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A guerra ucraniana também passa pelas torneiras. Depois do inverno às escuras, teme-se um verão sem água

18 abr, 17:15
A guerra ucraniana também passa pelas torneiras. Depois do inverno às escuras, teme-se um verão sem água

A descida do consumo de eletricidade com o fim do inverno pode estar a deslocar a pressão russa para outro ponto vital: a água. Kiev receia que os ataques às infraestruturas de abastecimento abram uma nova frente humanitária, com risco sanitário e impacto direto na vida das famílias

Durante meses, a Rússia procurou deixar cidades ucranianas às escuras. Agora, com o fim da época de aquecimento e a descida do consumo de eletricidade, Kiev receia que Moscovo desloque parte da pressão para outro sistema essencial, a água.

Segundo o The Kyiv Independent, num artigo assinado pela jornalista Anastasiia Verzun, os serviços de informações militares ucranianos, HUR, admitem que a escolha de alvos russos esteja a acompanhar essa mudança sazonal. Menos eletricidade para aquecer casas, mais necessidade de água nas cidades. E, no meio, uma população já cansada por mais de dois anos de guerra.

As autoridades ucranianas avisam que ataques deliberados a redes de abastecimento em zonas habitadas podem ter um objetivo para lá do dano material. Pretende-se aumentar a tensão social, criar medo, forçar deslocações e alimentar protestos. Kiev lembra que o direito internacional humanitário trata ataques contra infraestruturas civis essenciais como crimes de guerra.

Volodymyr Zelensky já tinha deixado o alerta no início de abril. As infraestruturas de água, afirmou o Presidente ucraniano, precisam de “proteção máxima”.

Os sinais mais recentes reforçam a preocupação. A 14 de abril, as forças russas atingiram a barragem de Pechenihy, na região de Kharkiv, com seis bombas planadoras, segundo as autoridades locais. No mesmo dia, em Zaporizhzhia, foi danificado equipamento especializado usado na reparação de sistemas de abastecimento.

E o problema não está apenas na falta de água limpa. Está também nos esgotos. Viktoriia Yakovlieva, da associação ucraniana de empresas de água e saneamento, explicou ao Kyiv Independent que um ataque ao sistema energético se transforma muitas vezes, quase automaticamente, num ataque ao abastecimento de água. Sem eletricidade, as estações de bombagem param. E, se as águas residuais deixam de circular, o risco já não é só doméstico: pode tornar-se sanitário.

Para as famílias, a margem é curta. Numa casa na qual haja crianças, dois dias sem água podem bastar para levar tudo ao limite: higiene, roupa, cozinha, casas de banho, rotina mínima. Yulia Solonko, moradora em Kiev e mãe de duas crianças, que já tinha ficado sem aquecimento durante o inverno, admite ao The Kyiv Independent que uma falha prolongada no abastecimento poderia obrigar a família a sair da cidade.

O setor chega a este verão já enfraquecido. As avaliações feitas pelo Governo ucraniano, Banco Mundial, União Europeia e Nações Unidas estimam milhares de milhões de dólares em danos, perdas e necessidades de recuperação nas áreas da água e saneamento. As necessidades continuaram a crescer em 2026. E as tarifas pagas pelas famílias não chegam para cobrir os custos operacionais das empresas.

Na prática, a diferença fica muitas vezes sobre equipas que continuam a reparar condutas, bombas e estações de tratamento em zonas atingidas ou próximas da frente. E que pode ser insuficiente. As autoridades ucranianas dizem estar a preparar proteções de engenharia para instalações críticas e soluções de reserva para grandes cidades, caso uma captação de água seja atingida. Mas os especialistas avisam que a resistência tem limite. Faltam dinheiro, peças, equipamento suplente, redes mais descentralizadas e trabalhadores menos exaustos.

Em Kiev, alguns moradores já fazem contas ao que têm por perto. Sashko, veterano de guerra e residente no bairro de Obolon, resumiu ao Kyiv Independent a geografia desigual de uma emergência: ele ainda poderia lavar-se no rio Dnipro. Outros bairros teriam menos sorte.

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