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A "Novorossiya" era a principal via de abastecimento das tropas russas na Crimeia, agora, por causa dos drones ucranianos, é "a estrada da morte"

CNN Portugal , MJC
11 jun, 13:34
Chamas e fumo elevam-se de uma ponte que liga a Crimeia à Rússia, em Kerch, na península da Crimeia (Arquivo AP)
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Na terça-feira, o comando do grupo Vostok, da Rússia, proibiu o tráfego de carga militar na rota Mariupol–Berdiansk–Melitopol–Simferopol. Ao obrigar o tráfego russo a desviar-se das principais estradas para rotas alternativas mais longas e menos eficientes, os drones ucranianos podem atrasar as entregas, aumentar o consumo de combustível, complicar o planeamento e tornar os veículos de abastecimento mais vulneráveis ​​a novos ataques

As forças russas chamam-lhe a Rota "Novorossiya", a estrada que percorre os territórios ucranianos sob ocupação de Moscovo e que liga Rostov-on-Don, na Rússia, a Melitopol, Mariupol e à Crimeia, através da costa do Mar de Azov. Nos últimos meses, porém, as forças ucranianas têm intensificado os ataques a esta região e deram um novo nome à R-280: "autoestrada da morte", em referência aos drones ucranianos que dominam o espaço aéreo acima da estrada, impedindo o tráfego militar russo.

A estrada, que está quase completamente encerrada ao tráfego civil desde o final de maio, é particularmente importante para Moscovo porque constitui o principal corredor terrestre para o abastecimento das forças russas no sul, evitando a exposta Ponte de Kerch, que liga a Ucrânia à Crimeia. Era utilizada para transportar mantimentos, combustível, munições, equipamento e outras cargas militares entre as áreas controladas pela Rússia nas regiões de Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson, e a península ocupada. Mas agora a estrada foi mesmo fechada a toda a circulação.

As unidades de drones ucranianas são discretas quanto aos detalhes precisos das novas táticas, mas, de acordo com o The Guardian, um componente central da operação parece ser a utilização de enxames de drones para atacar rotas logísticas, incluindo estradas, caminhos-de-ferro e pontes, em números que parecem ter surpreendido as forças russas.

Vários condutores gravaram vídeos que mostram não só camiões incendiados na berma da estrada, mas, em alguns casos, também os próprios ataques com drones.

Os operadores de drones ucranianos, incluindo os da 412.ª Brigada "Némesis", afirmam que dezenas de camiões e tanques foram destruídos no âmbito de um esforço intensificado conhecido como "campanha de ataque de meio-termo" - porque fica no "meio-termo" entre os drones táticos usados diretamente no campo de batalha e os mísseis estratégicos de longo alcance que atacam o interior do território inimigo.

A campanha visa alvos russos localizados entre 20 km e 200 km atrás da linha da frente, com foco na logística e nas linhas de abastecimento.

Campanha ucraniana arrancou em fevereiro 

No mês passado, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que estes ataques quadruplicaram desde fevereiro. "Há agora o dobro dos ataques a distâncias superiores a 20 km em comparação com março", disse Zelensky a 5 de maio, "e quatro vezes mais em comparação com fevereiro". "E haverá ainda mais. Esta é uma área prioritária", prometeu.

Três semanas depois, o ministro da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Fedorov, foi mais explícito. A intenção, disse, era um “bloqueio logístico”, e os fundos extra e os drones estavam a ser direcionados para as unidades mais eficazes. “A nossa tarefa agora, conforme determinado pelo presidente, é maximizar o ataque em áreas centrais e, em coordenação com as Forças Armadas, criar um bloqueio logístico completo ao inimigo”, confirmou Fedorov. A sua fórmula é simples: o inimigo “não se sentirá seguro, mesmo a grandes distâncias da linha da frente”.

A 21 de maio, Vladimir Saldo, governador da região de Kherson, nomeado pelo Kremlin, assinou um decreto que introduziu restrições à circulação de camiões civis na autoestrada R-280, no troço que ladeia o Mar de Azov. Numa demonstração do sucesso ucraniano, Saldo comparou os ataques ao cerco de Leninegrado: “Isto é uma barbárie cínica. Na sua crueldade, estas ações fazem lembrar o bloqueio fascista de Leninegrado, quando o inimigo tentou intimidar as pessoas, romper as ligações entre os territórios e quebrar a vontade da população civil.”

A 6 de junho os operadores de drones do 3.º Regimento de Forças de Operações Especiais da Ucrânia anunciaram ter assumido o controlo aéreo de parte da rota terrestre de abastecimento da Rússia para a Crimeia ocupada. De acordo com o comunicado, os drones ucranianos tinham capacidade para atingir equipamentos e logística russos ao longo da rota Melitopol-Chonhar, no sul da Ucrânia, que conduz à Crimeia, ocupada pela Rússia desde 2014. O regimento afirmou que isto complicava o abastecimento militar russo e a logística de combustível para a Crimeia. "Isto é apenas o início. Mais está para vir", disse o exército ucraniano, divulgando um vídeo que mostra alegadamente ataques com drones.

Nessa semana, uma análise do Kiev Independent, baseada em imagens divulgadas apenas pelo Grupo Azov, mostrava mais de meia centena de ataques a alvos russos em estradas importantes nos territórios ocupados pela Rússia, entre as quais a "Novorossiya".

Estrada teve de ser encerrada - até para veículos militares

O impacto na linha de abastecimento russa tem sido enorme. O fluxo de veículos caiu 71% em duas semanas nesta zona, afirmou Robert Brovdi, comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, na terça-feira.

Anteriormente, a rota registava cerca de 11.000 veículos por dia, incluindo aproximadamente 3.800 camiões de carga militar. No início de junho, o tráfego total tinha caído para 6.500 veículos diários, enquanto o transporte de carga militar tinha caído para cerca de 1.100 camiões por dia.

Segundo Brovdi, para evitar mais danos, o comando do Grupo Vostok, da Rússia, proibiu o tráfego de carga militar na rota Mariupol–Berdiansk–Melitopol–Simferopol a partir de 7 de junho, devido ao controlo estabelecido pelos drones ucranianos sobre a estrada. As forças russas receberam ordens para utilizar estradas alternativas e desvios.

“O inimigo está a realizar operações de controlo de fogo sobre as autoestradas R-280 Novorossiya e A-291 Tavrida. Ataca sistematicamente veículos motorizados que transportam recursos materiais de interesse para as formações e unidades militares da República da Crimeia, da região de Zaporizhzhia e de Kherson”, refere a ordem.

Madyar afirmou que a situação ainda não configura um bloqueio total, mas acrescentou que a principal via terrestre de abastecimento da Crimeia já enfrenta graves "inconvenientes".

Ao obrigar o tráfego de carga russo a desviar-se das principais estradas para rotas alternativas mais longas e menos eficientes, os drones ucranianos podem atrasar as entregas, aumentar o consumo de combustível, complicar o planeamento e tornar os veículos de abastecimento mais vulneráveis ​​a novos ataques.

Para contornar a situação, têm surgido relatos de que as forças russas que operam nos territórios ocupados começaram a disfarçar veículos logísticos militares como camiões civis e a utilizar o transporte civil para o fornecimento de combustível.

Drones permitem o controlo aéreo

O 1.º Regimento de Assalto Independente da Ucrânia declarou na terça-feira: “Observamos todos os movimentos e controlamos totalmente os trabalhos de reparação do inimigo. Estamos prontos para realizar os nossos ajustes de longo alcance a qualquer momento.”

A nova tática ucraniana foi observada por analistas independentes, incluindo o think tank norte-americano Instituto para o Estudo da Guerra. Numa atualização recente, o ISW (sigla original) afirmou: “Os ataques ucranianos de médio alcance já estão a alcançar efeitos operacionais notáveis, incluindo a degradação da capacidade da Rússia de utilizar a principal autoestrada russa que liga a Rússia à Crimeia ocupada e as linhas de comunicação terrestres (GLOCs) em redor da cidade de Donetsk”.

Os drones Hornet, de fabrico americano, têm sido amplamente utilizados nos ataques ucranianos, sendo os seus operadores auxiliados por inteligência artificial para identificar o tráfego de camiões.

Os drones alados, do tamanho de uma prancha de surf grande e com um alcance de cerca de 150 km, têm sido utilizados para patrulhar e bombardear comboios russos quase continuamente. Um impacto imediato foi a escassez de combustível na Crimeia.

As forças ucranianas também parecem estar a utilizar um novo drone leve de asa fixa, com 2 metros de comprimento, produzido localmente, conhecido como Morrigan.

Um responsável russo citado pelo site de notícias independente Meduza sugere ainda o uso de minas aéreas. Yevgeny Balitsky, chefe da região ocupada de Zaporizhzhia, na Ucrânia, nomeado pelo Kremlin, descreveu um "sistema abrangente de minagem remota" que é detonado pelo movimento, alertando os condutores para "limitar as viagens, a menos que seja absolutamente necessário".

Os drones representam já 80% dos ataques ucranianos. Esta quinta-feira, precisamente, a Ucrânia celebra pela primeira vez o Dia das Forças dos Sistemas. "A guerra moderna já não pode ser imaginada sem drones, e os sistemas não tripulados ucranianos operam com sucesso a diferentes níveis: desde a execução de missões na linha da frente até ao ataque a importantes instalações inimigas a centenas de quilómetros de profundidade no seu território", afirmou Zelensky numa publicação nas redes sociais.

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