ANÁLISE || A dura realidade da guerra tornou-se impossível de ser ignorada pelos russos comuns depois de uma campanha de drones sem precedentes por parte da Ucrânia
Nas ruas de Moscovo, condutores descontentes aguardam pacientemente por gasolina numa longa fila de carros e camiões, no meio de uma grave escassez nacional. Muitos passaram o dia inteiro, contam à CNN, a conduzir em busca de combustível - algo extraordinário na capital de um dos maiores produtores de energia do mundo e inesperado numa cidade que durante muito tempo se manteve isolada dos efeitos da guerra na Ucrânia.
Mas agora, pela primeira vez num conflito que dura há cinco anos, a dura realidade daquilo a que o Kremlin ainda insiste em chamar “operação militar especial” tornou-se impossível de ser ignorada pelos russos comuns.
No último mês, a campanha de drones sem precedentes da Ucrânia atingiu uma escala e um impacto extraordinários.
Numa única noite da semana passada, a Rússia informou ter intercetado 660 drones em 12 regiões - um dos maiores ataques ucranianos desde que a Rússia lançou a sua invasão em grande escala em 2022.
Os alvos, longe de serem aleatórios, são criteriosamente selecionados: refinarias, terminais petrolíferos, navios de guerra, fábricas de armas em território russo. Trata-se de uma campanha concebida para minar a economia de guerra russa, aumentando os custos económicos e políticos para o Kremlin de prosseguir a guerra.
E está a funcionar.
Por toda a Rússia, os meios de comunicação independentes têm documentado filas crescentes de veículos à espera nos postos de abastecimento de combustível devido à escassez - cenas que as autoridades prefeririam esconder. Na Crimeia, anexada da Ucrânia em 2014, a venda de combustível foi suspensa, uma vez que a península foi colocada em estado de emergência.
Mesmo para o Kremlin, que frequentemente minimiza dolorosos contratempos, a dura realidade tornou-se difícil de ignorar.
O presidente russo, Vladimir Putin, presidiu a uma reunião de emergência no fim de semana e revelou que as reservas nacionais de gasolina foram reduzidas a níveis preocupantes.
"Sabem muito bem que os problemas para os motoristas e para as empresas persistem", disse Putin aos altos funcionários reunidos, reconhecendo o que as autoridades têm vindo a minimizar há semanas.
"Infelizmente, ainda há filas nos postos de abastecimento de combustível", acrescentou.
Houve outros indícios de que o Kremlin está a sentir alguma pressão. Putin revelou que está a ser ponderada uma proibição total das exportações de gasóleo - depois de o seu próprio vice-primeiro-ministro ter declarado à imprensa que tal proibição não era necessária. O líder russo confirmou que uma task-force está a trabalhar em questões relacionadas com os combustíveis.
Putin alertou ainda que a agricultura está em risco e disse que a Rússia deve “reduzir ao mínimo o impacto dos ataques terroristas contra os nossos alvos civis e infraestruturas” - uma mudança de posição cuidadosamente elaborada para um líder que descartou os ataques de drones ucranianos como irrelevantes.
Não deixa de ser irónico que, durante anos, a destruição sistemática da infraestrutura energética ucraniana - centrais elétricas, subestações, centrais de aquecimento - tenha sido uma das estratégias de guerra mais deliberadas da Rússia, concebida para quebrar a moral da população civil, tornando a vida quotidiana insuportável. A Ucrânia parece agora ter invertido esta lógica, e os russos começam a sentir na pele as consequências desta estratégia.
Mas pode ser um erro concluir que os atuais problemas da Rússia vão obrigar o Kremlin a ceder, pelo menos não agora e provavelmente não em breve.
Ao longo das décadas, Putin construiu uma imagem relativamente frágil de líder intransigente - um facto que torna a capitulação, a retirada ou mesmo um acordo na Ucrânia incrivelmente improvável e difícil para ele.
Com mais de um milhão de mortos e feridos na invasão de Putin, segundo as melhores estimativas ocidentais, e reivindicações de soberania sobre quatro regiões ucranianas que ainda não controla totalmente, qualquer acordo que não possa ser apresentado em Moscovo como uma vitória decisiva corre o risco de provocar graves tensões políticas internas.
Os falcões do círculo de Putin ainda lhe dizem que toda a região do Donbass, na Ucrânia, pode e deve ser tomada. Este argumento não desaparece só porque as refinarias russas estão em chamas.
E embora a atual escassez de combustível no país seja dolorosamente real, não deve ser confundida com uma bandeira branca.
