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A reviravolta militar da Alemanha é um ponto de viragem na História da Europa

CNN , Opinião de Rafael Loss
6 mar 2022, 12:50
Olaf Scholz em Moscovo Foto: AP

Na semana em que os mísseis russos começaram a chover sobre a Ucrânia, a Alemanha inverteu a sua política militar "leve" de décadas, anunciando uma mudança drástica na posição da Europa moderna.

A "guerra de Putin" representou nada menos do que um "Zeitenwende" – uma mudança dos tempos – para a Alemanha e para a Europa, disse o chanceler alemão, Olaf Scholz, numa sessão especial do Bundestag, no domingo passado.

Num país onde "muitos de nós ainda nos lembramos das histórias de guerra dos nossos pais ou avós", Scholz disse que as "imagens terríveis" vindas de cidades por toda a Ucrânia “afetam-nos a todos muito profundamente."

Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de alemães reuniram-se perto das Portas de Brandeburgo para condenar o ato de agressão do Kremlin, um dos muitos protestos no mundo inteiro.

E assim, após semanas de críticas generalizadas à tímida resposta do seu governo à agressão russa, Scholz anunciou o que equivalia a uma revisão completa da política externa, de segurança e de defesa da Alemanha, fornecendo armas à Ucrânia e injetando milhares de milhões de dólares nas próprias Forças Armadas nos próximos anos.

Mais vale tarde que nunca. A Alemanha, que é a maior economia da União Europeia e indiscutivelmente o Estado-membro com mais poder, tinha estado até há pouco tempo um passo atrás dos seus aliados europeus face à acumulação gradual de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, demorando a decidir sobre o Nord Stream 2, o sistema SWIFT e a transferência de armas para a Ucrânia.

Alguns decisores políticos já tinham visto o fim da era pós-Guerra Fria chegar, quando a Rússia enviou tropas para a Ucrânia em 2014, para anexar a Crimeia e ocupar zonas da região do Donbass.

Ainda assim, o Governo alemão deu luz verde à construção do gasoduto Nord Stream 2 da Rússia, em 2015. E os líderes, tanto do partido democrata-cristão da ex-chanceler Angela Merkel, como do partido social democrata de Scholz, defender o projeto contra as crescentes críticas nacionais e internacionais ao longo dos anos.

Na semana passada, a narrativa da Alemanha sobre a Rússia começou a mudar. Depois da Rússia reconhecer formalmente a independência das regiões ocupadas no leste da Ucrânia, Scholz anunciou uma paragem no processo de certificação do gasoduto e uma revisão das diretrizes de segurança energética da Alemanha.

No sábado, depois de mais parceiros europeus da Alemanha terem começado a transferir armas e outro material militar para a Ucrânia, Scholz anunciou que a Alemanha enviaria também 1000 armas antitanque e 500 armas antiaéreas. No dia seguinte, Scholz anunciou que a Alemanha gastaria a partir de agora mais de 2% do seu PIB por ano nas suas Forças Armadas. Também prometeu a criação de um fundo especial de 100 mil milhões de euros para investimentos estratégicos na prontidão e modernização das Forças Armadas alemãs, ou Bundeswehr, após décadas de cortes orçamentais.

Em 1990, os alemães pensaram que poderiam finalmente abandonar a geopolítica para sempre. Durante a primeira metade do século XX, a sua fome de poder e território arrasou a Europa por duas vezes, levando à morte de vários milhões de pessoas, especialmente como resultado da guerra de aniquilação da Alemanha nazi no leste da Europa. Durante a Guerra Fria, a Alemanha ter-se-ia transformado em paisagem lunar, se o confronto Leste-Oeste se tivesse agravado.

Então, em 1990, os alemães sentiram que finalmente estavam do lado certo da História. E esperavam que todos os outros seguissem o mesmo caminho em direção à cooperação. Havia esperanças particularmente elevadas de que a Rússia pudesse seguir o mesmo rumo. A "mudança através do comércio" e a "parceria de transformação" orientavam as políticas alemãs para a Rússia.

O sentimento de culpa histórica foi também uma poderosa força-motriz, bem como a sede da Alemanha por combustíveis fósseis baratos para alimentar a sua indústria.

O ataque de Putin à Ucrânia, na semana passada, rebentou essa bolha.

Como disse a ministra alemã dos Negócios Estrangeiros, Annalena Baerbock, durante a sessão especial do Parlamento no domingo, "se o nosso mundo está diferente, então a nossa política também deve ser diferente." Robert Habeck, ministro das Finanças e Proteção Climática alemão, acrescentou que, como resultado da guerra, a Alemanha reduziria a sua vulnerabilidade à coerção económica pela Rússia e outras potências autoritárias.

O reforço da segurança energética através da aceleração da "Energiewende" alemã - a transição para uma produção de energia 100% renovável até 2035 - será uma parte fundamental do esforço. O comentário de Habeck para fazê-lo "sem quaisquer tabus" é uma possível indicação para considerar também o prolongamento da vida útil das três centrais nucleares que restam na Alemanha, para compensar os cortes do gás russo a curto prazo.

O investimento renovado da Alemanha nas suas capacidades de defesa também poderia desbloquear um enorme potencial para a União Europeia e para o pilar europeu dentro da NATO.

Os países mais pequenos, sobretudo do centro e Leste da Europa, poderiam recorrer à Alemanha para viabilizar estratégias, como transporte aéreo militar e capacidades de reconhecimento. Também poderiam contar com a prontidão de combate alemã para impulsionar a dissuasão aliada além da mera presença de forças tripwire multilaterais, como é atualmente o caso com a implantação da Presença Avançada Reforçada no flanco leste da NATO.

Estas implantações limitadas devem impedir ataques russos, comprometendo todos os aliados com uma resposta vigorosa. Porém, são insuficientes por si só para repelir uma invasão em larga escala, como na Ucrânia. Implantações adicionais da NATO nos próximos meses não visariam a dissuasão, mas sim a derrota da agressão russa. As implantações seriam maiores e teriam maior capacidade.

Apesar de a longa relação especial da Alemanha com a Rússia ter deixado de existir com o ataque de Putin à Ucrânia, os canais diplomáticos com o Kremlin continuam a ter uma importância crítica para levar a Rússia a uma desescalada. Scholz também prometeu continuar a lutar por "tanta diplomacia quanta possível, sem ser ingénuo".

Mas a guerra contra a Ucrânia, a assimilação da Bielorrússia por Putin, a retórica nuclear e o desejo de recriar o braço imperial da Rússia redesenharam radicalmente o cenário de segurança europeu.

Scholz, e com ele a maioria dos alemães, parece ter reconhecido a mudança dos tempos. A preparação para as consequências exigirá uma liderança sustentada a todos os níveis. Mas depois de ter ligado o seu destino político e pessoal a esta reformulação, Scholz precisa de ter sucesso, para o seu próprio bem, pelo bem da Alemanha e da Europa.

 

Rafael Loss é especialista em segurança e política de defesa europeia no Conselho Europeu de Relações Externas. Encontra-se em Berlim. As opiniões expressas neste artigo são da sua responsabilidade.

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