmo tempo que países como Brasil e Angola se afastam da posição ucraniana, nações mais pequenas como São Tomé ou a Guiné-Bissau estreitam laços e cooperação com a Rússia. Moçambique, que se encontra a lutar contra uma insurgência armada islâmica no norte do país, torna-se cada vez mais um potencial alvo da política externa russa, que poderá intensificar a sua cooperação militar no país, através da utilização de grupos paramilitares.

A influência europeia

O objetivo de entrada para a União Europeia também pesa nas contas e nos esforços diplomáticos ucranianos e Portugal também pode vir a ter uma palavra importante a dizer neste assunto. Embora o executivo português já tenha expressado o seu apoio na adesão ucraniana ao projeto europeu, o antigo primeiro-ministro português António Costa é cada vez mais colocado na linha da frente de possíveis sucessores para liderar a presidência do Conselho Europeu, substituindo Charles Michel.

“Zelensky percebe que António Costa pode chegar à presidência do Conselho Europeu e isso pode ser importante para as aspirações da Ucrânia na Europa. Além disso, o presidente ucraniano não esquece que o secretário-geral das Nações Unidas é português”, acrescenta Filipe Pinto.

O acordo de apoio militar assinado entre a Ucrânia e Portugal contrasta com aqueles assinados poucas horas antes, em Bruxelas e Madrid. Na Bélgica, Zelensky conseguiu um forte compromisso de cariz militar, que garante a entrega de 30 caças F-16 e de 977 milhões de euros em material militar, apenas este ano. Com Pedro Sánchez, o presidente ucraniano conseguiu receber vários mísseis para o sistema de defesa antiaéreo Patriot, que a Ucrânia tem pedido repetidamente para trazer os ataques russos na região de Kharkiv, num pacote de ajuda que supera os mil milhões de euros.

A dimensão da economia portuguesa é inferior quer à espanhola quer à belga, no entanto, o valor dos pacotes de ajuda anunciados não espelha a dimensão das economias. Dos três países, o apoio anunciado por Portugal é o mais pequeno quando comparado com o valor do seu Produto Interno Bruto (PIB). Os 126 milhões anunciados por Luís Montenegro correspondem a 0,05% do PIB português. O pacote espanhol, por sua vez, corresponde a 0,08% do seu PIB. Apesar de superior ao português, este valor fica abaixo do 0,16% do PIB que a Bélgica dedicou ao apoio militar à Ucrânia este ano.

“Aquilo que Zelensky precisa não lhe podemos dar. O presidente ucraniano precisa de militares. Nós temos contribuído com a formação no quadro policial, temos disponibilizado a capacidade de formar técnicos e especialistas em Portugal. O que Zelensky pode esperar de Portugal é o apoio político”, defende o major-general Agostinho Costa.

Para os especialistas, Portugal não poderia ir muito mais além na entrega de apoio militar. No documento, a que a CNN Portugal teve acesso, o Governo de Luís Montenegro compromete-se a participar na coligação dos aviões de combate F-16, garantindo a formação de pilotos e mecânicos ucranianos, bem como a "doação de equipamentos", embora o documento não especifique se se refere à transferência de aeronaves ou de peças necessárias para a sua manutenção.

Ao lado de Volodymyr Zelensky, o primeiro-ministro português destacou que Portugal esteve sempre na linha da frente do apoio à Ucrânia e recordou que o nosso país apoiou "de forma abrangente" a Ucrânia, ao enviar carros de combate Leopard 2A6, sistemas de veículos aéreos não-tripulados (UAV), veículos blindados de transporte de pessoal M113, veículos blindados de socorro e evacuação médica M577. Mas esses apoios podem ter-se esgotado, uma vez que o nosso país corria o risco de ficar sem capacidades para se defender em caso de necessidade.

“Portugal tem capacidade do ponto de vista militar. Temos os Leopard 2A6, entre outras viaturas, mas se as entregássemos ficávamos sem nada. Temos também os F-16 e alguma artilharia. Mas com que capacidades é que ficávamos se o entregássemos?”, questiona o major-general Agostinho Costa.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados