opinião

O insulto do PCP à nossa inteligência

21 abr, 22:30

“A primeira regra de um buraco é esta: quando estás num, pára de escavar.” A frase pertence a Thomas L. Friedman e foi escrita há uns dias, no New York Times, a propósito de Vladimir Putin e da situação impossível em que o presidente russo se colocou nesta guerra contra a Ucrânia. Mas ela assenta que nem uma luva ao Partido Comunista Português, que, desde a primeira declaração que fez, logo no início deste conflito, começou a escavar um buraco e, agora, parece só querer parar quando chegar ao outro lado.

Ao dia 57 desta guerra, o mesmo em que Volodimir Zelensky falou ao Parlamento português, o PCP decidiu pegar na pá e escavar um pouco mais. Os deputados comunistas, que já tinham anunciado a sua ausência do plenário, cumpriram a promessa, mas ficaram a ver pela televisão o discurso do Presidente ucraniano e tomaram notas. No final, fizeram a sua análise.

Pela voz de Paula Santos, líder da bancada parlamentar, o partido teceu as seguintes considerações:

  1. Que a intervenção de Zelensky foi “uma instrumentalização da Assembleia da República para o aumento da escalada da guerra”;
  2. Que as referências do presidente ucraniano ao 25 de Abril “são um insulto”;
  3. Que “o poder da Ucrânia está a agredir o seu próprio povo”;
  4. Que o Presidente da Assembleia da República fez  uma intervenção “não coincidente com este órgão de soberania, pelo cinismo” que encerra;
  5. E por último — não por fim —, que o PCP não está disponível para branquear “um governo belicista”.

Ora bem, é difícil decidir por onde começar. Mas talvez possamos começar pelo princípio.

De acordo com o PCP, o facto de o presidente de um país que foi invadido, vendo assim comprometida a sua independência, pedir armas e equipamento militar para se defender “contribui para a escalada da guerra”. Traduzido por miúdos, o PCP — que defende a paz, e disso não quero ter dúvidas — acha que quando um país é invadido por outra nação, deve render-se, depor as armas, desistir de lutar e levantar as mãos, quem sabe, até, pedindo misericórdia.

Portanto, se Portugal amanhã for invadido pela Rússia (a Eurásia que começa em Lisboa, lembram-se?), ficamos a saber que não podemos contar com os comunistas para defender a nossa soberania e a nossa liberdade.

E liberdade, tal como o 25 de Abril, é um conceito sobre o qual o PCP reclama direitos de autor. Como se os comunistas tivessem sido os únicos a combater a ditadura, como se só eles tivessem sido oprimidos, presos e torturados, como se tivessem sido eles, sozinhos, a derrubar uma ditadura pérfida. “Um insulto”, grita a líder da bancada do PCP, perante a alusão de Volodymyr Zelensky ao 25 de Abril de 1974. Insulto? Mas afinal quem é que invadiu quem? Quem é que começou esta escalada militar? Quem é que decidiu tentar anexar um país independente com 44 milhões de habitantes? Foi a Ucrânia que invadiu a Rússia?

Para isto, o PCP também tem resposta. Não tem nada a ver com esta guerra, mas tem resposta. Dizem os comunistas que o poder ucraniano é racista, nazi, xenófobo e de extrema direita, que oprime os comunistas e tem andado a agredir o seu próprio povo. Por isso, bem feito. Ainda bem que Putin os invadiu. Eles estavam mesmo a merecê-las. Esses fascistas que andaram a fazer golpes de Estado contra os presidentes que defendiam uma aproximação à ex-União Soviética. É bem feito. Ou seja, o PCP defende a paz, mas ela depende, na visão dos comunistas, mais do agredido do que do agressor.

O que nos leva ao que os comunistas chamam de “cinismo” da Assembleia da República. Porque, na prática, o PCP olha para esta guerra não como um conflito armado onde todos os dias morrem milhares de pessoas — seres humanos, de carne e osso, crianças, civis, de esquerda, de centro, de direita, fascistas, vai tudo à frente —, mas como se de uma campanha política se tratasse. Isto, no fundo, para o PCP, são comunistas a combater contra fascistas, onde a história — feia de ambos os lados — serve de desculpa para que a Rússia possa invadir a Ucrânia.

Não. Os comunistas não defendem a guerra. Defendem a paz. O problema é que têm um freio na língua que não lhes permite, em nenhum dos seus inflamados discursos, censurar Vladimir Putin por ter optado por invadir um país soberano. Um autocrata que, estando nos antípodas da ideologia comunista, sonha, na verdade, com a reconstrução de um império de que o Partido Comunista Português é tão saudoso. Porque os ditadores, para os comunistas, são todos de direita. Os de esquerda não são ditadores, são libertadores. É, no fundo, o que Putin anda a tentar “vender-nos”. Ele não está a invadir a Ucrânia. Está a libertá-la.

Por fim — que não por último —, o argumento de que Zelensky é um belicista. Esta parte nem merece grandes considerações. A partir do momento em que Putin invade um país soberano, manda matar indiscriminadamente, comete crimes de guerra, uns atrás dos outros, e ainda ameaça todo o Ocidente com uma guerra nuclear, acho que ficamos conversados sobre quem é belicista neste conflito.

Rendam-se, ucranianos. Deponham as armas, deixem que a Rússia tome conta de vós, não andem a pedir para entrar na União Europeia, muito menos na NATO, que isso não vos faz bem. Recusem, de vez, esses imperialistas e aceitem de uma vez o verdadeiro império soviético, uma espécie de comunismo capitalista e corrupto. É esse o vosso melhor destino. Metam lá fotografias do Putin em todo o lado, cantem o hino russo de mão no peito, que este pode ser o primeiro passo para a Rússia invadir a Moldávia, a Geórgia e, por aí fora, reconquistar a União Soviética.

O problema do PCP nunca foi a falta de coerência. É a falta de noção e a forma como nos insulta a inteligência com posições como a que tem nesta guerra da Ucrânia. Isso, sim, é um verdadeiro insulto.

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