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"Amazon da guerra": como a Ucrânia criou um supermercado digital de drones que está a aterrorizar o exército russo

17 abr, 07:00
Drones ucranianos (Getty)

Nova solução tecnológica revolucionou a forma como a Ucrânia combate, colocando nas mãos dos comandantes no terreno exatamente o equipamento de que precisam para enfrentar os russos. O resultado está a deixar Moscovo em pânico

Imagine a aplicação de uma loja online onde, em vez de livros ou eletrónica, os soldados escolhem drones de ataque, sistemas de reconhecimento ou jammers de guerra eletrónica com um simples clique. E, em vez de os receberem em casa, são entregues diretamente na linha da frente, a poucas centenas de metros das posições inimigas, em poucos dias. Não é ficção científica, nem uma ideia que está a ser estudada. Esta é a realidade que a Ucrânia construiu no campo de batalha e que está a deixar os comandantes russos em pânico.

Não é novidade que a falta de soldados na linha da frente levou a Ucrânia a apostar agressivamente nos sistemas aéreos não tripulados. Mas este sistema esbarrou na ineficiência dos antigos processos de compra, que faziam com que os drones não chegassem em quantidade suficiente e, quando chegavam, nem sempre fossem os modelos pedidos pelos homens no terreno. Por isso, o Ministério da Transformação Digital criou o Brave1 Market, uma plataforma apelidada “Amazon para o exército”, que permite aos comandantes no terreno encomendar diretamente aos fabricantes os equipamentos de que realmente precisam, adaptados às ameaças concretas que enfrentam todos os dias.

As necessidades variam drasticamente de setor para setor na linha da frente. Um drone de reconhecimento com Inteligência Artificial (IA) para evitar jamming pode salvar uma unidade no Donetsk; noutra zona, um kamikaze de longo alcance é a ferramenta ideal para cortar as linhas logísticas russas. A procura por estes aparelhos não para de crescer desde o início da invasão, e as especificações técnicas mudam quase diariamente, com base na experiência real dos militares no terreno.

Este sistema funciona em estreita ligação com a estrutura de gamificação criada pelas Forças Armadas ucranianas. No ano passado, as forças armadas implementaram um sistema de atribuição de pontos às unidades. O objetivo é recompensar a eficácia de quem destrói mais alvos ou elimina mais inimigos, recebendo mais pontos que podem ser trocados por equipamento melhor nestas plataformas. Assim, as unidades mais capazes têm sempre ao seu dispor o melhor material possível.

Em paralelo, os voluntários encontraram uma forma eficaz de canalizar os muitos milhões de euros angariados todos os meses. Agora, os cidadãos ucranianos podem doar dinheiro diretamente para as unidades da sua escolha. É comum que diferentes brigadas tenham estruturas de comunicação altamente profissionalizadas, responsáveis por gerir a imagem da unidade. Algumas tornaram-se verdadeiras máquinas de angariação de fundos, o que se traduz em equipamento superior.

Os militares ucranianos admitem que este sistema é significativamente superior para quem está no terreno. No anterior modelo centralizado, a resposta era muito mais lenta. A plataforma, criada pelo então ministro da Transformação Digital, e atual ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, permite aos soldados consultar mais de uma centena de modelos com diferentes características e de diferentes fabricantes.

A interface é user-friendly e está organizada por categorias, tal como uma plataforma de compras online moderna. Os soldados rasos podem analisar as especificações de cada modelo e filtrar por categoria. No entanto, apenas o comandante da unidade pode fazer o pedido, pagando diretamente da conta da brigada. Essa é a única parte feita pelos militares, o resto é tratado pela plataforma.

O sistema encaminha diretamente o pedido ao fabricante, gera toda a documentação necessária e trata do envio das armas para a localização da frente onde a unidade se encontra. Todo o processo, desde a escolha ao fabrico e entrega, dura entre cinco a dez dias. O processo é considerado um salto da noite para o dia, por parte dos militares ucranianos, que admitem ao New York Times que nos tempos em que os contratos dependiam exclusivamente de enormes contratos com o Ministério da Defesa os equipamentos eram fornecidos em quantidade insuficiente ou qualidade inadequada. 

À medida que a guerra evolui, a oferta de modelos e tipos de drones não pára de crescer. As missões tornam-se cada vez mais complexas. Existem drones especializados em observação e reconhecimento, geralmente maiores, capazes de vigiar vastas áreas à distância e equipados com inteligência artificial para contornar as medidas de guerra eletrónica inimiga.

Críticas às autoridades russas 

As opções de ataque são vastas. Hoje, os soldados ucranianos operam uma vasta e diversa frota de drones. Já não são apenas os pequenos drones FPV equipados com explosivos. Atualmente, estas unidades podem encomendar drones kamikaze de maiores dimensões para atacar tropas ou equipamentos na retaguarda, criando sérias dificuldades logísticas à Rússia. Esse tem sido um dos principais problemas sentidos pelas forças russas. Nas últimas semanas, diversos bloggers militares pró-russos têm intensificado as suas críticas às autoridades, devido à eficácia destes ataques.

"O inimigo capturou mais uma vez o ‘pequeno céu’ no teatro de operações, expandindo a chamada 'zona de abate' e caçando pessoal, veículos militares e civis a uma profundidade de 40-50 quilómetros da linha da frente. Estão em curso planos para alargar esta zona até 100 quilómetros dentro das nossas fronteiras, abrangendo não só a LPR e a DPR [Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk], mas também as profundezas da Rússia ‘continental’, tornando a caça a viaturas civis perto de Bryansk, Kursk e Belgorod numa realidade assustadora em vez de uma novidade", escreve o blogger militar pró-russo Voenkor Kitten, que conta com mais de 300 mil seguidores.

Estas ações estão a permitir à Ucrânia reconquistar partes do território ocupado pelas forças russas ao longo do último ano. De acordo com o comandante-chefe das Forças Armadas ucranianas, Oleksandr Syrski, a Ucrânia conseguiu recuperar 480 km de território, incluindo oito localidades na região de Dnipro e quatro na de Zaporizhzhia. E alguns comandantes russos estão a sentir cada vez mais o aperto da aposta ucraniana na tecnologia de drones.

Kiev afirma que, nos últimos quatro meses, as suas unidades de drones neutralizaram mais soldados russos do que aqueles que o Kremlin conseguiu recrutar. Em março, as perdas infligidas ao inimigo por drones ucranianos cresceram 29% face a fevereiro, com uma média superior a 11 mil missões de combate realizadas por dia. A eficácia ucraniana estendeu-se à retaguarda russa, com quase 350 ataques realizados a profundidades entre 30 e 120 quilómetros da linha da frente. Segundo o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, Oleksandr Syrskyi, foram atingidos 143 depósitos logísticos, 52 postos de comando e 20 instalações de energia e petróleo, num esforço para paralisar a máquina de guerra de Moscovo.

"A situação mudou no campo dos sistemas não tripulados. O inimigo adquiriu um novo modelo de drone melhorado, que voa mais do que os anteriores. E, claro, estão a fazer tudo ao seu alcance para cortar as nossas operações logísticas nas regiões de fronteira e estão a fazê-lo com sucesso", afirmou o tenente-general Apti Alaudinov, um dos mais fiéis comandantes chechenos. 

Existem ainda outros modelos, como drones bombardeiros, drones com múltiplas hélices capazes de transportar cargas mais pesadas ou drones de ataque adaptados a diferentes condições climatéricas. No entanto, a principal arma ucraniana parece ser o elevado número de empresas em competição para oferecer o melhor produto. São dezenas de empresas a disponibilizar centenas de modelos nestas plataformas. A capacidade de produção não pára de aumentar: segundo o governo ucraniano, pode chegar aos dez milhões de unidades por ano.

Zakhar Prilepin, outro blogger militar pró-russo, admite que o rácio de utilização de drones está a ficar cada vez mais desequilibrado a favor da Ucrânia. Numa publicação no seu canal de Telegram, admite que a Ucrânia opera 60 drones para cada 40 russos e em muitas áreas da frente a disparidade atinge os 70 drones para 30. "A Ucrânia já lança mais drones para o nosso território do que nós para o deles", lamenta.

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