Ameaças, detenções e quilos de ouro. Ucrânia e Hungria entraram definitivamente em rota de colisão

6 mar, 13:08
Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria (AP)

O que começou por ser um diferendo energético sobre o oleoduto Druzhba transformou-se numa perigosa crise de segurança no coração da Europa, que pode pôr em causa o esforço de guerra ucraniano

A tensão entre a Ucrânia e a Hungria atingiu o seu mais alto nível, após as autoridades húngaras terem detido sete funcionários do banco estatal ucraniano que viajavam em duas carrinhas de transporte de valores entre a Áustria e a Ucrânia. Kiev acusa Budapeste de "terrorismo de Estado", "extorsão" e de fazer os funcionários reféns, um dia depois dos presidentes dos dois países terem trocado ameaças, devido a um impasse acerca do fornecimento de petróleo russo através do oleoduto Druzhba. 

Segundo o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Andrii Sybiha, os funcionários do Oschadbank estavam a transportar dinheiro da Áustria para a Ucrânia, através da Hungria. De acordo com o banco, os funcionários transportavam 80 milhões de dólares em dinheiro e nove quilos de ouro. "Estamos a falar da Hungria a fazer reféns e a roubar dinheiro", disse Sybiha na rede social X.

O lado húngaro, através da sua autoridade fiscal, acusa os ucranianos de estarem a cometer o crime de lavagem de dinheiro, sugerindo ainda que um dos homens detidos é um antigo general dos serviços secretos. "Só este ano, mais de 900 milhões de dólares, 420 milhões de euros e 146 quilogramas de barras de ouro foram transportados para a Ucrânia através do território da Hungria", afirmou a autoridade tributária húngara num comunicado.

Mas este é apenas mais um caso de um longo percurso de escalada de tensões entre os dois países. Budapeste tem sido um dos principais opositores da defesa ucraniana dentro da União Europeia, com o primeiro-ministro Viktor Orbán a insistir que bloqueará a entrada da Ucrânia no bloco europeu e a travar diversas vezes a aprovação de pacotes de sanções e de ajuda financeira.

Kiev, por sua vez, tem sido bastante crítico do governo húngaro e intensificou o conflito ao travar o fornecimento de petróleo russo à Hungria e à Eslováquia através do oleoduto Druzhba. A Ucrânia rejeita as acusações e diz que precisa de tempo para reparar os fortes danos causados na infraestrutura energética causados por um ataque de drone russo a 27 de janeiro. Zelensky admitiu que a reparação poderia ser feita num mês e meio, sugerindo que a falta de vontade em fazê-lo está ligada ao bloqueio de fundos europeus por parte da Hungria.

Em resposta ao corte de petróleo, Viktor Orbán vetou um pacote de empréstimo da União Europeia de 90 mil milhões de euros, vital para o financiamento e armamento da Ucrânia, que se arrisca a ficar sem capacidade de pagar as suas obrigações financeiras já nos próximos meses. Orbán prometeu usar "ferramentas políticas e financeiras" para forçar a Ucrânia a reabrir o oleoduto pela força. A Ucrânia acusa Orbán de prolongar a guerra e de precisar do petróleo russo apenas para fins eleitorais internos.

Só que, esta quinta-feira, o conflito subiu de tom ao mais alto nível. Em comentários aos jornalistas, em Kiev, presidente ucraniano manifestou o seu descontentamento com o bloqueio húngaro do empréstimo de 90 mil milhões, sugerindo que essa decisão pode significar que os soldados ucranianos podem ficar sem armas. "Daremos o endereço dessa pessoa [Viktor Orbán] às nossas forças armadas, aos nossos rapazes. Deixem que eles lhe liguem, para falarem com ele na sua própria língua", atirou, deixando no ar a ameaça de enviar o exército para a morada do líder húngaro.

Estas declarações foram alvo de um coro de críticas, incluindo dos principais aliados ucranianos. A Comissão Europeia, através do seu vice-porta-voz Olof Gill, afirmou que "este tipo de linguagem não é aceitável" e que "não podem existir ameaças" contra Estados-membros da União Europeia. "Acreditamos que tal retórica de todos os lados não é útil nem propícia para alcançar os objetivos comuns que todos temos aqui", acrescentou.

A Hungria realiza eleições parlamentares a 12 de abril, e Orbán enfrenta a derrota perante o seu rival, Péter Magyar, do partido pró-UE Tisza, que lidera por oito pontos percentuais nas sondagens no final do mês passado. Orbán fez da guerra da Rússia contra a Ucrânia um dos pilares da sua campanha, acusando a vizinha Kiev de atrasar as reparações no oleoduto Druzhba, que costumava levar petróleo russo para a Europa Central, e alegando que a oposição política estava a conspirar com Bruxelas e Kiev para privar o seu país do acesso a combustível barato.

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