FACTOS PRIMEIRO | Polémica foi reavivada no debate entre João Cotrim de Figueiredo e Catarina Martins
Dois dias antes da invasão, o Bloco de Esquerda chamava nazi ao Zelensky”. João Cotrim de Figueiredo, 4 de dezembro de 2025
Foi no debate para as eleições presidenciais de 2026, esta quinta-feira à noite na TVI e na CNN Portugal, que João Cotrim de Figueiredo criticou as posições de Catarina Martins sobre a NATO e, depois, evocou alegadas acusações do Bloco de Esquerda a Volodomyr Zelensky, presidente da Ucrânia, antes da invasão do país pela Rússia.
Pode ver a declaração aqui, a partir do minuto 17:50. Eis a sequência completa do diálogo:
"João Cotrim de Figueiredo - Dois dias antes da invasão, o Bloco de Esquerda chamava nazi ao Zelensky.
Catarina Martins – Está a debater comigo, podemos debater os dois?
JCF – Estou.
CM – Ótimo, então vamos continuar a debater os dois. Nessa altura…
JCF – Mas não disse nenhuma mentira
CM - Eu nunca disse tal coisa.
JCF - Não, o Bloco de Esquerda disse-o.
CM - Julgo que não, mas eu seguramente não disse e está a debater comigo…
JCF – Por acaso não trouxe, mas os fact checkers…
CM -… portanto vamos debater os dois, que é mais saudável.”
Catarina Martins chamou Zelensky de nazi?
Foi na madrugada de 24 de fevereiro de 2022 que a Rússia invadiu a Ucrânia. Nessa data, a líder do Bloco de Esquerda era, precisamente, Catarina Martins: foi coordenadora do partido entre 2012 e 2023.
Não há registo público de que Catarina Martins tenha alguma vez chamado Zelensky de nazi ou neonazi. O próprio Cotrim de Figueiredo, aliás, não a identificou como autora de tal afirmação.
Mariana Mortágua chamou Zelensky de nazi?
Na afirmação no debate, João Cotrim de Figueiredo estaria a referir-se a Mariana Mortágua, que em 2022 era dirigente e deputada do Bloco de Esquerda.
Na noite de 21 de fevereiro de 2022, três dias antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, na SIC Notícias, Mariana Mortágua debatia com Adolfo Mesquita Nunes e afirmou o seguinte:
Não sabemos de facto o que pensam os ucranianos. O que sabemos é que há um governo - o Adolfo fala em aproximação ao Ocidente, enfim, é o que é, o que eu vejo é um governo de extrema-direita, com fascistas dentro do seu governo, um governo corrupto, e que portanto também tem muito que se lhe diga relativamente às decisões e às motivações que as sustentam.” Mariana Mortágua, 21 de fevereiro de 2022
Pode ver este excerto aqui:
Relembrar que isto foi nesta 2.ª feira. https://t.co/PmcCtBhG5c pic.twitter.com/b7EMa5MkX7
— Gonçalo Levy Cordeiro (@glevycordeiro) February 26, 2022
Embora critique o governo de Zelensky, o qualifique como sendo de extrema-direita e diga que nele há fascistas, Mariana Mortágua não fala especificamente do presidente Zelensky nem o chama de nazi.
Militantes do Bloco chamaram nazi a Zelensky?
A polémica eclodiu em 2023, após uma visita a 2 e 3 de maio à Ucrânia do presidente da Assembleia da República de então, Augusto Santos Silva, acompanhado de uma delegação parlamentar: Eurico Brilhante Dias (PS), Jorge Paulo de Oliveira (PSD), João Cotrim de Figueiredo (IL) e Isabel Pires (BE).
A visita de uma deputada do BE gerou críticas no partido, após uma decisão que, segundo notícia de então do Observador, foi aprovada pela Comissão Política bloquista, com o voto contra do histórico Mário Tomé.
No final desse mês de maio, durante a XIII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, essas críticas foram vocalizadas por vários militantes.
Pedro Soares, que apresentara a Moção E (que receberia a minoria dos votos), criticou a direção de Catarina Martins em diversas frentes, incluindo por "discursos vagos" e posições que provocavam "a diluição da nossa identidade e do nosso papel na sociedade", mas também por causa dos "anos de troca do nosso programa pela procura de acordos com o Partido Socialista, sem qualquer base real de possibilidade, a não ser com o abandono das nossas bandeiras". A geringonça acabara e "o mal-estar está instalado e transborda", disse, denunciado o padrão de comportamento de "não avaliar os mais evidentes sinais de crise e esconder a verdade e com isso degradar a democracia interna e evitar mudar de rumo".
Mas foi na posição quanto à visita à Ucrânia que as críticas subiram de tom, conforme pode ver aqui a partir do minuto 38:10
Cria enorme perplexidade quando vemos dirigentes do Bloco a declararem que, em matéria de guerra na Ucrânia, a posição é a mesma do governo português. Mas a posição do governo português não é a mesma da NATO?! Não é a do chamado eixo euro-atlântico?! Não menos perplexidade causa a integração do Bloco numa delegação parlamentar à Ucrânia, a convite de um neonazi, organizador das piores perseguições à oposição de esquerda na Ucrânia. O Bloco foi à Ucrânia fazer o quê?! Comprometer-se como a posição euro-atlântica de prolongamento da guerra e da escalada militar? Foi corroborar um convite a um neonazi para discursar no nosso Parlamento no 25 de abril? Se não foi nada disto, não ouvimos ainda uma única palavra de demarcação e de solidariedade com a oposição ucraniana, cujos dirigentes ou estão mortos ou estão presos.” Pedro Soares, 27 de maio de 2023
No dia seguinte, foi a vez de Manuela Tavares criticar a direção:
Vários camaradas colocaram em causa a ida da camarada Isabel Pires à Ucrânia, mas não ouvimos de parte da própria ou de outros camaradas as vantagens de o Bloco ter ido naquela delegação, convidando um comprovado nazi, presidente do parlamento ucraniano, a visitar o nosso Parlamento. Digo-vos sinceramente: eu fiquei coberta de vergonha. E estou já a imaginar a bancada do Bloco a aplaudir de pé esse nazi." Manuela Tavares, 28 de maio de 2023
Pode ver as declarações de Manuela Tavares aqui, a partir do minuto 42:05
As críticas de Manuela Tavares prosseguiram: "Há uns anos, o Bloco não teria feito isto. Em tempos idos, lembro-me do camarada Fazenda colocar a questão da NATO como uma base da nossa demarcação da nossa política. Mas agora, não podemos dizer 'NATO fora da Europa', assim como dizemos 'Putin fora da Ucrânia'. E também não podemos falar de uma política de paz porque isso seria defender a Rússia. Que política a preto e branco é esta, submetida aos interesses dos governos europeus?”
Nenhuma das declarações se refere a Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia. Ambas se referem sim ao presidente do Parlamento da Ucrânia, Ruslan Stefanchuk. O erro de trocar um pelo outro foi cometido na altura por órgãos de comunicação social, que mais tarde corrigiriam as notícias publicadas.
Ora, foi a convite de Ruslan Stefanchuk que Augusto Santos Silva e os quatro deputados visitaram o parlamento ucraniano, a Verkhovna Rada.
Nessa visita oficial Augusto Santos Silva convidou Ruslan Stefanchuk a visitar Lisboa e a discursar na Assembleia da República, afirmando que o convite fora aceite "imediatamente". Um ano depois, em 2024, José Pedro Aguiar-Branco, então novo presidente da Assembleia da República, visitou Kiev e voltou a convidar o seu homólogo, sendo noticiada a aceitação do convite e que ela aconteceria até ao final desse ano.
Em dezembro de 2025, um ano depois do final desse compromisso, Ruslan Stefanchuk ainda não visitou Portugal
Conclusão
Não há registo de algum dirigente ou deputado do Bloco de Esquerda ter chamado Volodymyr Zelenskyy de nazi nem antes nem depois da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Três dias antes dessa invasão, Mariana Mortágua qualificou o seu governo como "de extrema-direita, com fascistas dentro do seu governo, um governo corrupto", mas não nomeou Zelensky nem usou o termo nazi.
Mesmo os militantes críticos da posição do partido que usaram publicamente as expressões "nazi" e "neonazi" referiam-se a Ruslan Stefanchuk, não a Zelensky.
A acusação de João Cotrim de Figueiredo, de que "dois dias antes da invasão, o Bloco de Esquerda chamava nazi ao Zelensky”, é falsa.