O presidente dos EUA, Donald Trump, sugeriu que a Ucrânia “pode vir a ser russa um dia”, pondo em causa a futura independência de um país soberano que, com o apoio do Ocidente, se tem defendido da invasão total de Moscovo há quase três anos.
Trump discutiu os esforços da sua administração para pôr fim à guerra numa entrevista à Fox News que foi para o ar esta segunda-feira, antes de uma reunião agendada para esta semana entre o seu vice-presidente, JD Vance, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
“Eles [Ucrânia] podem fazer um acordo, podem não fazer um acordo. Podem ser russos um dia, ou podem não ser russos um dia”, disse Trump. O presidente dos EUA sublinhou que também quer ver um retorno do investimento com a ajuda dos EUA à Ucrânia, voltando a lançar a ideia de um comércio para os minerais de terras raras de Kiev.
Os comentários do presidente norte-americano irão provavelmente agradar ao Kremlin, que anexou ilegalmente quatro regiões ucranianas desde o lançamento da sua invasão em grande escala e que procura a submissão total da Ucrânia.
“Uma parte significativa da Ucrânia quer tornar-se Rússia, e o facto de já se ter tornado Rússia é [inegável]”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, aos jornalistas já esta terça-feira, quando questionado sobre os comentários de Trump.
Quando a Rússia lançou a sua invasão em grande escala, em fevereiro de 2022, acreditava que capturaria a capital, Kiev, em dias e o resto do país em semanas. Com a guerra a entrar no seu quarto ano no final deste mês, Moscovo detém cerca de um quinto do território da Ucrânia. Em 2023, realizou um referendo fictício em quatro regiões ocupadas - Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson - numa tentativa de dar legitimidade à sua anexação.
Peskov disse que as pessoas “apesar de muitos perigos, fizeram fila e votaram” no referendo para se juntarem à Rússia. “Isto corresponde em grande medida às palavras do presidente Trump”, acrescentou. Na altura, a CNN noticiou a encenação do referendo, que os observadores internacionais consideraram um exercício de propaganda.
Na entrevista à Fox News, Trump disse que a sua administração tinha feito “progressos tremendos” na preparação do terreno para potenciais conversações de paz com a Rússia e a Ucrânia. Zelensky referiu na segunda-feira que “algumas pessoas sérias” da administração Trump visitarão a Ucrânia esta semana, antes da Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha, onde Zelensky deverá reunir-se com Vance.
Trump reiterou o seu interesse em obter um retorno da ajuda dos EUA a Kiev. “A Ucrânia tem um território extremamente valioso em termos de terras raras, petróleo e gás, entre outras coisas. Quero ter o nosso dinheiro garantido”, afirmou.
“Disse-lhes que queria o equivalente a 500 mil milhões de dólares em terras raras e eles concordaram em fazê-lo, pelo menos para não nos sentirmos estúpidos. Caso contrário, seríamos estúpidos. Eu disse-lhes que tínhamos de conseguir alguma coisa. Não podemos continuar a pagar este dinheiro”, acrescentou.
Enquanto a administração Biden afirmou que o seu apoio a Kiev era para defender “o direito das pessoas a determinarem o seu próprio futuro” e para manter “o princípio de que um país não pode alterar as fronteiras do seu vizinho pela força”, os comentários de Trump reforçam a sua abordagem mais transacional da geopolítica.
Os comentários de Trump serão provavelmente uma bênção para o presidente russo, Vladimir Putin, que tem procurado justificar a sua invasão da Ucrânia afirmando falsamente que russos e ucranianos são “um só povo - um todo único” e que a Ucrânia não é um país soberano.
