Agora os russos estão a lutar "de forma inteligente" para uma conquista decisiva. Pokrovsk é o centro da guerra

31 jan 2025, 22:00
Militares ucranianos fazem treinos reais antes de ir para a frente de batalha (AP Photo/Evgeniy Maloletka)

A Rússia mudou de tática e a Ucrânia não está a conseguir responder. Agora, o tempo está a esgotar-se em Pokrovsk, onde a Rússia pode abrir as portas de uma nova região ucraniana e cortar a produção de aço da Ucrânia para metade.

As forças russas estão a intensificar os ataques nos arredores da cidade de Pokrovsk, na região de Donetsk, ao lançar dezenas de ataques de pequena escala em diferentes direções para tentar sobrecarregar as defesas ucranianas e cercar a cidade. Estas táticas estão a obter resultados e as forças russas estão a conseguir avançar nos flancos deste importante centro logístico do exército ucraniano. Para os ucranianos o plano russo é claro: cercar a cidade estratégica para a Ucrânia e obrigar os defensores a retirar, abrindo assim as portas para a conquista de Donetsk.

“Pela primeira vez, [os russos] começaram a lutar de forma inteligente. Pela primeira vez, começaram a lutar não apenas com ondas humanas, mas com tentativas de cobertura, com tentativas de contornar uma grande cidade e forçar as forças ucranianas a abandoná-la”, afirmou Victor Trehubov, porta-voz do agrupamento militar Khortysia, responsável pela defesa do setor.

As forças russas adaptaram-se e alteraram a forma de combater neste setor. Ao contrário do que acontecia no passado, o exército russo recorre agora a pequenos grupos de soldados, transportados por motas ou veículos ligeiros. Esta tática permite à Rússia movimentar os seus militares de forma rápida para surpreender os defensores ucranianos nas trincheiras e beneficiar da superioridade numérica do seu exército.

Pasi Paroinen, um analista do Black Bird Group, sediado na Finlândia, afirmou à agência Reuters que as dificuldades da Ucrânia em fazer frente a estes ataques de pequenas dimensões da infantaria russa se deve à falta de efetivos para cobrir totalmente as linhas da frente.

O comando russo está a utilizar estes métodos nas vastas planícies que existem nos arredores da cidade, onde o movimento com veículos ligeiros é mais fácil e onde existem menos obstáculos físicos. O objetivo é evitar o combate urbano a todo o custo. No passado, batalhas como Bakhmut, Avdiivka e Vuhledar tiveram um elevado peso de perdas para a Rússia, apesar de terem conseguido conquistar o que sobrou destas localidades.

E os resultados desta tática estão à vista. Os mapas fornecidos pelo DeepState UA mostram que, apesar de ainda não ter chegado aos limites da cidade, a Rússia está mesmo a conseguir ganhos territoriais a este e oeste de Pokrovsk. As forças russas estão tão perto da cidade que todas as linhas de abastecimento estão debaixo de fogo russo, o que torna a defesa um exercício cada vez mais difícil.

Mapa da frente de batalha nos arredores da cidade de Pokrovsk (DeepState UA)

Debaixo de fogo constante da aviação e da artilharia russa, a vida no interior da cidade é complicada. Já quase não existem serviços disponíveis e qualquer entrada e saída tem de ser feita com o apoio de veículos blindados. De acordo com o governador da região, cerca de sete mil habitantes permanecem em Pokrovsk. Antes da invasão russa, 60 mil pessoas faziam desta cidade a sua casa.

A cidade passou os primeiros anos de guerra longe da linha da frente e era o principal entreposto logístico que ligava a cidade de Dnipro ao Donbass. Armamento, blindados e mantimentos eram trazidos de Dnipro por comboio para Pokrovsk e, a partir daí, eram distribuídos pelos vários pontos da frente. No entanto, a queda de Avdiivka, no início do ano e o rápido avanço das tropas russas tornou este bastião logístico ucraniano num dos principais alvos do exército russo.

A conquista de Pokrosvk pela Rússia roubaria a Ucrânia de uma das suas mais importantes minas. Nos arredores desta cidade existe a única minha ucraniana que produz carvão de coque, fundamental para a indústria metalúrgica ucraniana. No início de janeiro, a empresa que explora a mina, a Metinvest, anunciou a suspensão de operações por motivos de segurança. A queda da mina significaria que a Ucrânia iria reduzir a produção de aço em mais de metade.

A queda de Pokrovsk pode ter consequências catastróficas para a Ucrânia, uma vez que abre a porta da região de Dnipro para a Rússia, uma província ucraniana que ainda não tinha tido tropas russas no seu território. Além disso, coloca em causa uma estrada fundamental para o abastecimento de outras cidades na linha da frente, como Chasiv Yar.

Michael Kofman, investigador do think tank Carnegie Endowment for International Peace, afirmou à Reuters que a conquista de Pokrosvk pode levar a Rússia a utilizar a cidade como base para futuras operações. “As forças russas estão a preparar um potencial avanço para a região de Dnipropetrovsk, mais atrás das linhas da frente, estão a construir e a reparar linhas ferroviárias. Assim podem avançar com a sua própria logística e isso permite-lhes avançar mais para oeste”, disse à Reuters.

Relacionados

Europa

Mais Europa