A Leste tudo de novo: Slava, diz-me o que precisas para lutar pela liberdade?

18 abr, 23:50

O reencontro entre os enviados especiais da CNN Portugal e um soldado ucraniano que partilha o nome com uma das expressões mais ditas na Ucrânia

“Foi um encontro histórico”. A reação de Vyacheslav ao nosso reencontro diz tudo. Voltámos a ver-nos quase 50 dias depois. Ele vestido de camuflado, emblemas do exército colados a velcro e a indicação de “médico” ao peito. Slava é diminutivo usado pelos amigos, mas também por estes dias um termo universalmente conhecido sempre que se fala da luta dos ucranianos: Slava Ukraina, Glória à Ucrânia.

A última vez que nos tínhamos visto foi poucos dias depois de ter começado a guerra, quando ele tinha acabado de ser chamado para combater e nós procurávamos saber quais os próximos passos a tomar depois de termos viajados juntos de Dnipro até Kyiv. Na altura despedimo-nos enquanto caíam as primeiras bombas nos arredores da capital, ele aconselhou-nos a sair do país e garantiu: “Voltaremos a ver-nos”. Li a certeza nos seus olhos e sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Aconteceu agora, depois de Slava ter ficado ferido em batalha, depois de ter passado três semanas na cama de um hospital, de ter recuperado e de se preparar para regressar à frente de batalha.

Material médico utilizado na guerra (David Luz)

Contou-me como foram os momentos em que ficou ferido por um ataque russo, quando a sua unidade tentava suster o avanço do inimigo nas florestas junto a localidades agora famosas, como Irpin ou Bucha. Foi só depois de ter transportado um comandante gravemente ferido para o hospital - “a pé, com outros tropas, durante três quilómetros” - que perguntou às enfermeiras se tinha alguma coisa nas costas. Afinal estava também ele ferido, depois de ter sido atingido por estilhaços de uma bomba.

Contou como lhe faltam instrumentos básicos para trabalhar na frente de combate como médico do exército: garrotes, tratamentos especiais para queimaduras, ligaduras para tratar fracturas e tesouras de cirurgião para atar os pontos em ferimentos mais graves. Já agora, também veículos de transporte de feridos (sonha até com uma ambulância 4x4). Esse equipamento não chega às tropas e torna a tarefa muito mais complexa.

Material médico utilizado na guerra (David Luz)

Slava fala com orgulho do seu trajeto. Psicólogo e apaixonado pela filosofia, é um pensador no meio da insanidade da guerra. Ao seu lado está a mãe, Vira, que também voltou a ver dois meses depois. Veio visitá-lo e olha para ele com uma doçura que enternece. Fico a saber que é uma das maiores especialistas do país em literatura ucraniana. Uma daquelas pessoas com quem se podia estar a conversar durante horas. Aprendo muito com eles, sobretudo sobre a cultura soviética e como o mundo ocidental sabe tão pouco sobre estes povos. Talvez por isso todos nos suprreendamos tanto com o que está a acontecer.

Slava e a mãe com o jornalista Filipe Caetano (David Luz)

Depois de ter sido nosso fixer (tradutor/produtor) a meio de fevereiro, mesmo antes da guerra começar e nos primeiríssimos dias do conflito, agora é a vez de Slava estar também a lutar pela liberdade do seu país. Revejo nos seus olhos a certeza de que continuará a lutar. Para ele não existem meias palavras e garante que não vai desistir até ajudar o seu país a vencer. Repete que nos voltaremos a ver. Tenho a certeza que sim.

Slava e a mãe desaparecem no horizonte (David Luz)

 

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