A retirada das tropas russas está a tirar força a Putin - e a contestação é cada vez maior

13 set, 00:08
Vladimir Putin (AP Images/Andrei Gorshkov)

Figuras próximas do presidente russo já começam a mostrar descontentamento. Analistas entendem que o desgaste pode minar a figura que Vladimir Putin demorou 20 anos a construir

A Rússia diz que a retirada de tropas da região ucraniana de Kharkiv mais não é do que um “reagrupamento de forças” destinado a fortalecer as equipas que combatem pelo principal objetivo daquilo a que o Kremlin chama uma operação militar especial: a libertação do Donbass, onde ficam as regiões de Donetsk e Lugansk. A comunicação social russa alinha no mesmo sentido, elogiando até o heroísmo e profissionalismo dos russos no terreno.

Esta força comunicacional também tem feito de Vladimir Putin um homem consensual na Rússia. Mas a imagem que demorou mais de 20 anos a construir, poderá estar a ser posta em causa como nunca antes o foi.

De opositores a aliados, várias vozes começam a levantar-se contra as opções militares de Moscovo na Ucrânia. Para Abbas Gallyamov, antigo autor de discursos de Vladimir Putin, os últimos acontecimentos podem ter um efeito negativo junto da popularidade do presidente. “A força é a única fonte da legitimidade de Putin. Numa situação em que ele fique sem força, a sua legitimidade vai cair até zero”, diz, em conversa com o The New York Times.

A Rússia até já ensaiou uma resposta, ainda que não tenha confirmado a sua autoria: várias regiões ucranianas, incluindo Kharkiv, ficaram às escuras e sem abastecimento de água no domingo, sendo que se sabe que o poderio militar russo, nomeadamente o arsenal tecnológico, químico e nuclear de que dispõe, pode voltar a fazer a guerra virar a seu favor.

Mas se muitos parecem continuar a apoiar cegamente Vladimir Putin (como fez Dmitry Medvedev), outros há que começam a deixar no ar algumas críticas. É o caso de Ramzan Kadyrov, conhecido líder da região russa da Chechénia, que enviou centenas de homens para a Ucrânia, e que acusou o exército russo de “erros” e de falhar na explicação da retirada.

Já Sergei Mironov, líder do Partido da Vida, que é pró-Putin, utilizou as redes sociais para criticar a celebração do Dia da Cidade de Moscovo: “Não pode ser e não deve acontecer porque os nossos homens estão a morrer e estamos a fingir que nada se passa.”

Também através das redes sociais, e ainda que confiante que a situação se vai resolver, o analista pró-Kremlin Sergei Markov falou numa “confusão” e em “erros”.

“Por causa de alguns erros que desconhecemos, o controlo sobre o processo político está a ser perdido. Garanto que esta confusão não vai durar muito. Mas por agora é uma confusão”, afirmou.

Para já as culpas parecem estar todas a recair em membros do exército e em quem está no campo de batalha a comandar, mas os analistas veem esta frustração como algo que pode vir a afetar a imagem de Vladimir Putin no futuro.

Na rede social Telegram, por exemplo, um grupo que é a favor da guerra, e que conta com mais de 400 mil membros, disse mesmo que não voltará a apoiar o partido de Vladimir Putin nas eleições de 2024. “Durou muito tempo, mas esta foi a última gota”, pôde ler-se, numa clara referência às celebrações dos 875 anos da fundação de Moscovo, que foram malvistas por muitos, uma vez que o fogo-de-artifício contrastou com a morte de milhares de soldados e com a retirada (para muitos humilhante) de Kharkiv.

Comemorações do Dia da Cidade de Moscovo (Maxim Marmur/AP)

Já há pedidos de demissão

A coincidência de a retirada de Kharkiv ter acontecido na mesma altura em que decorreram eleições regionais na Rússia foi o rastilho para algo que já vinha a ser preparado.

Responsáveis de 18 distritos das cidades de Moscovo e São Petersburgo, as duas maiores do país, assinaram uma declaração pública em que exigem a demissão de Vladimir Putin. Até ao momento, segundo o jornal El Mundo, que teve acesso ao documento, 85 pessoas já assinaram a petição, sendo esperado que esse número aumente nas próximas horas.

Na semana passada a junta do distrito de Lomonosovksy, em Moscovo, já tinha exigido a demissão do presidente russo, sendo que os deputados do distrito de Smolny, em São Petersburgo, também pediram ao parlamento russo que acuse Vladimir Putin de traição para destituí-lo do cargo. Como motivo apresentaram as consequências da guerra no povo russo, mas também no exército, que dizem que o presidente está a “desacreditar”.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados