opinião
Correspondente Médica CNN Portugal

Carta da Ucrânia (IV) ou o método dos 15 goles

13 abr, 13:20
Bandeira da Ucrânia (Getty Images)

Cara Sofia,

Escrevi-te há pouco mais de um mês. Como há um mês, amanhece mais um longo dia de guerra aqui em Vinnitsa, com a diferença de este estar mais solarengo e quente. É o meu primeiro dia de folga desde o início da guerra e só consigo pensar nos doentes que operei ontem. Com uma chávena de café na mão, através da janela, deixo o olhar vaguear entre os transeuntes apressados e, por um momento, acredito que vivem as mesmas vidas – e as mesmas pressas – de há 2 meses. Entretanto, deixo o café esfriar, porque não há folga para as mensagens de telemóvel que me chegam constantemente: “Doutor, o meu filho está com febre alta, que faço?” ou “Doutor, estou com mais dor, pode ajudar-me?”.

A propósito de dor, vou contar-te uma estória que se passou recentemente comigo. Há dias, de madrugada, recebi esta mensagem de uma paciente minha com dor crónica: “Doutor, estamos a ser bombardeados, estamos na cave, a minha medicação para a dor acabou, que posso fazer?”. De um ponto de vista puramente científico, não sabia o que lhe dizer naquele momento. Mas como médico, tinha que ser capaz de ajudar aquela paciente. Tentei acalmar-me e perguntei se tinham água. “Sim, água não é por agora um problema”, respondeu. Escrevi-lhe então: “Beba goles de água com 4 segundos de intervalo, até perfazer 15. Acredito que lhe vai aliviar a dor.” Tendo devotado a minha carreira à dor, é particularmente difícil ver as dificuldades actuais dos doentes para obterem medicação para a dor. Passaram duas semanas e mais nada soube sobre a paciente, senti-me culpado, de alguma forma, por não ter conseguido ajudar. Até que recebi esta SMS: “Sou a doente que estava na cave. Estou a salvo, consegui fugir. A técnica dos 15 goles resultou, muito muito obrigada!”. Que explicação para o sucesso do método dos 15 goles? Fé? Efeito placebo? Será a relação médico-doente verdadeiramente terapêutica em si mesma?

Enfim, a carta já vai longa, Sofia. Despeço-me. Nós, médicos Ucranianos, resistimos e resistiremos. Em muito pouco tempo, aprendemos a improvisar salas de emergência em caves e a operar com sacos de areia a proteger as janelas. Aprendemos isto e muito mais, em prol de cada vida que pudermos salvar.

 

 

Dmytro Dmytriiev, médico anestesiologista, professor, director da Sociedade Ucraniana de Anestesia Regional e Medicina da Dor

12 de Abril 2022, Vinnitsa, Ucrânia

Texto por Sofia Baptista, Correspondente Médica CNN Portugal, a partir do relato do médico Dmytro Dmytriiev.

 

 

Este texto não está escrito ao abrigo do novo artigo ortográfico.

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