"A invasão começou": a madrugada de há quatro anos que fez o mundo mudar

23 fev, 22:00
Guerra na Ucrânia (Vadim Ghirda/AP)

QUATRO ANOS DE INVASÃO || Guerra? Operação militar especial? Seja qual for a designação, arrastou um dos maiores países da Europa para a guerra e, atrás, levou todo o Ocidente, que naquela noite não estava preparado para tudo o que aí vinha. Mas veio mesmo

“Começou: Putin anuncia ‘operação militar’ na Ucrânia”. O relógio marcava as 02:57 da madrugada de 24 de fevereiro de 2022 e a CNN Portugal, há dias a acompanhar ao minuto a tensão na Ucrânia, colocava uma linha com o início da guerra.

Àquela mesma hora, a agência France Presse dava conta de que o presidente da Rússia tinha ordenado uma “operação militar especial” na Ucrânia para “proteger o Donbass”, região onde Moscovo já lutava, mesmo que de forma indireta, desde 2014.

Vladimir Putin apelava também às forças militares ucranianas que depusessem as armas, ignorando todos os avisos do Ocidente, que tinha começado a aplicar sanções ainda antes da invasão, com o insucesso que acabaria por se confirmar.

Minutos antes já os Estados Unidos tinham avançado que a Rússia ia invadir a Ucrânia antes do amanhecer - “tudo parece estar a postos”, avisava o então secretário de Estado, Antony Blinken -, até porque nas fronteiras acumulavam-se 200 mil soldados vindos de Moscovo.

Pouco mais de 10 minutos depois do anúncio de Vladimir Putin, as primeiras explosões, e logo em Kiev. Ficava claro que a ideia de “proteger o Donbass” não ia limitar a Rússia às regiões de Donetsk e Lugansk, levando antes o Kremlin a lançar uma ofensiva em toda a linha sobre um dos maiores países da Europa.

O correspondente da CNN em Kiev testemunhava, em direto, o som de explosões na capital ucraniana, ainda que sem confirmar de onde vinham ou para onde iam. Minutos depois, vários outros jornalistas no local davam a mesma informação.

O vídeo abaixo foi o primeiro publicado pela CNN Portugal em plena guerra.

Talvez ainda crente de que as informações que chegavam de Kiev não eram verdadeiras, o secretário-geral das Nações Unidas enviava uma mensagem a Vladimir Putin, pedindo-lhe que impedisse as tropas russas de atacar a Ucrânia.

“Se, de facto, uma operação está a ser preparada, só tenho uma coisa a dizer do fundo do meu coração: presidente Putin, impeça as tropas de atacar a Ucrânia. Dê uma oportunidade à paz. Muitas pessoas já morreram”, disse, quando claramente já era tarde de mais.

De resto, e se havia dúvidas, a própria Ucrânia confirmou que um ataque estava em curso. Em declarações à CNN Internacional pelas 03:39, uma fonte do Ministério do Interior avançava que “a invasão começou”, tendo-se ouvido o som de várias explosões, incluindo em Kiev.

Certamente já preparado para o que ia acontecer, o presidente dos Estados Unidos demorou pouco mais de meia hora a reagir. Joe Biden condenou um “ataque não provocado e injustificado” da Rússia num comunicado divulgado pela Casa Branca que já alertava para a “perda catastrófica de vidas e sofrimento humano”.

“As orações de todo o mundo estão com o povo da Ucrânia, que esta noite sofre um ataque não provocado e injustificado das forças militares russas. O presidente Putin escolheu uma guerra premeditada que trará uma perda catastrófica de vidas e sofrimento humano. Só a Rússia é responsável pela morte e destruição que este ataque trará, e os Estados Unidos e seus aliados e parceiros responderão de forma unida e decisiva. O mundo responsabilizará a Rússia”, prometeu o presidente norte-americano, marcando o tom claro de uma divisão definitiva em relação a Moscovo.

Olena Kurilo, uma das primeiras vítimas na Ucrânia (Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images)
Olena Kurilo, uma das primeiras vítimas na Ucrânia (Wolfgang Schwan/Anadolu Agency via Getty Images)

Políticas à parte, os primeiros efeitos práticos também se sentiram logo noutras dimensões. A Agência Europeia de Segurança da Aviação emitiu de imediato uma ordem a declarar a Ucrânia como uma “zona de conflito ativo”, aconselhando todas as companhias aéreas a evitarem aquela zona, até porque tinha sido emitido um NOTAM pela Rússia, precisamente com o objetivo de limpar o espaço aéreo.

Depois do lacónico anúncio de Vladimir Putin, o embaixador da Rússia nas Nações Unidas dava mais justificações para o que estava a acontecer, escolhendo enveredar por um jogo de palavras que ainda hoje subsiste. Não é uma guerra, é uma “operação especial no Donbass”, garantia Vasily Nebenzya, negando não apenas o caráter militar, mas também a dimensão territorial do que estava a acontecer.

Nesse mesmo discurso em Nova Iorque, e numa altura em que a Rússia até tinha a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o embaixador dava também os primeiros traços de uma retórica que se mantém.

"A raiz da crise atual em torno da Ucrânia são as ações da própria Ucrânia, que durante muitos anos sabotou as suas obrigações ao abrigo do [acordo de Minsk]", defendia Vasily Nebenzya, sublinhando que o objetivo era proteger os residentes das regiões separatistas pró-Rússia.

Na ótica de Moscovo, a agressão não era contra o povo ucraniano, mas sim contra uma “junta no poder em Kiev”, o que marcava um alvo claro na cabeça de Volodymyr Zelensky.

Muito mais que o Donbass

Embora a justificação e a retórica sempre tenham apontado para a defesa das regiões de Donetsk e Lugansk, aquelas primeiras horas da invasão mostravam que seria algo maior que isso.

Na maioria com mísseis de cruzeiro, sete das maiores cidades da Ucrânia foram atingidas nas primeiras horas, muitas delas fora do Donbass. Além de Kiev, também Kharkiv, Kramatorsk, Dnipro, Mariupol, Odessa e Zaporizhzhia foram acordadas com o som de explosões.

Quatro anos depois, apenas uma daquelas grandes cidades está sob controlo da Rússia. Falamos de Mariupol, claro, provavelmente a batalha mais violenta de toda a guerra, e que resultou num cerco sangrento em torno da Azovstal, outrora uma fábrica que virou um ringue de batalha.

Das restantes, Kharkiv, Kramatorsk ou Zaporizhzhia chegaram a estar na posse da Rússia, mas a magnífica contraofensiva de verão da Ucrânia logo no primeiro ano de guerra obrigou os russos a recuar vários quilómetros.

Logo nas primeiras horas da invasão, e comprovando que no Kremlin se tinha preparado algo bem extenso do que uma entrada no Donbass, as filas para sair de Kiev acumulavam-se, com milhões de pessoas a tentarem escapar à inevitabilidade de uma guerra que tinha chegado à capital em força.

Em paralelo, as filas multiplicavam-se também nas caixas de multibanco, onde os ucranianos tentavam levantar o que podiam, fosse para fugir, fosse para assegurar a subsistência em tempos que perceberam que seriam difíceis. O Banco Central da Ucrânia ainda proibiu todos os levantamentos em moeda estrangeira e impôs um limite à quantidade de dinheiro que se podia retirar, mas não evitou o êxodo.

Fila Ucrânia
Automóveis amontoam-se para sair de Kiev no primeiro dia da guerra em larga escala (AP Photo/Emilio Morenatti)

Apesar de tudo isto, a Rússia continuava a garantir que os ataques não tinham as cidades como alvo, não representando qualquer ameaça para civis, mesmo que os primeiros mortos reportados pela Ucrânia tenham sido pessoas que nada tinham que ver com o Exército - naquelas primeiras 24 horas foram 137 vítimas mortais, entre militares e civis.

Símbolo da ambição russa, soavam as sirenes também em Lviv no extremo oposto do Donbass e a apenas alguns quilómetros da fronteira com os países da NATO. Ainda assim, e como testemunharam os repórteres da CNN Internacional Tamara Qiblawi e Mohammed Tawfeeq a partir do local, aquele som ouviu-se pela primeira vez no local desde a Segunda Guerra Mundial.

Em simultâneo, e tentando proteger a população, até porque se antecipava uma batalha nas ruas que se veio mesmo a verificar, o autarca de Kiev ordenou um recolher obrigatório. Seguindo as mesmas recomendações, as autoridades estrangeiras na Ucrânia tomaram passos semelhantes, com o embaixador de Portugal no país, António Vasco Alves Machado, a mudar-se para Lviv por questões de segurança.

E se a Rússia prosseguia a narrativa de que tudo aquilo era militar e não civil, o secretário de Estado norte-americano dava conta de uma avaliação contrária. Antony Blinken avisava que tudo apontava para um cerco de Moscovo a Kiev, havendo mesmo planos para um ataque ao povo ucraniano.

"Todas as evidências sugerem que a Rússia tenciona cercar e ameaçar Kiev, e acreditamos que Moscovo tem planos para infligir abusos generalizados de direitos humanos, e potencialmente piores, sobre o povo ucraniano”, afirmou Antony Blinken, não querendo elaborar sobre o que quis dizer com "potencialmente piores".

Ucrânia e Rússia, dois mundos diferentes

Um ataca, o outro defende. Percebeu-se logo que seria assim, mas também se percebeu que do lado ucraniano ia emergir uma figura de uma dimensão que Vladimir Putin provavelmente não antecipou. Hoje figura central, Volodymyr Zelensky apareceu naquele mesmo dia como cara da resistência ucraniana, utilizando logo nas primeiras horas a já famosa t-shirt militar numa reunião com os parceiros europeus.

Enquanto isso, o Kremlin deixava para a presidência a definição de quanto iria durar a operação militar, fazendo disso depender o êxito dos seus objetivos. Embora não tenha sido dada uma janela temporal, dificilmente a Rússia pensaria que, quatro anos depois, ainda luta para conquistar o objetivo mínimo, o Donbass.

Foi também nesse discurso a partir de Moscovo que o Kremlin confirmou que havia dois objetivos para lá da "libertação" do povo russófono. Era preciso desmilitarizar e "desnazificar" a Ucrânia, numa retórica que ainda hoje prevalece, sendo estas duas das chamadas causas raiz para a guerra que continua.

"Criámos almofadas suficientes para sobreviver à volatilidade do mercado", garantia ainda o porta-voz do Kremlin, acalmando a população russa depois do pânico financeiro gerado pela invasão.

Carros militares no centro de Kiev confirmavam que a guerra tinha chegado (Daniel Leal/AFP via Getty Images)

Questionado sobre quais as verdadeiras intenções da Rússia a nível social, Dmitry Peskov garantia: "Ninguém está a falar de uma ocupação da Ucrânia e essa palavra é inaceitável". O objetivo passava antes, reforçava o Kremlin, por tornar o país vizinho neutro e incapaz de se armar. Por outras palavras, fazer da Ucrânia o que a Bielorrússia é hoje.

Mostrando desde o primeiro segundo que não ia haver a cedência que talvez a Rússia tenha pensado que haveria, Volodymyr Zelensky mandou retirar todas as sanções aos cidadãos ucranianos que se disponibilizassem a defender a Ucrânia. Era para pegar nas armas, então, numa união nacional que não se desmontou até hoje e que permitiu até ao momento - é certo que com a ajuda internacional - uma resistência estóica ao inimigo.

Confirmando que a coisa era mesmo a sério, o presidente da Ucrânia aproveitava também para anunciar o corte total de relações com a Rússia, atirando-se simultaneamente para uma frente que lhe valeu e continua a valer muito. É que desde o primeiro minuto que Volodymyr Zelensky percebeu que a ajuda do Ocidente seria indispensável. Por isso mesmo pediu mais sanções, mas também uma ajuda concreta e prática dos aliados, leia-se equipamento militar.

Mais depressa ou mais devagar, com mais HIMARS ou menos F-16, essa ajuda foi chegando e continua a permitir a resistência da Ucrânia.

 "A Rússia responderá a sanções europeias e dos Estados Unidos com medidas olho por olho, depois de o Ocidente ter tentado punir Moscovo por invadir a Ucrânia", afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, confirmando um rasgar total de relações entre Moscovo e o Ocidente.

Ainda assim, e numa mensagem que talvez só tenha servido para dentro, Vladimir Putin garantia que a Rússia continuava a pertencer à economia global. "Não planeamos danificar o sistema a que pertencemos", atirou, sem saber que já o tinha feito, o que viria a comprovar pouco depois, com praticamente todas as marcas internacionais a deixarem Moscovo.

Para o presidente da Rússia, não houve escolha, já que o país foi "forçado" a tomar aquela mesma decisão. Vladimir Putin pedia assim compreensão aos "parceiros", referindo-se a toda a comunidade internacional.

"Os nossos parceiros deveriam perceber isso e não nos devem excluir deste sistema", afirmou, reiterando que "os governos e autoridades deviam dar mais liberdade aos empresários". Com mais ou menos resistência de uma ou de outra empresa, esse apelo acabou por não surtir efeito.

Enquanto Vladimir Putin ia tentando afagar o Ocidente, Volodymyr Zelensky mostrava saber o que estava em causa: "De acordo com a informação disponível, o inimigo marcou-me como o alvo número um e a minha família como o alvo número dois. A Rússia quer destruir a Ucrânia politicamente destruindo o chefe de Estado. Vou permanecer na sede do governo, juntamente com o restante gabinete".

Mundo em choque

Passavam minutos das primeiras explosões abalarem Kiev e a embaixada portuguesa disponibilizava-se a receber todos os cidadãos nacionais que estivessem no país. No site do Ministério dos Negócios Estrangeiros era explicado o que deviam fazer os portugueses que ali viviam.

"Aconselhamos os cidadãos portugueses a que saiam da Ucrânia através das fronteiras terrestres com a União Europeia, preferencialmente na direção da Polónia e da Roménia", lia-se no comunicado, que preparava dois pontos de encontro para os cidadãos que não conseguissem chegar ao local.

Por volta das 05:30 portuguesas, o então ministro dos Negócios Estrangeiros entrava em direto na CNN Portugal. Augusto Santos Silva dava eco da "mais firme condenação desta agressão militar da Rússia contra a Ucrânia", sublinhando a "solidariedade para com o povo e para com as autoridades ucranianas".

Por essa altura havia na Ucrânia "cerca de 200 portugueses e luso-ucranianos" para quem as indicações eram de calma. Um deles era Nélson Monte, na altura a jogar no Dnipro-1.

"Falei há pouco com o nosso embaixador em Kiev e estamos a recolher o máximo de informação possível. Estamos a falar com parceiros e aliados e nas próximas horas haverá desenvolvimentos. A hora é de se protegerem e de ficarem nas suas casas. Para todos os efeitos estamos perante uma operação militar cujos contornos não conhecemos mas de uma gravidade extrema", lamentou, certamente sem saber a dimensão militar e temporal do que estava para vir.

 Um pouco por toda a Europa, a reação foi de surpresa e de condenação. A presidente da Comissão Europeia falou num ato de agressão sem precedentes contra um país soberano e independente, entrando em direto para todo o mundo para prestar a solidariedade com a Ucrânia e o seu povo.

“Putin está a tentar puxar o relógio para trás, para o tempo do Império Russo, mas ao fazê-lo está a pôr em risco o futuro do povo russo. Peço à Rússia que interrompa imediatamente a violência e retirar as suas tropas da Ucrânia. Não vamos deixar o presidente Putin derrubar a arquitetura de segurança que manteve a paz e a estabilidade ao longo de muitas décadas", disse Ursula von der Leyen.

Nem Emmanuel Macron, que tinha estado em Moscovo na tal mesa, demorou a reagir, confirmando que o esforço que tentou fazer com a ida a Moscovo não lhe ia toldar a vista.

O presidente francês pediu à Rússia para "pôr fim imediato às operações militares" e expressou a sua solidariedade com a Ucrânia. "A França está a trabalhar com os ucranianos e os aliados e parceiros para acabar com a guerra", garantiu.

A ele seguiram-se a Alemanha, Reino Unido, Itália e tantos outros países - até a Hungria de Viktor Orbán condenou a invasão -, ainda que outros tenham optado pela ambiguidade, como foi o caso da China, que preferiu criticar a existência de uma guerra, mas sem criticar o responsável por ela.

Quatro anos depois, a Ucrânia volta a amanhecer com a perspetiva da guerra e um vislumbre pouco claro de quando ela pode acabar. Donald Trump prometeu que seriam 24 horas, depois prometeu que seriam 100 dias. Passou mais de um ano. Para a Ucrânia passaram quatro e, para quem vivia no Donbass, já lá vão 12.

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