A visita secreta da CIA à Rússia mostra como Trump e Putin estão presos na mesma armadilha

CNN , Stephen Collinson
28 ago, 19:56
()
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

ANÁLISE || Dois líderes em dois conflitos diferentes que enfrentam um dilema semelhante: não conseguem atingir os seus objetivos

A história conturbada da Rússia gerou um sentido de humor sombrio nos seus cidadãos.

Os anfitriões do diretor da CIA, John Ratcliffe, certamente apreciaram a ironia quando este voou para Moscovo esta semana, supostamente para dizer aos russos que estão a perder a guerra na Ucrânia ao ritmo de um descalabro.

Os chefes da espionagem russa podem ter salientado que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tal como o presidente da Rússia, Vladimir Putin, também está envolvido numa guerra — no Irão — que não pode vencer e não pode terminar.

Dois líderes em dois conflitos diferentes enfrentam um dilema semelhante: não conseguem atingir os seus objetivos de guerra. Mas também não podem simplesmente retirar-se e salvar as aparências.

Cada um iniciou as hostilidades depois de aparentemente subestimar a tenacidade e a capacidade de adversários cujos exércitos eram insignificantes em comparação com o poder convencional e o equipamento das forças americanas e russas.

Tanto Putin como Trump viram a sua vantagem militar tática minada por táticas assimétricas não convencionais da Ucrânia e do Irão, que foram pioneiros em novas tecnologias baratas, como os drones, e numa nova era da guerra.

Na sua reportagem sobre a visita de Ratcliffe, o New York Times destacou uma preocupação há muito partilhada pela comunidade de política externa de Washington: Putin não está a receber avaliações honestas sobre a trajetória da guerra. Muitos observadores questionam se as avaliações otimistas de Trump sobre a vitória dos EUA no Irão significam que também está a ser mal servido por um círculo íntimo relutante em dar-lhe más notícias.

Washington e Moscovo não são estranhos a custosos envolvimentos externos; ambos, por exemplo, foram humilhados pelas guerras no Afeganistão. O desastre da Rússia na Ucrânia, de certa forma, faz lembrar a derrota dos EUA no Vietname.

Ainda assim, os paralelismos entre dois líderes autoritários agora presos em guerras que eles próprios iniciaram, embora pertinentes, têm os seus limites.

Trump não copiou o grave erro de Putin de enviar tropas terrestres para um atoleiro — uma decisão que fez mais de 1,4 milhões de jovens russos morrerem, fcarem feridos ou desaparecerem, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Putin, um verdadeiro líder autoritário, é menos limitado do que Trump pela dinâmica interna. Tal número de vítimas seria politicamente insustentável nos EUA.

E enquanto Putin semeia o terror e a morte nas cidades e centrais ucranianas com ataques de mísseis e drones, Trump tem evitado, em grande parte, atacar deliberadamente civis e infraestruturas civis na sua guerra. Recusou, no entanto, prestar contas públicas sobre o ataque com mísseis que atingiu uma escola iraniana em fevereiro, matando quase 200 crianças e adultos, aparentemente resultado da utilização de informações desatualizadas.

O diretor da CIA, John Ratcliffe, participa numa reunião de gabinete em Camp David, a 31 de julho (Anna Moneymaker/Getty Images/Arquivo)
O diretor da CIA, John Ratcliffe, participa numa reunião de gabinete em Camp David, a 31 de julho (Anna Moneymaker/Getty Images/Arquivo)

Chefes de espionagem reúnem-se em momento internacional preocupante

A visita surpresa de Ratcliffe à Rússia ocorreu num momento de instabilidade e de presságios sombrios nas relações internacionais, à medida que as guerras na Ucrânia e no Irão destabilizam o Médio Oriente, envolvem as grandes potências mundiais e aumentam os receios de um conflito geopolítico crescente.

O chefe da CIA tinha uma agenda alargada.

Alertou a Rússia contra quaisquer ataques abertos ou secretos em território da NATO, no meio de crescentes receios na Europa de que Putin possa testar as defesas da aliança, disseram à CNN duas pessoas familiarizadas com o assunto. Ratcliffe aproveitou ainda os seus encontros com as autoridades de espionagem russas para encorajar a Rússia a cortar o apoio económico e militar ao Irão.

A sua missão pode oferecer algum alívio aos aliados dos EUA que há muito se preocupam com o compromisso de Trump com a NATO e com as suas garantias de segurança. E uma nova tentativa dos EUA de pôr fim à guerra na Ucrânia seria amplamente bem-vinda, mesmo que a redução da ajuda militar ao governo do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, suscite suspeitas sobre as suas motivações. Trump ainda não cumpriu a aparente oferta feita este verão de permitir à Ucrânia licenciar a produção de sistemas antimíssil Patriot.

Trump chegou a prever que poderia acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas, mas os seus esforços de paz não avançaram. A sua afirmação repetida de que Putin quer fazer a paz é incessantemente desmentida pelos acontecimentos.

Os Estados Unidos têm-se mantido à margem da guerra na Ucrânia desde o início. A Rússia tem o seu próprio papel distante na guerra com o Irão.

Os erros dos EUA no Irão estão especialmente em evidência esta semana, porque a guerra fez seis meses, à medida que o governo passa da ação militar para uma guerra económica total.

A Rússia poderá ter pouco interesse estratégico em aliviar a situação de Trump no Irão. Qualquer troca de favores que envolva a Ucrânia fracassaria devido ao anterior fracasso do presidente norte-americano em pressionar Kiev a fazer concessões territoriais.

A CNN noticiou em março que a Rússia forneceu ao Irão informações sobre a localização e os movimentos de tropas, navios e aeronaves norte-americanas, de acordo com várias pessoas familiarizadas com os relatórios de espionagem dos EUA sobre o assunto. Grande parte da informação que a Rússia partilhou com o Irão consiste em imagens da sofisticada constelação de satélites moscovitas.

A postura anti-ocidental de Putin significa que a Rússia está constantemente a combater a influência dos EUA e do Ocidente no Médio Oriente e noutras regiões. É provável que esteja a jogar a longo prazo, ao contrário de Trump, cujo mandato termina daqui a dois anos e meio.

Ainda assim, Washington poderia beneficiar da ajuda de Moscovo — e de Pequim — na sua nova política de completo isolamento económico do Irão.

“Para que a pressão económica dê frutos, [Trump] precisa de conseguir alguma cooperação dos chineses, dos russos e de outros atores regionais que são os principais parceiros comerciais dos iranianos”, diz Firas Maksad, diretor-geral do Eurasia Group para o Médio Oriente e Norte de África, à CNN International. “Penso que ele terá muita dificuldade em conseguir a cooperação dos chineses… É uma situação semelhante com a Rússia.”

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, chegam para uma fotografia de grupo na Cimeira do G20 em Osaka, a 28 de junho de 2019 (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images/Arquivo)
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Donald Trump, chegam para uma fotografia de grupo na Cimeira do G20 em Osaka, a 28 de junho de 2019 (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images/Arquivo)

Como as guerras estrangeiras podem minar a credibilidade internacional

À medida que as implicações da viagem de Ratcliffe se consolidavam, o Washington Post noticiou que a sua visita foi precedida por novas informações dos serviços de informação norte-americanos sugerindo que o Kremlin vê os EUA como enfraquecidos pela guerra com o Irão.

O fracasso de Trump em vencer decisivamente o conflito não prejudicou apenas a credibilidade dos EUA; também esgotou munições e sobrecarregou as forças navais e aéreas. Não seria, portanto, de estranhar se adversários dos EUA, como a Rússia e a China, questionassem a capacidade ou o interesse de Washington em responder a qualquer crise na Europa ou na Ásia.

“Porque Donald Trump decidiu entrar em guerra contra os iranianos, sem um objetivo estratégico, sem um plano, sem um calendário, sem uma saída, e agora está preso a isso — sim, claro, isso ajuda os russos”, lamentou o senador democrata Mark Kelly, do Arizona, à jornalista Brianna Keilar, da CNN, esta quinta-feira. “E, já agora, os russos estão a ajudar os iranianos.”

Trump, no entanto, defende que a sua relação de amizade com Putin torna o mundo mais seguro. Também esta quinta-feira, insistiu que não havia perigo de Putin tomar qualquer medida que pudesse causar um conflito com o Ocidente. "Tive boas conversas com ele. Não vai atacar um território da NATO", garantiu a Kristen Holmes, da CNN, na Sala Oval.

Ainda assim, as múltiplas camadas de intriga que rodeiam a viagem de Ratcliffe a Moscovo representam uma nova e fascinante reviravolta nas extraordinárias relações entre dois líderes que enfrentam um dilema estratégico comum que pode definir os seus legados.

A guerra com o Irão pode não ser tão existencial para a sobrevivência política e pessoal de Trump como o conflito na Ucrânia o é para Putin. Mas, tal como o seu amigo no Kremlin, está encurralado pela sua própria guerra.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa