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Acordo de cessar-fogo na Ucrânia "abre as portas ao envio de tropas francesas e inglesas"

12 mar 2025, 08:00
Negociações entre Ucrânia e EUA na Arábia Saudita (Saul Loeb/Pool Photo via AP)
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A Ucrânia aceita um cessar-fogo de 30 dias que pode mudar o rumo da guerra. Mas será que a Rússia vai ceder, ou está Kiev a ganhar tempo para um golpe decisivo?

Depois de vários "desastres diplomáticos" e das palavras duras dos principais membros da administração norte-americana, as expectativas para o encontro na Arábia Saudita entre a delegação ucraniana e o secretário de Estado norte-americano eram altas. E o resultado não desapontou: a Ucrânia concordou com uma proposta de cessar-fogo para toda a linha da frente de 30 dias e o levantamento das restrições do envio de armamento e de informações militares para a Ucrânia. Mas pode ter obtido muito mais que isso. 

"A Ucrânia já levava este acordo na agenda. A ideia de cessar-fogo de 30 dias não é uma ideia ucraniana, é uma ideia de Emmanuel Macron. Isto demonstra que há uma grande concertação política entre a posição europeia e ucraniana. A ser implementado o cessar-fogo, a Ucrânia pode consolidar posições e França e o Reino Unido ficam com a porta aberta para o envio de militares para a Ucrânia", diz à CNN Portugal o major-general Agostinho Costa.

A decisão é, ainda assim, "histórica". Ao longo dos últimos três anos, a Ucrânia rejeitou sempre as várias propostas de cessar-fogo que foram sugeridas, por considerar que estas não forneciam a Kiev as garantias de segurança suficientes para travar o regresso de uma Rússia rearmada e com mais experiência. No entanto, Kiev pode ver agora uma possível pausa como uma alternativa para recuperar e consolidar as suas posições defensivas.

Após nove horas de encontro em Jeddah, os Estados Unidos e a Ucrânia acreditam ter dado "passos importantes" no sentido de "restabelecer a paz duradoura" no país invadido pela Rússia em fevereiro de 2022. Isto porque, ao contrário do que aconteceu anteriormente, esta proposta engloba a cessação das hostilidades em toda a frente e não apenas no ar e no mar, como foi sugerido no passado.

Só que o acordo tem outro efeito: obrigar os russos a aceitar parar as hostilidades. Segundo o comunicado enviado pelo lado ucraniano, o cessar-fogo pode ser prorrogado por mútuo acordo, "sob reserva de aceitação e aplicação simultânea pela Federação da Rússia". Caso o Kremlin não mostre abertura em avançar para o cessar-fogo, corre o risco de deitar por água a teoria frequentemente repetida pelo presidente norte-americano de que "Putin quer acabar com a guerra". 

"Parar a guerra, sem a aceitação das cláusulas russas, é muito bom para a Ucrânia. Isto permite que a Ucrânia ganhe tempo para poder recuperar em termos materiais e dá tempo à Europa para produzir mais equipamento. O congelamento favorece a Ucrânia porque permite consolidar posições", defende Agostinho Costa.

A Ucrânia também olha com algum alívio para a reversão da decisão tomada pela Casa Branca no início de março, quando o diretor da CIA, John Ratcliffe, e o conselheiro de segurança nacional, Mike Waltz, anunciaram a suspensão do envio de armamento e de informações militares. Muitas das ações militares conduzidas por Kiev no campo de batalha estão dependentes das valiosas informações que só os satélites militares americanos podem dar. As informações são fundamentais também para perceber onde é que os russos estão a acumular forças, o que permite aos militares ucranianos prepararem-se para potenciais ataques.

"O clima inicial foi de uma grande disponibilidade negocial. As duas delegações elogiaram-se e os ucranianos demonstraram gratidão a Trump, ao congresso e ao povo americano. Em resposta receberam a retoma da partilha de informações e o envio de equipamento militar", destaca o professor catedrático José Filipe Pinto, especialista em relações internacionais.

Nos últimos dias, a Rússia tem conseguido aproveitar, com sucesso, a ausência destas informações, intensificando os ataques em Kursk, território russo ocupado por forças ucranianas desde uma ofensiva relâmpago em agosto de 2024. E os ataques russos estão a obter sucesso. No dia 9 de março, a Rússia anunciou a reconquista de três pequenas aldeias na região. As forças ucranianas estarão praticamente cercadas, apesar de o negarem, com as tropas russas a atacarem de três direções diferentes.

"Será muito difícil a Rússia querer aceitar este acordo, principalmente se tivermos em conta o que está a acontecer em Kursk, onde estão a avançar seriamente. A grande dúvida é o que a Rússia planeia fazer a seguir a Kursk, porque tudo indica que pode querer avançar por Sumy", destaca o major-general.

O regresso do armamento também vai garantir algum alívio a Kiev, mas este fornecimento já não é tão fundamental quanto foi no passado. Nos últimos dois anos, a Ucrânia desenvolveu grandes esforços para reconstruir a indústria da Defesa no país e hoje já produz quase metade de todas as necessidades do exército na linha da frente. Ainda assim, o apoio americano continua a ser crucial em algumas áreas-chave, como as munições de sistemas antiaéreos.

O acordo aborda também algumas das principais preocupações humanitárias ucranianas no âmbito do cessar-fogo. Segundo o comunicado ucraniano, os dois lados vão fazer esforços no que toca à "troca de prisioneiros de guerra", na "libertação de civis detidos" e no regresso "de crianças ucranianas deslocadas à força". No entanto, todos estes temas estão dependentes da aceitação russa. 

Desde 2022, já aconteceram mais de 50 trocas de prisioneiros, com milhares de soldados ucranianos libertados em acordos mediados pelos Emirados Árabes Unidos. A Ucrânia partilha com frequência imagens do antes e depois dos militares ucranianos detidos para acusar a Rússia de maus-tratos e de crimes de guerra contra os seus militares. 

Em reação à bem-sucedida negociação, o presidente norte-americano, Donald Trump, mostrou-se feliz com a postura da Ucrânia e disse que espera encontrar-se com a Rússia ainda "hoje [terça-feira] ou amanhã [quarta]" e adianta que vai voltar a convidar Volodymyr Zelensky para a Casa Branca depois de a última reunião ter acabado em "desastre" - em cima da mesa vai estar o famoso acordo de minerais raros, que Trump muito deseja de forma a "compensar" o investimento americano na defesa da Ucrânia. 

Mas no terreno é a Rússia quem está ao ataque e isso levanta dúvidas em relação à vontade de Moscovo em aceitar um acordo de paz, ainda que de 30 dias e que abre as portas a maiores dificuldades no futuro. Ainda assim, caso um acordo de cessar-fogo se transforme num congelamento do conflito, é Moscovo quem sai mais beneficiado, porque está com uma posição muito vantajosa no terreno.

Este acordo, no entanto, é provisório e improvisado e, quando isso acontece, os detalhes vão sendo clarificados com as negociações. "Mas a Rússia não quer uma frente de conflito com Trump, porque a solução proposta por Washington serve mais os interesses russos do que ucranianos", frisa José Filipe Pinto.

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