"Agrediram-me, submeteram-me a choques elétricos e despejaram água fria sobre mim": políticos ucranianos relatam sequestros e tortura dos russos

15 jul, 11:31
Militares preparam defesa na região de Tcherkassi, Ucrânia (Lusa/ Nuno Veiga)

As autoridades de Kiev indicam que os alvos mais frequentes destes sequestros são políticos locais que "não querem trabalhar com o regime" russo ou representantes de "partidos pró-ucranianos", bem como voluntários da Cruz Vermelha e civis que apoiam a Ucrânia

Novos testemunhos confirmam aquilo que muitos já suspeitavam desde o início da invasão russa da Ucrânia: civis e políticos ucranianos estão a ser alvo de sequestro e tortura por parte das forças russas em regiões ocupadas. Os sobreviventes dizem ter sido espancados e submetidos a choques elétricos, entre outras formas de tortura que deixaram marcas visíveis no corpo e que dificilmente serão esquecidas na memória de quem quebra um silêncio sufocado durante meses de clausura.

Oleh Pylypenko, chefe da administração militar regional de Mykolaiv, foi um dos políticos torturados pelos russos. Em declarações à BBC, Pylypenko, de 36 anos, conta que foi capturado por paraquedistas russos perto de Kherson, no dia 10 de março, quando seguia na estrada com o seu motorista, e foi surpreendido por um bloqueio na via. O homem suspeita que estava a ser perseguido desde o início da guerra, depois de ter partilhado a localização da artilharia russa com as forças ucranianas. 

Os paraquedistas russos levaram-no depois para um aeródromo, onde foi torturado ao longo de três dias: "Eles agrediram-me, submeteram-me a choques elétricos e despejaram água fria sobre mim no meio de temperaturas gélidas. Fiquei com queimaduras nos pés devido ao frio, e com as costas e os órgãos internos feridos", recorda. 

Pylypenko recorda que ao terceiro dia já não se conseguia mexer, e diz mesmo que não teria sobrevivido sem o apoio do seu motorista, que esteve sempre a ajudá-lo, e que não foi alvo de qualquer interrogatório ou tortura - daí que o responsável regional acredite que era um alvo já há muito perseguido pelas forças russas. 

Ao fim de três dias, o desfecho de Pylypenko foi motivo de discussão entre os paraqueditas russos e a polícia militar. Os primeiros queriam executá-lo por ajudar as forças ucranianas, enquanto os segundos queriam utilizá-lo para uma troca de prisioneiros. A polícia militar acabou por vencer este conflito interno, e foi assim que Pylypenko foi finalmente libertado no dia 10 de junho.

Dmytro Vasyliev, ex-presidente do conselho da cidade agora ocupada de Nova Kakhova, no sul da Ucrânia, conta que também foi sequestrado por forças pró-russas da auto-proclamada República Popular de Donetsk, em março. Durante os 46 dias em que esteve detido, Vasyliev, de 54 anos, diz ter sido interrogado "cerca de seis vezes" pelos soldados, que estavam constantemente a pressioná-lo para colaborar com o lado de Moscovo.

"As perguntas eram sempre sobre cooperação. Eles perguntavam: 'Você tem ligações com os serviços de segurança ou militares ucranianos?' Depois pediam que colaborasse com eles, para pensar sobre isso", recorda.

Apesar de não ter sido sujeito a violência física, Vasyliev conta que outros ucranianos que estavam detidos no mesmo local - a antiga sede da polícia em Nova Kakhova - não tiveram a mesma sorte: "Eu não fui agredido. Mas outros foram, eu ouvia-os todos os dias. Falei com um idoso que conduzia ambulâncias na zona do Donbass. Ele foi agredido."

Um outro homem que estava detido na cela ao lado da de Vasyliev foi "fortemente agredido durante os primeiros dias" da sua detenção, acrescenta. Dmytro Vasyliev diz que na maioria dos casos, não havia quaisquer razões para as agressões. Eles espancavam os detidos "só porque sim", aponta.

Antes de o libertarem, os guardas daquela prisão revelaram-lhe que eram oficiais do serviço de segurança interna da Rússia, o FSB (Serviço de Segurança Federal). Outros ucranianos sequestrados pelas forças russas também adiantaram que o FSB estava envolvido nas suas detenções, como é o caso de Viktoriia Roshchyna, uma jornalista ucraniana que disse ter sido sequestrada e interrogada por oficiais do FSB na cidade ocupada de Berdyansk, em março.

Mais de 60 políticos locais sequestrados pelos russos, revela ONU

Esta informação foi corroborada pela ONU, que diz ter documentados vários casos de oficiais do FSB envolvidos na "detenção, tortura e maus-tratos" de civis ucranianos.

Um porta-voz do gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUR) - agência que está a monitorizar a situação na Ucrânia desde o início da guerra - indica que, desde 24 de fevereiro, dia em que as tropas russas invadiram o território ucraniano, já foram sequestrados pelo menos 65 políticos locais pelas forças russas.

Um assessor da autarquia de Mariupol adiantou à BBC que os alvos mais frequentes destes sequestros são os políticos locais que "não querem trabalhar com o regime" russo ou representantes de "partidos pró-ucranianos", bem como voluntários da Cruz Vermelha e civis que apoiam a Ucrânia.

A mesma fonte revela ainda que foram documentados "casos de tortura e maus-tratos de civis sujeitos a desaparecimentos forçados", que terão ocorrido em locais improvisados e antigos centros de detenção controlados quer pelas "forças armadas russas", quer por "grupos armados afiliados". As denúncias incluem "casos de espancamento, estrangulamento, choques elétricos, violência sexual, tortura, ameaças de morte com armas de fogo e de violência física contra familiares", acrescenta o porta-voz.

O Ministério da Defesa da Rússia não comentou os testemunhos divulgados pela BBC. Recorde-se que o Kremlin tem vindo a negar, desde o início da invasão, todas as acusações de crimes de guerra de que tem sido alvo na Ucrânia, apesar das provas em contrário apresentadas pela Amnistia Internacional.

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