A Rússia vai mesmo fechar a torneira do gás? O que acontece na Alemanha se o Nord Stream 1 não voltar ao ativo amanhã

20 jul, 14:49

O Nord Stream 1 leva o gás russo à Alemanha e entrou em manutenção, que já estava programada, a 11 de julho. Deveria reabrir amanhã, dez dias depois, mas Berlim e Bruxelas acreditam que Putin vai usar o gás natural como arma de guerra e interromper o fornecimento à Europa

A Alemanha já conseguiu reduzir de 55% para 35% o seu consumo de gás russo desde o início da guerra na Ucrânia. Mas continua altamente dependente do Nord Stream 1, o gasoduto que está encerrado desde 11 de julho para manutenção programada e que pode não reabrir amanhã por vontade de Moscovo. O cenário, que é dado como "provável" pela Comissão Europeia, colocará sob enorme tensão a maior economia europeia.

E se os restantes países europeus necessitarão de reduzir cerca de 15% do seu consumo de gás para enfrentarem este corte no fornecimento russo - o plano de emergência apresentado esta quarta-feira por Bruxelas prevê, precisamente, que uma redução nessa ordem seja atingida voluntariamente até março do próximo ano - a Alemanha teria de encontrar forma de cortar quase 30% no consumo de gás, ou 20% se conseguir concluir até ao início do próximo ano dois terminais de gás natural nos portos de Wilhelmshaven e Brunsbüttel, no Mar do Norte.

"Cerca de 15 por cento do gás russo na Alemanha é usado pela indústria química. Se o Nord Stream não continuar, a indústria química será gravemente afetada e é a base de outras indústrias", diz Helena Ferro Gouveia, especialista em assuntos internacionais, em declarações à CNN Portugal.

Para além do problema da indústria, também os hospitais serão fonte de preocupação: "Os hospitais alemães são aquecidos a gás", aponta a especialista. Num país com invernos rigorosos, manter a temperatura dos hospitais confortável para os mais vulneráveis é um ponto sensível, mais até do que o consumo doméstico. Porém, os alemães, apesar de na sua maioria serem favoráveis à posição de Berlim no que diz respeito à guerra na Ucrânia, começam a ficar inquietos pelas faltas de informação do governo. Uma sondagem divulgada na semana passada pela estação pública ZDF indicava que 70% dos inquiridos manteria apoio ao país no caso de um eventual ataque dos vizinhos de leste, apesar da subida dos preços de energia, mas há quem se queixe de que não foi divulgado qualquer plano sobre a forma como os alemães serão pessoalmente afetados, dentro de portas, em caso de escassez energética

"Atualmente, há muita angústia entre a população alemã porque tem havido uma falta de mensagens claras sobre como o racionamento iria afetar os consumidores", disse ao Guardian Alexander Sandkamp, economista no  Kiel Institute for the World Economy, na Alemanha.

Dos planos conhecidos do governo de Olaf Scholz, sabe-se apenas que o consumo doméstico seria protegido do racionamento, bem como o fornecimento de gás dos lares de idosos ou dos hospitais. A maioria dos cortes teria de ser feito, precisamente, pela indústria, ainda que nas últimas semanas os sectores químico e farmacêutico tenham começado a fazer apelos públicos no sentido de alertar para as "consequências catastróficas" da falta de gás, que teria um efeito dominó para outras áreas. "Fazer dispositivos médicos é obviamente mais essencial do que consolas de vídeojogos. Mas é muito difícil para o governo definir estas prioridades através de quotas", ressalva Alexander Sandkamp.

Helena Ferro Gouveia acrescenta ainda que os estados alemães serão afetados de forma diferenciada pelas falhas na entrega do gás russo: "A Baviera seria o estado mais afetado. Se fosse uma economia independente, a Baviera era a sétima maior da UE", aponta a especialista, que acrescenta: "Vladimir Putin conhece muito melhor os países europeus do que os países europeus conhecem a Rússia. Sabe onde estão as fraquezas e sabe fazê-lo num momento em que a Europa se encontra fragilizada ou dividida em relação à questão ucraniana", resume. 

A desculpa da turbina

A Alemanha tem acusado a Rússia de usar a reparação de uma turbina como "desculpa" para limitar o fluxo de gás via Nord Stream 1. A Gazprom, empresa estatal russa, já tinha reduzido o volume de fornecimento nas semanas anteriores à manutenção do gasoduto, explicando as falhas com a ausência do equipamento. Mas a justificação não convenceu Berlim, que acredita que o Kremlin está a usar este argumento para diminuir o fluxo de gás em retaliação por causa das sanções que têm sido aplicadas a Moscovo desde a invasão da Ucrânia. 

"Gostaria de reforçar que, de acordo com a nossa informação, trata-se de uma desculpa do lado russo", disse já esta quarta-feira um porta-voz do Ministério da Economia alemão. Na noite de terça-feira, em Teerão, onde se reuniu com os homólogos turco e iraniano, Vladimir Putin insistiu que a Gazprom iria cumprir todas as suas obrigações com o Nord Stream 1, mas não deixou de avisar que outra turbina de gás terá de entrar em manutenção no final do mês, o que poderá causar perturbações na distribuição.

Os outros dois gasodutos que, além do Nord Stream 1, levam o gás russo até à Alemanha, também não estão a funcionar: a Gazprom cortou em maio o fornecimento através do gasoduto Yamal, que passa pela Bielorrússia e Polónia, enquanto que o sistema Transgas, uma extensão do gasoduto Soyuz, que vem da Rússia e passa na Ucrânia, está a dar prioridade a entregas de gás à Eslováquia e Áustria. 

Fontes de Moscovo ouvidas pela agência Reuters no início da semana garantiram que o Nord Stream 1 deveria retomar as operações na quinta-feira, conforme estava previsto, mas sem chegar ao total da sua capacidade de transporte, que ronda os 160 milhões de metros cúbicos por dia.  E, já esta quinta-feira, Vladimir Putin voltou a falar sobre a turbina, dizendo que ainda não é clara a condição em que se encontra depois de ter sido devolvida após as reparações que foram feitas no Canadá. O presidente russo admitiu mesmo que existe "risco" que o equipamento possa ser desligado e que o Nord Stream 1 tenha de ser desativado.

A "armadilha" de Putin

Já esta quarta-feira, a Comissão Europeia propôs uma meta para reduzir o consumo de gás na União Europeia, de 15% até março do próximo ano. Esta redução deverá ser feita pelos estados-membros de forma voluntária, mas Bruxelas amite avançar com a obrigatoriedade no caso de cortes no fornecimento russo. 

No documento publicado, sobre “poupar gás para um inverno seguro”, o executivo comunitário aponta que “a UE enfrenta o risco de novos cortes no fornecimento de gás da Rússia, com quase metade dos Estados-membros já afetados por entregas reduzidas”.

Apontando que “todos os consumidores, administrações públicas, famílias, proprietários de edifícios públicos, fornecedores de energia e indústria podem e devem tomar medidas para poupar gás”, a Comissão Europeia vincou que irá, também, “acelerar o trabalho de diversificação da oferta, incluindo a compra conjunta de gás para reforçar a possibilidade da UE de obter fornecimentos alternativos de gás”.

A presidente da Comissão Europeia teve, a propósito destas medidas para poupança de gás, palavras muito duras para o presidente russo: "A Rússia está a chantagear-nos. A Rússia está a usar a energia como arma. E, portanto, em qualquer caso, seja um corte parcial, significativo ou total, a Europa tem de estar preparada", sublinhou Ursula von Der Leyen em conferência de imprensa, assumindo que o corte total do fornecimento de gás russo à Europa é um "cenário provável".

Outro elemento de preocupação para Bruxelas reside no facto de a russa Gazprom ter já avisado os clientes europeus, esta semana, de que poderá não conseguir cumprir com as suas obrigações devido a "circunstâncias extraordinárias", sem detalhar, dando eco aos receios do executivo comunitário e de Berlim. A decisão está, mais uma vez, nas mãos do presidente russo. 

"Se os estados europeus caírem na armadilha de Putin e tivermos um cenário de protecionismo na energia no próximo inverno, os danos económicos serão consideravelmente piores", disse ao Guardian Simone Tagliapietra, investigador do think tank Bruegel, em Bruxelas. Um aviso que também já foi feito pelo Fundo Monetário Internacional: a instituição liderada por Kristalina Georgieva prevê que, se não houver partilha do gás nas reservas dos países europeus e os preços forem, assim, artificialmente impedidos de subir, qualquer ação russa para travar o fornecimento à Europa irá determinar contrações na ordem dos 5% das economias da República Checa, Hungria, Eslováquia e Itália.

 

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