A Ucrânia pediu ajuda a Israel. E a entrada em cena do Irão já está a pressionar Telavive

19 out, 21:12
Judeus com a bandeira ucraniana no Muro das Lamentações (AP)

O presidente Volodymyr Zelensky tem pedido insistentemente a Israel que forneça sistemas de defesa antimísseis, mas o executivo israelita mostrou-se sempre indisponível

A Ucrânia está há várias semanas sob ataque de drones kamikaze fabricados no Irão. O Ocidente, com os Estados Unidos à cabeça, acusa Teerão de estar a fornecer estes equipamentos à Rússia, insinuação fortemente negada pelo governo iraniano, apesar das provas apresentadas pela Ucrânia e seus aliados.

A entrada do Irão na guerra enquanto fornecedor de armamento à Rússia está a preocupar bastante um outro Estado do Médio Oriente: Israel. As IDF (Israeli Defense Forces) garantem já estar a acompanhar a situação. "Estamos a acompanhar de perto e a pensar como estes drones podem ser utilizados pelos iranianos contra centros populacionais israelitas”, assumiu Richard Hecht, porta-voz das forças militares de Israel.

A preocupação, diz Geoffrey Corn, professor e diretor do Centro de Política e Direito Militar da Texas Tech University, à Associated Press, é que o Irão esteja a testar os drones Shahed-136 na Ucrânia para que estes possam, posteriormente, ser utilizados contra Israel. Telavive é o grande inimigo de Teerão, que apoia os libaneses do Hezbollah e o Hamas, grupos que já estiveram ou estão em guerra contra Israel.

Corn refere que, caso os drones tenham sucesso na Ucrânia, o Irão irá “diminuir” o investimento nos mesmos. No entanto, caso os ataques falhem e os drones sejam abatidos, Teerão terá uma oportunidade para “perceber como ultrapassar os sistemas de segurança” contra este tipo de armamento, como o sistema antimísseis Iron Dome, em funcionamento em Israel.

O presidente Volodymyr Zelensky tem pedido insistentemente a Israel que forneça sistemas de defesa antiaérea, mas o executivo israelita mostrou-se sempre indisponível. “Não entendo o que se passa com Israel. Não entendo por que motivo é que eles não nos podem fornecer meios antiaéreos”, disse Zelensky em setembro a vários meios de comunicação franceses.

A razão desta recusa prende-se com o facto de Telavive não querer prejudicar as relações com Moscovo. Atualmente, cerca de 15% da população israelita é russófona ou russo-descendente. Israel é também local de residência ou segunda habitação de alguns oligarcas russos, que tiram proveito das leis do país para obter a nacionalidade israelita.

Ao governo liderado por Yair Lapid preocupará também o facto de, caso os sistemas antimísseis sejam colocados na Ucrânia, poderem ser descobertos os pontos fracos dos mesmos, atualmente ocultados pela falta de um teste sério contra armamento de ponta em contexto de batalha.

Certo é que, apesar da posição oficial, há membros do executivo israelita que querem que o país forneça armas, evidenciando fraturas no governo de coligação. “Esta manhã, foi noticiado que o Irão está a transferir mísseis balísticos para a Rússia. Já não há qualquer dúvida sobre a posição de Israel neste conflito sangrento. Chegou o momento de a Ucrânia também receber ajuda militar”, escreveu no Twitter o ministro da Diáspora, Nachman Shai, no passado domingo.

No entanto, esta quarta-feira, o ministro da Defesa, Benny Gantz, desmentiu que possa haver alguma mudança de posição. “A nossa política para a Ucrânia não irá mudar. Iremos continuar do lado do Ocidente, mas não iremos fornecer armamento à Ucrânia.”

A paciência está, contudo, a esgotar-se em alguns setores da sociedade. “Israel é o último país do mundo livre que ainda tem medo de irritar Putin”, afirmou Natan Sharansky, antigo líder da Agência Judaica para Israel e dissidente da União Soviética, numa entrevista ao jornal Haaretz.

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