A morte da teoria da paz da McDonald's (ou um dia sombrio para o capitalismo)

CNN , Zach Wolf
17 mai, 17:32
McDonald's abriu as portas do seu primeiro restaurante em Moscovo em 1990

ANÁLISE. A ideia era que dois países com McDonald's nunca entrariam em guerra.

É o fim definitivo de duas eras distintas:

- a era da diplomacia de hambúrguer da McDonald's acabou com a sua saída de vez da Rússia.
- a era de neutralidade da Finlândia e da Suécia em relação à Rússia acabou quando os dois países procuram juntar-se à NATO.

Estes desenvolvimentos devem acabar com qualquer dúvida sobre a permanência desta nova ordem mundial, menos estável e mais militarizada, provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia.

McDonald's na Rússia - era suposto mudar o mundo

Foi uma mudança tectónica nos assuntos mundiais quando a McDonald's abriu a sua primeira loja na Rússia, em janeiro de 1990.

"Admitindo que um empório de hambúrgueres ocidentais em Moscovo tenha todo o apelo intrínseco de uma gelataria no inferno", afirmou o cético correspondente da CNN em Moscovo, Richard Blystone, em 1990.

Ele assinalou a ocasião que mudou o mundo e observou que os russos habituados a jantar em restaurantes subsidiados pelo Estado ficaram chocados com a eficiência dos hambúrgueres produzidos em massa, e perplexos com a promessa de um "serviço com um sorriso".

“Desarqueando” a Rússia

Se “comprou” o triunfo da cultura ocidental sobre o comunismo soviético e a promessa da "diplomacia de hambúrguer" - e quem não o fez no início dos anos 1990 -, pode ter-se perguntado naquela altura se a NATO já não era necessária.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte [NATO, ou OTAN em português] foi formada para enfrentar a União Soviética e impedir a propagação do comunismo. Agora, é a era dos Big Macs como símbolos da paz global que oficialmente acabou.

Num e-mail a anunciar que a empresa "'desarquearia’ um grande mercado" [numa referência aos arcos amarelos, símbolo da McDonald’s] pela primeira vez na sua história e sairia completamente da Rússia, o CEO do McDonald's, Chris Kempczinski, observou que a sua existência no país tinha uma importância maior do que seus hambúrgueres.

"Na verdade, foi a esperança que trouxe a McDonald's ao mercado russo há 32 anos", disse Kempczinski no seu e-mail, que vale a pena ler. "Esperança por um país que estava a abrir-se ao mundo depois de décadas de isolamento. Esperança de que o mundo estava se a tornar-se um pouco mais ligado - e que ser capaz de obter o mesmo Big Mac em Moscovo ou em Chicago era um símbolo tangível (e saboroso) de nossa crescente conexão."

Essa esperança e promessa, argumentou ele, são agora impossíveis de imaginar, após a invasão russa da Ucrânia.

O que falhou na 'teoria da paz da McDonald's'?

Kempczinski mencionou também a "teoria da paz da McDonald's" - a ideia excessivamente simplista e obviamente falhada, que foi popularizada pelo colunista do The New York Times Thomas Friedman no seu livro de 1999 "The Lexus and Olive Tree". A ideia era que dois países com McDonald's nunca entrariam em guerra. A ideia nunca resistiu a um escrutínio sério.

Paul Musgrave, professor de ciência política na Universidade de Massachusetts Amherst, tem criticado a ideia da diplomacia da McDonald's. Perguntei-lhe na segunda-feira quais eram os seus pensamentos sobre a saída da McDonald's da Rússia, ele respondeu que era o verdadeiro fim de uma era.

"O mundo das marcas que superam as lealdades nacionais já estava encostada às cordas quando a Rússia invadiu a Ucrânia (de novo) em fevereiro", disse Musgrave por e-mail. "E como companhia após companhia vê o ambiente de negócios na Rússia de Putin não apenas como hostil atualmente, mas hostil duradouramente, a noção de que os negócios abrirão o caminho para a democracia e a paz já era."

Acabar com 50 anos de neutralidade

Enquanto isso, dois países próximos da Rússia - Finlândia e Suécia, ambos com McDonald's - estão a movimentgar-se para ingressar a NATO o mais depressa possível.

Ambos os países resistiram durante toda a Guerra Fria com neutralidade e sem aderir à NATO. Mas a agressão de Putin contra a Ucrânia fê-los reavaliar. Os seus governos podem iniciar o processo de candidatura à NATO esta semana.

"Quando olhamos para a Rússia, vemos um tipo de Rússia muito diferente hoje do que vimos há apenas alguns meses", disse a primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, no domingo, numa reportagem da CNN. "Tudo mudou quando a Rússia atacou a Ucrânia. E eu pessoalmente acho que não podemos mais confiar em que haverá um futuro pacífico ao lado da Rússia."

A neutralidade pode não funcionar no futuro

A Suécia também vê um novo futuro, no qual deve tomar partido.

"O não alinhamento militar funcionou bem para a Suécia, mas a nossa conclusão é de que não funcionará igualmente bem para nós no futuro", disse a primeira-ministra da Suécia, Magdalena Andersson, segundo o The New York Times.

O processo para levar a Suécia e a Finlândia para a NATO levará tempo, pois os parlamentos de todos os 30 membros atuais da NATO têm de aprová-lo. Pelo menos um membro da NATO, a Turquia, não está convencido da ideia.

Mas se a Finlândia se juntar à aliança, isso acabará por significar que a Rússia partilhará uma fronteira de mais 1.300 quilómetros com um país da NATO.

Uma NATO maior é um revés óbvio para Putin

Foi a possível entrada da Ucrânia na NATO que terá estado entre as razões do presidente russo, Vladimir Putin, para invadir aquele país. Portanto, é difícil ver um alargamento da NATO à Finlândia e à Suécia (a Ucrânia também gostaria de aderir) como algo que não seja um grande tiro pela culatra.

Com os seus militares sobrecarregados na Ucrânia e na Finlândia já a movimentar-se de modo a cortar muitos de seus laços com a Rússia, pode haver pouco que Putin possa fazer.

Putin desvalorizou

Na segunda-feira, o presidente russo argumentou que a inclusão da Finlândia e da Suécia na NATO não é uma ameaça ao seu país.

"No que diz respeito à expansão, incluindo os novos membros Finlândia e Suécia, a Rússia não tem problemas com esses estados - nenhum. E, nesse sentido, não há ameaça imediata para a Rússia de uma expansão para incluir esses países", disse Putin, de acordo com a Reuters, que observa que esta é uma grande mudança de tom.

Putin fez estes comentários numa reunião da sua própria aliança de segurança, mais pequena,  e alertou contra mais posições militares naqueles países. Antes, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros disse que a entrada na NATO seria um grave erro da Finlândia e da Suécia.

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