Adesão da Suécia e Finlândia duplicará fronteiras da NATO com a Rússia. O que vai fazer Putin? "É um jogo de forças, tudo pode acontecer"

28 abr, 22:00
NATO

Secretário-geral da NATO garante processo rápido de adesão da Finlândia e da Suécia, que podem submeter o pedido já em maio. Kremlin diz que será obrigado a reequilibrar forças no Báltico, mas especialistas não afastam a possibilidade de Putin retaliar com outras ações perante o alargamento da Aliança Atlântica

"Cabe, evidentemente, à Finlândia e à Suécia decidir se querem ou não candidatar-se à adesão à NATO. Mas se decidirem candidatar-se, serão acolhidas de braços abertos". A garantia foi dada esta quinta-feira por Jens Stoltenberg, secretário-geral da NATO, que prometeu igualmente aos nórdicos que o processo de adesão dos dois países à Aliança Atlântica, caso seja iniciado, será rápido. "A Finlândia e a Suécia são os nossos parceiros mais próximos", disse Stoltenberg.

Mas, no decurso de uma ofensiva da Rússia na Ucrânia em que uma das razões apresentadas por Moscovo para a invasão do território ucraniano foi precisamente uma desmilitarização e eventual adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte, será que a adesão da Suécia e da Finlândia - que partilha com a Rússia uma fronteira de mais de 1.000 quilómetros - pode mudar o curso da guerra?

"Todos os cenários estão em aberto", admite Luís Tomé, especialista em relações internacionais. "Se a Rússia tem como uma das motivações impedir a entrada da Ucrânia na NATO, é possível que faça mais qualquer coisa do que ameaças. E pode passar pela colocação de dispositivos nucleares no Báltico, em Kalininegrado, ou até junto das fronteiras terrestres com a Filnândia", diz o especialista. "Mas a escalada no território da Ucrânia e da confrontação da Rússia com a NATO pode ocorrer independentemente da adesão destes dois países", acrescenta. 

O diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa lembra que, no caso da Finlândia, que fez parte do império russo até 1917, a adesão à NATO poderá dar largas à "narrativa putinista" e aos movimentos que defendem que Moscovo deverá reconstituir não apenas o espaço da União Soviética. mas também a configuração do seu império anterior, levando ao aumento da pressão militar com "bombardeamentos cirúrgicos ou concentrações de forças". 

"A Rússia tem a expectativa de que, em algum momento, vai negociar um novo quadro de segurança europeia com a NATO. E pode ter como objetivo político o de colocar-se numa posição de vantagem nessas negociações, que virão a seguir à solução, seja ela qual for, encontrada para a Ucrânia", assinala Luís Tomé.

Mas a calorosa saudação endereçada pelo secretário-geral da NATO à Finlândia e Suécia também significa que a Aliança Atlântica não deixará a Rússia sair vitoriosa da invasão da Ucrânia. "Se os russos estavam à procura de mais segurança, devem perceber que ficarão mais inseguros, não apenas porque os países aliados da NATO estão coesos e a apoiar a Ucrânia militarmente, mas também porque reforçam o seu dispositivo no leste e podem acolher novos membros na fronteira direta com a Rússia", acrescenta Luís Tomé. "É um jogo de forças e, num contexto de escalada, é evidente que tudo pode acontecer. Basta ver as sucessivas ameaças russas com as armas nucleares", refere o especialista. 

Finlândia pode ser invadida em retaliação?

Apesar da imprevisibilidade das ações russas, o major-general Agostinho Costa, vice-presidente do Centro de Estudos EuroDefense-Portugal, acredita que as adesões da Finlândia e da Suécia à NATO pesam mais num plano político do que em termos de influência direta no conflito em curso na Ucrânia. "Mesmo que o conflito se alastre, seria mais provável alastrar-se na zona central do leste europeu, Roménia, Polónia, Eslováquia, que são as zonas mais sensíveis, porque é por onde entra todo o material militar que está a ser fornecido", indica. "É, naturalmente, um fator que aumenta a tensão política, na medida em que aumenta a fronteira entre a Rússia e a NATO, que vai mais do que duplicar", esclarece. "Vai aumentar a nova cortina de ferro a que estamos a assistir, isso sim", diz o major-general.

Para Agostinho Costa, é preciso distinguir entre Suécia e Finlândia, uma vez que os finlandeses já tiveram um conflito com a Rússia em 1939. "Houve uma aventura de Estaline, que aproveitou para iniciar um conflito com os países bálticos e teve uma guerra de quatro meses com a Finlândia, que depois terminou em paz. Esta adesão à NATO vai sempre aumentar a tensão e a possibilidade de um conflito é sempre maior", admite o major-general. "Mas não nos parece que a Rússia de Putin vá invadir a Finlândia. Não nos podemos esquecer de que a Ucrânia é um caso particular, tal como ela existe, é um produto da era soviética. Muitas vezes esquecemo-nos da História", assinala o dirente da EuroDefense-Portugal.

"Se olharmos para o mapa, Finlândia e Suécia têm fundamentalmente a ver, para os russos, com o estrangular da saída para o mar a partir de São Petersburgo. A saída para o mar a partir do Báltico fica completamente fechada", assinala o major-general. "Mas, em boa verdade, estes estreitos do Báltico já estavam sob controlo da NATO", acrescenta.

Colocada em causa fica, isso sim, a formação de uma "zona tampão" entre a Rússia e os países membros da NATO, "que era uma intenção russa, declarada e de longa data", explica Agostinho Costa.

"Mas o risco de uma invasão da Finlândia, para já, não nos parece existir. Até porque seria uma dispersão de forças muito grande" para Moscovo, assinala o major-general. "E o centro de gravidade de Putin, em termos operacionais, está neste momento direccionado para o Donbass". Já o centro de gravidade estratégico, admite Agostinho Costa, será certamente a NATO e é à Aliança Atlântica que o presidente russo dirige todas as suas mensagens "com o objetivo de manter a NATO paralisada", refere o militar. "E tem-no feito", acrescenta.

O fim da neutralidade sueca e finlandesa

Finlândia e Suécia adotaram a posição de países não alinhados na Segunda Guerra Mundial, sem aderir à NATO, apesar de ambos os países terem forças militares de defesa em relação à Rússia. Em 1995, as duas nações assinaram acordos de cooperação com a Europa e aderiram à União Europeia. A adesão à Aliança Atlântica permitir-lhes-á defenderem-se de uma eventual invasão russa ao abrigo do célebre artigo 5º que assegura a defesa aos países membros contra agressões externas. 

"É notória a mudança de mentalidade nestes dois países desde logo, já que todas as indicações, quer do ponto de vista das opiniões públicas ou das maiorias no parlamento, são claramente favoráveis à entrada na NATO", refere Luís Tomé, que duvida de que haja objeções da parte dos países membros da Aliança Atlântica à adesão dos nórdicos.

"O que vai dando sinais de maior reticência e maior compreensão com Moscovo é a Hungria de Orbán. Recorde-se que ele já se encontrou onze vezes com Putin, prestou-se logo a pagar o gás russo em rublos e não quer aprovar as sanções da União Europeia de boicote total às importações de petróleo e gás da Rússia", aponta o especialista em relações internacionais. 

"Montenegro também tem relações muito fortes com a Rússia, mas do que se conhece publicamente, não se quererá expor", acrescenta Luís Tomé. Já em relação a uma eventual adesão da Geórgia à NATO, Luís Tomé diz que o Kremlin estará convencido de ter "resolvido essa questão" ao reconher as regiões separatistas da Abecásia e da Ossétia do Sul em 2008.  

"É muito complicado metermos na NATO, ao abrigo do artigo 5º, um país que tem territórios que outro reconhece como independentes. A Rússia achou que a situação na Geórgia estava resolvida e também achou que, com a anexação da Crimeia, a Ucrânia ficava bloqueada, e de facto não se vislumbrava a previsível entrada de nenhum destes países na NATO, o que torna ainda mais estranha a justificação para esta invasão", refere o especialista em assuntos internacionais. "Mas, dependendo do evoluir da situação militar e da escalada de tensões, não podemos pôr de parte a possibilidade de uma Ucrânia dividida em duas partes, com a Ucrânia de leste e sul sob protetorado ou como estado satélite, ou mesmo integrada, na Federação Russa", conclui.

Mudança no conceito estratégico da NATO

Segundo a imprensa nórdica, citada pelo jornal britânico The Guardian, Suécia e Finlândia concordaram em submeter em simultâneo o pedido de adesão à NATO já em meados do próximo mês de maio.  Magdalena Andersson, primeira-ministra da Suécia, e Sanna Marin, a sua homóloga finlandesa, já admitiram estar a analisar a questão da adesão à Aliança Atlântica alegando que a invasão russa da Ucrânia alterou a configuração europeia em termos de segurança e fez mudar "drasticamente" as mentalidades no norte da Europa.

A resposta do Kremlin foi de que seria obrigado a "restabelecer o equilíbrio militar" reforçando defesas no Báltico, incluindo a mobilização de armas nucleares, se os dois países decidirem abandonar décadas de não alinhamento militar. E a própria Aliança Atlântica está num ponto fulcral: no final de junho, realiza-se a cimeira onde será redefinido o conceito estratégico para a próxima década, com a ameaça russa a fazer certamente oscilar as prioridades dos 30 atuais países membros. 

"Julgo que vai haver uma mudança de postura" da NATO, diz o major-general Agostinho Branquinho. "Estamos a assistir ao crespúsculo de uma era em termos de ordem internacional, que levará ao redesenhar de novas alianças militares e de ordem geopolítica e geoestratégica", reflete o vice-presidente do Eurodefense-Portugal. "Passamos de um período em que a centralidade da segurança norte-americana estava orientada para a ameaça jihadista global para outro período diferente, de confrontação estratégica", acrescenta.

Para Luís Tomé, o contexto da invasão russa da Ucrânia pode ser prejudicial para a definição deste conceito estratégico da NATO, uma vez que os países do leste europeu preferem a Aliança concentrada na dissuasão de uma agressão russa, enquanto os países do flanco sul, nos quais se inclui Portugal, têm preocupações "que derivam das perturbações, riscos e desafios na margem sul do Mediterrâneo, Norte de África ou Médio Oriente". O diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa defende que "os outros aliados têm, assim, menos margem de manobra para dizer que a NATO não pode existir apenas para travar a ameaça da Rússia, ainda que haja outros problemas", chamando a atenção, por exemplo, para o desafio da China, da região do Indo-Pacífico. 

"A evolução principal da NATO foi passar de organização de defesa coletiva para organização de segurança. Se agora voltamos a enfatizar quase exclusivamente o artigo 5º e a tónica da defesa coletiva perante um grande inimigo, é uma NATO que volta a encolher na sua dimensão do ponto de vista geográfico, deixa de ser mais global e passa a ser localizada regionalmente. Perde uma faceta política importante", resume Luís Tomé. 

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