"Marcante é a posição do presidente norte-americano e esta sua interação direta com Putin - sem auscultar os aliados nem a Ucrânia, de alguma forma recupera a imagem do Presidente russo"
Longe vai o tempo (e foi há tão pouco tempo) que um dos maiores receios quanto à nova administração Trump se prendia com a ameaça de retirar os Estados Unidos da NATO. Menos de um mês desde a tomada de posse do presidente norte-americano, a saída dos EUA da aliança parece estar fora de questão para já - mas tudo o resto está em aberto, a começar pelos pontos de negociação entre Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, quanto ao futuro da Ucrânia.
Na véspera da Conferência de Segurança de Munique (CSM), cuja 61.ª edição arranca esta sexta-feira, os dois líderes anunciaram o início “imediato” de negociações para pôr fim à guerra, ditando o tom dos encontros que vão ter lugar até domingo na cidade alemã, quando falta pouco mais de uma semana para o 3.º aniversário da invasão russa em larga escala.
Como tem sido o caso desde fevereiro de 2022, nenhum representante do governo russo estará presente no encontro anual sobre segurança internacional, no qual participam centenas de dignitários, incluindo mais de 150 ministros de todo o mundo, entre eles os chefes da diplomacia do G7. Mas ao contrário do que tem acontecido desde então, e apesar da sua ausência, a CSM acontece num momento em que Vladimir Putin está em rota para deixar de ser um pária, após o homólogo norte-americano ter anunciado visitas bilaterais para breve entre Washington e Moscovo.
O anúncio foi feito pelo próprio Trump depois de uma chamada telefónica de quase 90 minutos com o presidente russo na quarta-feira, que, nas palavras do líder norte-americano, marca o arranque “imediato” das negociações de paz para a Ucrânia. E por ter acontecido antes da CSM, há óbvias expectativas quanto a encontros bilaterais que possam vir a ter lugar em Munique entre as comitivas dos EUA e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
“Concordámos que as nossas respetivas equipas iniciem imediatamente as negociações e começaremos por telefonar ao presidente Zelensky da Ucrânia para o informar da conversa, algo que farei agora mesmo”, escreveu Trump na sua Truth Social logo após a conversa com Putin.
No dia seguinte, véspera da conferência, o líder ucraniano partilhava na rede social X: “O presidente Trump partilhou pormenores da sua conversa com Putin. Ninguém quer mais a paz do que a Ucrânia. Juntamente com os EUA, estamos a definir os nossos próximos passos para pôr termo à agressão russa e garantir uma paz duradoura e fiável.” Zelensky também fez questão de sublinhar que a Ucrânia tem de fazer parte de qualquer negociação, e que Trump lhe garantiu que irá permanecer em contacto.
“Não é coincidência que todos estes anúncios e a divulgação pública destas chamadas e de todo este processo ocorram por estes dias, não só porque o vice-presidente norte-americano [JD Vance] vinha à Europa para a conferência sobre Inteligência Artificial em Paris, mas sobretudo por causa da Conferência de Segurança de Munique”, refere Ana Santos Pinto, ex-secretária de Estado da Defesa, que invoca um evento "historicamente importante" no contexto das relações transatlânticas.
Até domingo, a conferência será marcada não apenas por eventos públicos, mas sobretudo, e como tem sido apanágio desde os tempos da Guerra Fria, pela “dinâmica paralela de reuniões bilaterais entre representantes de vários Estados”, adianta a especialista em assuntos de Segurança e Defesa da Universidade Nova de Lisboa. A questão é que, este ano, mais do que nunca, a conferência acontece num momento e num contexto especiais, em que os norte-americanos ao leme de Trump têm agora um “posicionamento particular”, bem diferente daquele que marcou as últimas décadas.
Trump lava a imagem de Putin
Antes das conversas de Trump com Putin e Zelensky, o presidente ucraniano tinha sugerido publicamente que a Ucrânia está disposta a trocar territórios com a Rússia - leia-se, parte do Leste ocupado pela região russa de Kursk - se isso significar o fim da guerra, uma proposta que mereceu a rejeição imediata de Moscovo. “Impossível”, respondeu Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin. “A Rússia nunca discutiu nem nunca discutirá a troca do seu território.”
Também antes das duas conversas, o secretário da Defesa de Trump, Pete Hegseth, indicou que um regresso às fronteiras ucranianas pré-2014, então ainda com a península da Crimeia, é um objetivo “irrealista” e ressaltou que os EUA nunca contribuirão para qualquer força de manutenção de paz na Ucrânia no pós-guerra (dias antes, o próprio Trump ter sugerido que “a Ucrânia pode vir a ser russa um dia”).
As declarações foram proferidas por Hegseth na primeira visita do ex-apresentador da Fox News à sede da NATO na Europa na qualidade de novo chefe do Pentágono, na qual deixou claro - sem surpresas - que Washington DC já não está disponível para bancar a defesa dos aliados europeus.
Do lado de lá do Atlântico, os EUA de Trump estão a passar as suas mensagens sem pudores e, acima de tudo, destaca Ana Santos Pinto, os encontros de Munique servirão para marcar o passo do lado de cá. “Este é o momento de passar mensagens públicas e de todos os envolvidos em qualquer processo negocial marcarem o seu posicionamento, que tem de ser marcado logo à partida - e é isso que se espera neste momento.”
Confrontado com os desenvolvimentos, na véspera do arranque do evento, o diplomata alemão e presidente da Conferência de Segurança de Munique, Christoph Heusgen, disse aos jornalistas em Berlim: “Não posso dizer se um plano [de paz para a Ucrânia] será anunciado na conferência, mas estou certo de que será uma oportunidade para discutir as linhas gerais desse plano e os parâmetros que devem ser incluídos nesse acordo.”
Num artigo no Politico, Wolfgang Ischinger, que preside à Fundação da CSM, já ressaltava no início da semana que, independentemente da espuma dos dias, a Ucrânia e os aliados europeus devem estar preparados para um “longo processo” negocial se querem uma paz duradoura com a Rússia. “Estamos realmente a caminho de conversações entre os EUA e a Rússia? Estaremos a caminho de negociações sobre um possível cessar-fogo na Ucrânia, ou mesmo um acordo de paz, que possam ser concluídos em semanas? Há quem pareça acreditar que sim. Mas justifica-se o ceticismo.”
O ceticismo é justificado, antes de mais, pelas opções políticas de Trump, que em simultâneo se afasta dos tradicionais aliados e se aproxima de anteriores rivais dos EUA. Como destaca Ana Santos Pinto, surpreendentes não são as declarações de Hegseth sobre a Europa ter de investir mais em Defesa - “perfeitamente antecipáveis” - mas a posição do novo presidente dos EUA, que marca uma “mudança muito significativa” para a Europa.
“A Ucrânia é um candidato à adesão à UE, a UE tem um papel a desempenhar e um compromisso com a reconstrução da Ucrânia e estas duas dimensões - a componente europeia e o potencial acordo tendente à pacificação com a Rússia - são indivisíveis e fundamentais”, explica a ex-secretária de Estado da Defesa. “E aquilo que tem sido mais marcante é a posição do presidente norte-americano e esta sua interação direta com Putin - sem auscultar os aliados nem a Ucrânia, de alguma forma recupera a imagem do presidente russo enquanto interlocutor, enquanto parceiro e enquanto par, e isso é uma mudança significativa em relação ao quadro mental e político que tínhamos anteriormente.”
Indústria de Defesa? Ancara e Londres precisam-se
No equilíbrio entre eventos públicos e encontros privados entre delegações, a questão da segurança europeia será obviamente incontornável na CSM, não apenas face à postura sem surpresas da administração Trump, mas também à ambiciosa agenda da Comissão Europeia para desenvolver uma robusta indústria de Defesa na UE a 27.
Como referia o Financial Times, “os planos de paz dos EUA para a Ucrânia estarão no topo da agenda quando os líderes europeus se encontrarem com membros da equipa de Donald Trump em Munique esta semana, mas igualmente importante será a forma como a região pode reforçar as suas defesas, perante repetidos avisos do presidente dos EUA de que está a pagar pouco pela sua própria segurança”.
Até ao final do primeiro trimestre deste ano, o executivo de Ursula Von der Leyen vai divulgar o seu Livro Branco da Defesa, mas esse, refere Ana Santos Pinto, representa apenas um dos dois níveis da questão da segurança e defesa europeia. “A Comissão tem nas mãos o financiamento, mas é preciso perceber como é que os Estados-membros recebem as suas propostas, porque a Comissão não tem competência em matéria de políticas de defesa, isso diz respeito a cada país.”
Os especialistas têm tentado prever algumas das propostas que o executivo comunitário vai apresentar e, de forma quase consensual, antecipam que possam esbarrar na dura realidade no terreno, após décadas de desinvestimento nas áreas que a Rússia trouxe forçosamente para o topo das agendas políticas (a título de exemplo, vejam-se as dificuldades que a Alemanha tem enfrentado para destacar uma brigada para a Lituânia, antecipando agora que as infraestruturas necessárias só ficarão prontas em 2027.)
Sem exercícios de futurologia, e considerando que, atualmente, apenas três das 15 maiores fabricantes mundiais de equipamentos de Defesa estão na Europa, Ana Santos Pinto antecipa que “a aposta numa base industrial de Defesa terá impacto direto nas economias dos países, designadamente na alemã e na francesa, as duas maiores da Europa” e, mais do que isso, terá de vir acompanhada de aproximações a dois aliados geograficamente mais próximos.
“Passará, imagino eu, por uma relação mais próxima com o Reino Unido e passará por avaliar a relação com a Turquia, que são não só aliados da NATO mas sobretudo porque têm desenvolvido indústrias de defesa significativas, que é o grande desafio que a Europa hoje enfrenta – perceber como vai agilizar e como vai operacionalizar a reativação da sua base industrial e tecnológica de Defesa e Segurança. Se já podíamos ter feito isto antes? Sim, mas a UE não é um Estado, são 27 Estados-membros, e as coisas tendem a demorar sempre muito tempo.”
E o Médio Oriente? "Arábia Saudita é claramente central"
Para além das intensas conversações previstas sobre a guerra na Ucrânia e os tópicos de Defesa e Segurança aquém e além mar, antecipa-se que a Conferência de Segurança de Munique vai, como, aliás, nos últimos dois anos, ser muito marcada pela guerra na Faixa de Gaza e os conflitos no Médio Oriente, agora que entra também na equação a situação da Síria pós-Bashar Al-Assad – e as expectativas são elevadas.
Se na conferência de há um ano ainda se tentava negociar um acordo de cessar-fogo e a libertação dos reféns levados pelo Hamas para a Faixa de Gaza, a realidade agora é outra: com um cessar-fogo em vigor, e ameaças de Israel em suspender esse acordo, também aqui é Trump o grande protagonista das discussões em curso, após ter prometido “ocupar Gaza” para transformar o território ocupado na “riviera do Médio Oriente” e, num passo já equiparado a limpeza étnica, ter sugerido que o Egito e a Jordânia recebam todos os palestinianos que vivem no enclave.
“É importante percebermos que o Presidente dos EUA teve uma posição muito mais assertiva e difícil para com os aliados, a Jordânia e o Egito, ao mesmo tempo que abriu, digamos assim, a possibilidade de negociar com o Irão para que este não prossiga com o seu programa nuclear”, ressalta Ana Santos Pinto.
Quando Trump apresentou o seu plano de “realojamento” dos palestinianos de Gaza ao lado do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, em Gaza, as críticas não tardaram – dentro e fora do Médio Oriente. “A proposta de Trump foi rejeitada por toda a gente na região, pelo que não vejo como pode ser aceite se os jordanos e os egípcios são contra”, disse na altura Christoph Heusgen, o presidente da Conferência de Segurança de Munique. “Gaza é o lar dos palestinianos e eles querem ficar lá, e têm todo o direito de ficar lá, porque isso está de acordo com o Direito internacional.”
Ao longo dos próximos três dias em Munique, ressalta a ex-secretária de Estado da Defesa, “será importante perceber como é que os Estados do Médio Oriente vão gerir esta questão internamente, porque, pese embora não sejam democracias, têm sociedade civil e opinião pública, ambas com uma ligação muito forte à causa palestiniana, principalmente depois destes 15 meses de guerra, com as imagens e a tragédia a que fomos assistindo.”
Nesse contexto, a especialista portuguesa destaca que, já no ano passado, a situação nos territórios ocupados da Palestina, incluindo a Cisjordânia, “era um fator de grande preocupação que se mantém neste contexto”, com receios de “radicalização” na região, em particular entre a juventude, quando falamos de “uma das áreas geográficas mais jovens do mundo”.
Com o Médio Oriente novamente no topo da agenda, “claramente o centro será a Arábia Saudita”, adianta Santos Pinto, o grande elemento “em falta nos Acordos de Abraão” que procuram a normalização das relações regionais com Israel e que, recentemente, recebeu o mais alto representante da Síria pós-Assad num “gesto que não tinha há décadas” com o anterior líder do país.
“O príncipe Bin Salman comprometeu-se publicamente com o Estado palestiniano - isso vai ou não acontecer? Como e em que termos? É que a questão de Trump em relação a Gaza não é apenas um projeto imobiliário, é mais do que isso. Houve pontos de exploração de gás descobertos na última década naquela zona e um deles fica precisamente na faixa costeira de Gaza. É tudo isto que está em jogo neste momento.”