A tecnologia dos mísseis que a Rússia usa na Ucrânia é do Ocidente (e os EUA ainda exportavam chips em maio)

14 ago, 08:30
Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

Análises feitas aos destroços de mísseis provaram que existem chips de empresas norte-americanas nos mísseis disparados por Moscovo contra alvos ucranianos

Dificilmente um país consegue ter armamento baseado apenas em produção nacional e a Rússia não é exceção, o que faz com que grande parte das armas que estão a ser utilizadas por Moscovo na Ucrânia tenham componentes importados, sobretudo ao Ocidente.

Ao todo, entre mísseis disparados a partir do ar ou da terra, a Rússia já terá utilizado mais de 3.650 projéteis, entre eles mísseis de cruzeiro. Dos mais pequenos aos maiores, todos têm uma coisa em comum: necessitam de componentes eletrónicos que a Rússia tem dificuldade em produzir. Alguns chegam a ter 31 componentes destes diferentes. Mas, então, de onde vem a tecnologia utilizada nos mísseis russos?

Investigações do Royal United States Institute (RUSI) e da agência Reuters, em colaboração com o portal independente russo iStories, especialistas concluíram que a esmagadora maioria dos componentes eletrónicos utilizados nos mísseis disparados pelo exército russo chegam dos Estados Unidos. Mais precisamente, 70% dos chips que compõem as armas lançadas por Moscovo chegam daquele país. Os restantes 30% foram importados a países como Japão, Suíça, Países Baixos, Alemanha, China, Coreia do Sul, Áustria, Reino Unido ou Taiwan. A conclusão surge após o RUSI ter tido acesso a 27 armas e sistemas de armamento russos, alguns dos quais danificados. Nestes, foram encontrados mais de 450 componentes eletrónicos fabricados fora da Rússia, a maioria, lá está, com proveniência dos Estados Unidos.

Foi o caso de uma caixa encontrada num míssil utilizado a 14 de julho, e que matou 27 pessoas, incluindo uma criança, em Vinnytsia, no centro da Ucrânia. A agência Reuters viu o interior do projétil e identificou componentes eletrónicos com as marcas de empresas norte-americanas. "É muito simples. Sem esses chips norte-americanos, os mísseis e as armas da Rússia não funcionam", afirmou um militar ucraniano, em declarações àquela agência.

Se em alguns dos casos se trata de produtos da década de 1980, outros são muito mais modernos e sofisticados. Que a Rússia utilizava armamento com componentes importados do Ocidente era sabido, mas faltava conhecer a dimensão. Logo no dia da invasão, a 24 de fevereiro, a Casa Branca anunciou que os Estados Unidos e os seus aliados iriam impor “amplas restrições em semicondutores, telecomunicações, lasers, sensores, sistemas de encriptação ou de navegação”. A esse bloqueio comercial juntaram-se 37 países, num bloqueio que começou oficialmente em 2014, na sequência da anexação russa da Península da Crimeia. Só que nem todas as exportações tinham sido suspensas.

Segundo a agência Reuters, mais de 15 mil carregamentos com produtos de empresas como as norte-americanas Texas Instruments, Intel, Analog Devices e AMD, ou a alemã Infineon, chegaram à Rússia até finais de maio, três meses após o início da guerra. Em alguns casos esses envios foram feitos a partir de terceiros, mas também houve situações em que o envio foi feito diretamente por essas empresas.

Questionadas sobre este assunto, empresas como a Texas Instruments ou a Infineon referiram que alguns dos envios já estavam em processamento antes do anúncio do bloqueio. Já a AMD ou a Analog Devices confirmaram a abertrura de investigações internas na sequência da investigação.

Já um porta-voz do Departamento do Comércio dos Estados Unidos, que regula todas as exportações, afirmou que as autoridades vão "continuar vigilantes e empenhadas com os aliados e parceiros em reforçar o controlo".

Do lado russo, e apesar da tensão provocada pelas várias sanções, Vladimir Putin nunca escondeu que pretende continuar a receber tecnologia ocidental, tendo mesmo assinado, em junho, um decreto presidencial que permite a importação de bens eletrónicos e outros componentes semelhantes, sendo que essa lei permite a importação sem a permissão da empresa que tem a patente registada.

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