O nome é "coligação dos predispostos" e o anúncio foi feito pelo Reino Unido, mas falta um parceiro essencial: os Estados Unidos. Até lá vai servindo para dar um sinal a Donald Trump
O Reino Unido anunciou esta segunda-feira a "coligação dos predispostos": uma união multinacional - com mais de 30 países - que irá enviar para a Ucrânia até 30 mil operacionais com o objetivo de manterem uma paz duradoura. À primeira vista, a ideia pode parecer a solução necessária perante o afastamento norte-americano e uma Ucrânia que a cada dia parece estar a perder uns centímetros de território, mas o que vai realmente mudar?
Azeredo Lopes defende que esta "coligação dos predispostos" ultrapassa a questão ucraniana e até o ponto de vista meramente logístico ou militar. O professor especialista em Relações Internacionais diz que tem a "certeza" que este foi "um passo importante dado por aqueles que muitos consideravam que eram incapazes de preparar este tipo de modelo de sustentação de garantias de segurança da Ucrânia".
"Este é um sinal muito importante que estamos a dar para nós. Ou seja, perante aquela orfandade que se percebeu quando Donald Trump anunciou que, não só detesta a União Europeia, como aparentemente não gosta muito dos próprios europeus e considera que somos decadentes e ultrapassados. Depois disso, sermos capazes, num tempo tão curto, de começar a trabalhar nestas dimensões que até aqui estávamos manifestamente desinteressados, acho que isso é um aspeto positivo e que deve ser destacado", explica, realçando que a Europa tem, "de uma forma bastante surpreendente, dado passos que são politicamente muito importantes".
Fosse isto um teste diplomático e a Europa tinha de voltar para o ano
"Diplomaticamente, isto é o caos", refere o professor de Relações Internacionais da Universidade Lusíada, Tiago André Lopes, que discorda da visão política de Azeredo Lopes e vai ainda mais longe: "Se isto fosse um teste de diplomacia, a Europa neste momento reprovava". O especialista em Relações Internacionais destaca que a "coligação dos predispostos é uma coisa hipotética que tem um problema: coloca uma solução à frente de um projeto que ainda não existe".
Tiago André Lopes resume que o que parece estar em cima da mesa é "uma força multinacional para um momento de paz que ainda não foi acordado". "Antes de chegarmos aqui, temos de ter um cessar-fogo e um projeto de armistício", lembra, porque "só aí, em que se tenta impor a paz e fechar o conflito do ponto de vista político, é que uma força de estabilização da paz vai ser necessária".
"Sendo que isso seria sempre uma fase 2. A mim faz-me confusão a Europa estar a discutir a fase 2 quando não tem um plano para a fase 1. Aliás, se isto fosse um teste de diplomacia, a Europa neste momento reprovava", refere Tiago André Lopes. Mas, mesmo aí, há um detalhe que parece ter escapado a Starmer: "a Europa é parte da contenda, apoiou diretamente a Ucrânia e não pode querer agir como mediadora por não ter capacidade neutral".
A acrescentar a esta discussão falta ainda o lado e a reação da Rússia e, recorda Francisco Pereira Coutinho, o Kremlin já disse várias vezes "que não queria tropas internacionais de Estados aliados da Ucrânia na Ucrânia e que isso seria considerado como inaceitável". O especialista em Relações Internacionais diz que esta posição da Rússia é difícil de explicar, visto que a Ucrânia não é "um Estado satélite" da Rússia e pode decidir quem quer ter no seu território, além de ser alvo de uma guerra em que está a exercer o seu direito de legítima defesa.
"No fundo, creio que Putin está a ganhar tempo. Esteve a ganhar tempo nestes últimos anos à espera de Donald Trump. Agora poderá estar a ganhar tempo para tentar perceber até onde é que vai o apoio europeu à Ucrânia", aponta Francisco Pereira Coutinho, lembrando que "é isso mesmo que é necessário mostrar a Putin". "Acho que Putin ainda está muito cético sobre a capacidade que a Europa tem de substituir os Estados Unidos".
O comentador da CNN Portugal acredita que o que Starmer e Macron estão a tentar fazer é "mostrar a Putin que os europeus desta vez estão mesmo a falar a sério". Pereira Coutinho recorda que, há cerca de um ano, quando o presidente francês disse que não excluía possibilidade de enviar tropas para a Ucrânia, "toda a gente ficou de boca aberta, espantada". "Foi uma declaração que nem foi interpretada como séria por muita gente e, agora, com estas sucessivas iniciativas britânicas, já se percebeu que de facto se está a falar a sério".
Desconsiderando o que quer ou não quer o Kremlin, Pereira Coutinho lembra que Keir Starmer tem sido muito incisivo na questão de que a "coligação dos predispostos" precisa de ter um "back stop" dos EUA - "ou seja, se estas tropas forem atacadas, haver a garantia que os EUA as vão defender". Para além disso, o especialista alerta que "os custos de uma operação destas são enormes, devido à questão logística para manter todos estes destacamentos militares".
"Esta coligação sinaliza que de facto a Ucrânia continua a contar com aliados que estão, neste momento, a mostrar um nível de comprometimento que nunca tiveram ao longo de três anos. O que não deixa de ser um paradoxo, porque só no momento em que os EUA se retraem é que nós vemos verdadeiramente os europeus a darem à Ucrânia tudo aquilo que podem e inclusivamente aquilo que aparentemente achávamos que não podíamos", resume Pereira Coutinho.
Uma força de paz não é um "exército B"
Tiago André Lopes identifica ainda um "problema" a priori na epifania britânica: "Para já ainda é só uma coligação de intenção". "O Reino Unido fala em mais de 30 países, mas ainda não sabemos quem são e corremos o risco de serem os 27 da União Europeia (UE) mais alguns apêndices, como Andorra ou São Marino". Estes dois exemplos não são aliás casos isolados, sendo que o especialista em Relações Internacionais lembra que, por exemplo, a Irlanda tem um efetivo militar abaixo dos 10 mil homens e Montenegro ou a Islândia nem sequer têm um exército. E, lembra, da União Europeia há pelo menos cinco países - Bulgária, Croácia, Hungria, Eslováquia e a Roménia - que reiteraram que são contra e não vão enviar qualquer soldado para a Ucrânia.
Embora a lista de países desta nova coligação não tenha sido divulgada, sabe-se que numa reunião ocorrida no sábado estiveram presentes representantes dos 27 da União Europeia, mas também Noruega, Austrália ou Nova Zelândia, além de, naturalmente, Reino Unido.
"Em que quadro vai acontecer? Não é na UE, não é na NATO, quem é que vai coordenar as tropas? Politicamente, é uma ideia interessante, uma tentativa de mostrar a Donald Trump que há um esforço de organização e há músculo. Só que sem conhecer os detalhes e sem saber quem são os países e que tipo de capacidades", questiona Tiago André Lopes.
O especialista em Relações Internacionais alerta ainda para o risco de se "para uma força multinacional, como uma espécie de exército B, com custos enormes e com outra dimensão": "Isto é tudo muito giro agora, mas se esta orça de interposição de paz a certa altura tiver baixas humanas no teatro de operações o custo às opiniões públicas desses Estados pode ser elevado para os líderes políticos que aprovaram estas ideias", sendo que, para Tiago André Lopes, a "Europa está a arriscar-se a passar a ser uma diretamente envolvida, a complexificar o conflito e deixá-lo mais próximo de ser regional". "Repare-se nas questões que estão a ser feitas depois daquilo que Starmer disse, esta força parece quase um exército B da Ucrânia", culmina.
Por fim, Azeredo Lopes lembra que "Donald Trump, sem o saber, pode ter feito mais para nos unir do que qualquer grande declaração e qualquer grande conferência em que estivéssemos envolvidos". Agora, "a discussão que temos sistematicamente evitado, a prazo, ficou absolutamente inevitável": esta segunda-feira é o dia 0 de um projeto: um exército europeu.