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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

A tecnologia de ponta pode mesmo estar a perder para a tecnologia de low cost?

12 mar, 14:40
Sistema Iron Dome em funcionamento (Tsafrir Abayov/AP)

"Graças à liderança do Presidente Trump, os Estados Unidos continuam a ser o maior produtor de petróleo bruto e gás natural do mundo. A Administração Trump continuará a libertar a dominância energética americana e a aproveitar o nosso recém-descoberto petróleo na Venezuela."

Custa a crer que um país ataque o outro por razões de segurança e venha depois enaltecer a sua supremacia energética depois de bombardear e colocar num caos a zona que contém mais países produtores de petróleo e gás por metro quadrado.

Isto é mais ou menos o mesmo que o Sporting explodir com o autocarro da equipa do Porto e depois emitirem um comunicado a dizer que são a melhor equipa do campeonato.

Já é claro para todos que o Irão retaliou de uma forma imprevisível e que surpreendeu, e de que maneira, as forças americanas e israelitas. Aquilo que muitos entenderam como uma atitude desesperada foi, afinal, uma deliberação estratégica sem paralelo e, goste-se ou não, muito bem arquitetada. A pressão colocada nos países que acolhem as bases militares americanas que o Irão entendeu como cúmplices tem resultado numa pressão enorme sobre Israel e EUA que começam já a sentir restrições ao uso do próprio espaço aéreo destes países para atacar o Irão.

As fragilidades estratégicas do "Iron Dome"

Israel e Estados Unidos da América têm afirmado que ainda não é o momento da diplomacia, e aqui reside mais um erro estratégico. A diplomacia, por definição, envolve ambas as partes e não há espaço para individualidades. É preciso todas as partes quererem diplomacia para que a mesma exista, caso contrário teremos uma parte a falar para uma parede e a outra com auscultadores nos ouvidos.

É preciso um pouco de arrogância e determinação na guerra, mas, quando doseadas em demasia, ambas podem afastar a outra parte de determinados caminhos.

Assumir que só os atacantes poderão decidir a hora da diplomacia é, neste caso, não entender o estado de criticalidade do sistema. Num fenómeno de avalanche basta um floco de neve provocar uma avalanche. Esse floco de caiu logo no primeiro dia agarrado a uma das bombas que atingiram Teerão. A morte do líder Iraniano no primeiro dia de ataques parecia uma estratégia boa no papel, mas no terreno, parece ter sido demasiado ambiciosa.

Todos nós achávamos que o Irão tinha um grande arsenal mas que não conseguia colocar as suas bombas no chão. O iron dome resolveria tudo como resolveu no ano passado após os ataques sofridos pelo Irão, mas falta um detalhe diabólico. O irão, nesses ataques, procurou não escalar para uma guerra e limitou-se a enviar umas baterias de misseis e drones para consumo mais interno do que externo. Na altura, vários relatos indicavam que o Irão terá avisado previamente dos ataques e evitado alvos críticos em Israel.

Irão atacou com estratégia diplomática para retirar as razões de retaliação e o erro do ocidente foi achar que esta estratégia revelava fragilidade e incapacidade de ataques impactantes.

Estados Unidos e Irão parecem ter sido tão surpreendidos como foi a Rússia no dia em que atacou a Ucrânia.

Drones vs Porta Aviões: a obsolescência da guerra pesada

A guerra na Ucrânia mudou por completo o paradigma da guerra e isso pode muito bem recalibrar as forças mundiais trazendo poder de resistência a países que outrora não o teriam. As grandes potências mundiais estão calibradas para uma guerra pesada, que explora a força das explosões, os grandes porta aviões, os domínios dos céus, os submarinos e tudo aquilo que é capaz de dizimar cidades inteiras sem sequer dar tempo de reação. A descentralização da capacidade militar criada pelos drones veio mudar por completo o conceito da força militar.

A guerra à moda antiga faz-se “by the book” e implica bombardeamentos aos aeródromos e aeroportos para impedir voos, aos lançadores de mísseis para impedir ataques de longo alcance, a postos de comando para impedir coordenação, e a cadeias de abastecimento. Os drones podem ser lançados de qualquer lado, transportados de qualquer maneira e depositados em qualquer ponto à espera para a saída. O Irão apostou uma grande parte da sua estrutura militar no fabrico de drones como quem fabrica aquecedores a óleo.

Essa capacidade de resistência descentralizada revela muito do que serão as guerras do futuro e as grandes potências, detentoras de tecnologias hiper avançadas, podem ter ficado para trás no desenvolvimento de sistemas baratos, destrutivos e fiáveis.

O Irão tem enviado mísseis misturados com drones, mas os sistemas de defesa tratam os dois da mesma forma: com milhares de disparos até os destruírem. Mas há uma grande diferença que se chama stock. Os custos de destruição de drones são elevadíssimo e os stocks nos depósitos de defesas baixam vertiginosamente cada vez que uma salva de drones sai do Irão. É mais ou menos como tentar matar moscas com balas: Não há balas para tantas moscas.

Esta guerra pode demonstrar o poderio das grandes potências mas estas correm bem o risco de serem surpreendidas por uma guerra low cost para a qual ainda não estão preparados.

Quando o racional se encontra com o divino

Mais um erro de interpretação e para o explicar volto ao tema de diplomacia e não preciso de me adiantar muito para explicar o quanto esta guerra saiu do campo militar e entrou no campo religioso. A morte de Ali Khamenei tirou a guerra do racional e da lógica colocando-a na esfera religiosa.

Estou convicto que nenhum exército por maior que fosse conseguiria extinguir uma religião. Assassinar um líder religioso não é o mesmo que assassinar um líder político. Assassinar um líder religioso é fazer um ataque direto a uma religião e sair da era do previsível, da diplomacia, da lógica. Por cada líder religioso, outro se erguerá, sem medo, porque determinados grupos envolvidos neste conflito encaram o martírio como parte da sua fé e identidade. A contrapartida é quase sempre uma união brutal pela força que a religião, seja ela qual for, consegue entregar a humanos convictos.

Já outros líderes foram atacados e morreram com mísseis entrados pela anela, e pouco aconteceu, mas a morte de um líder religioso agrega mais do que o que separa.

O perigo encurralado da imprevisibilidade

Não há, neste momento, ninguém que consiga prever onde pode levar esta guerra. É sempre muito perigoso quando encurralamos alguém que pode não ter nada a perder. O discurso de que tem que mudar a liderança no Irão, gera em toda a sua estrutura política e militar atual o sentimento de não terem nada a perder. Se o regime cai, vão muito provavelmente ser liquidados. Se lutarem vão provavelmente morrer em combate, mas esta segunda hipótese parece mais apelativa e, pelo menos, deixar a esperança viva.

O discurso narrado não ajuda aos resultados que Israel e EUA pretendem. Os grupos religiosos envolvidos neste conflito tendem a não entregar armas nem a reconhecer outra forma de julgamento que não a espiritual. Afirmar que a guerra só acabará com uma nova liderança escolhida ou pelo menos acordada com Donald Trump é mais um erro brutal na abordagem ao tema.

Alguém que não tem saída trás sempre muito mais imprevisibilidade ao sistema. Ninguém consegue sequer traçar um cenário de possibilidades para esta guerra e, neste momento e da forma como a mesma se desenrolou, não estou sequer certo de que se pararem os ataques ao Irão, o Irão vai igualmente parar os ataques.

A voz de Karoline

Quando a porta voz de Trump decide gabar o seu governo por se ter transformado no maior produtor mundial de petróleo e gás, colocando ainda por cima a Venezuela no tema, não está a fazer mais do que a fazer levantar as orelhas dos produtores de petróleo do médio oriente que andavam às voltas com uma explicação para uma guerra que lhes faz cair misseis do céu. Posto da forma como a responsável pela comunicação o colocou, soa a que esta guerra tem outros interesses de dominância para além da mera segurança.

Afirmações destas irão aumentar a pressão para que se pare com uma guerra que poucos pretendiam embora muitos a desejassem.

A guerra não se ganha onde a política desiste

Em última análise, esta escalada revela um sistema internacional onde as regras da dissuasão clássica colapsaram. Quando um lado confia excessivamente na sua força bruta e o outro transforma a sua própria sobrevivência num ato de fé, o espaço para a política desaparece. O erro final não será de quem disparou o primeiro ou o último míssil, mas de quem acreditou que este conflito poderia ser ganho apenas com tecnologia ou ideologia. No tabuleiro atual, a vitória de um lado parece ser apenas o preâmbulo da derrota de todos.

Esta análise não pretende absolver um lado nem condenar o outro, nem transformar agressores em vítimas ou vítimas em heróis. O que procuro é compreender os erros estratégicos que estão a alimentar uma escalada perigosa e que podem arrastar toda a região, e o mundo, para um conflito ainda maior. Criticar decisões políticas e militares não é tomar partido mas sim reconhecer que, quando a guerra entra em espiral, todos os lados perdem a capacidade de controlar o que vai acontecer a seguir. É precisamente essa perda de controlo que deveria preocupar-nos mais do que qualquer narrativa de força ou de vitória porque, no final, muitos inocentes perdem o chão ou tombam no solo.

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