"Estamos tragicamente a ver uma repetição de erros". Rebeldes sírios avançam a todo o gás e Bashar Al-Assad pode estar nas horas finais

7 dez 2024, 00:52
Cartaz de Bashar Al-Assad destruído com balas em Hama (Omar Albam/AP)
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Caiu Alepo, agora caiu Hama e Homs pode ser o bastião que se segue. Depois fica só mesmo a faltar a capital, Damasco. Os olhos do mundo estão todos postos na Síria

Há uma pinça atrás de Bashar al-Assad. Praticamente o único presidente que a Síria conheceu este século, e que se seguiu no cargo ao pai, o homem-forte apoiado pela Rússia e pelo Irão parece ter os dias contados no poder. Ou talvez devamos dizer horas.

A operação relâmpago lançada no final da semana passada fez Alepo cair para as mãos dos rebeldes, que aproveitaram um cocktail de acontecimentos - desvio das atenções russas e enfraquecimento de Hezbollah e Irão - para lançarem uma ofensiva decisiva contra o regime.

Do pequeno território de Idlib foram-se multiplicando como cogumelos. Em apenas sete dias conquistaram Alepo e Hama, duas das maiores cidades da Síria, e agora estão a cercar Homs, o último bastião antes da capital, Damasco, cada vez mais isolada.

“As nossas forças libertaram a última vila nos arredores da cidade de Homs e estão agora nas suas muralhas”, afirmou o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), formado após uma dissidência da Al-Qaeda, e que é a principal das muitas forças rebeldes que se uniram, de uma forma ou de outra, para fazer a revolução.

O ataque também se lança do sul. É que a aparente fragilidade das forças pró-governo instou outros rebeldes a juntarem-se à causa. É por isso que Daraa, a sul de Damasco, também já está nas mãos dos que se opõem a um regime que domina a Síria há mais de 50 anos. Já a este, Deir el-Zor caiu para as forças curdas apoiadas pelos Estados Unidos.

É a tal pinça, com uma tenaz a vir de cima, de Alepo, e outra a vir de baixo, de Daraa. A partir desta última cidade, como garantiram os rebeldes, será possível garantir uma passagem segura em direção à capital.

Uma pinça que a Rússia parece estar a ignorar, pese embora os brutais interesses que tem no território, que lhe dá uma oportunidade única de ter acesso ao Mar Mediterrâneo, nomeadamente no porto de Tartus, onde tem Marinha - a conquista de Homs por parte dos rebeldes deixa o regime sírio sem acesso ao mar, o que significa que as posições russas ficarão isoladas. É precisamente ali que o Instituto para o Estudo da Guerra, um think tank que se debruça sobre conflitos, tem notado movimentações nos últimos dias. Estará a Rússia a abandonar Bashar al-Assad? A resposta não é clara, mas as indicações do Kremlin parecem sugerir que algo de diferente está a acontecer, já que a embaixada em Damasco instou todos os russos a deixarem o país de imediato.

Tiago André Lopes avisa que está em curso a repetição dos erros - "estamos tragicamente a ver uma repetição de erros" do que se fez no Afeganistão ou no Irão. "Estamos a convidar uma plêiada de grupos que não servem o Ocidente. Se a ideia é infligir uma derrota por procuração a Moscovo ou ao Irão, vamos infligir uma derrota aos nossos interesses".

Áreas de controlo da Síria a 6 de dezembro

Fonte: Instituto para o Estudo da Guerra com o Projeto de Ameaças Críticas da AEI

Gráfico: Lou Robinson, CNN

O especialista em assuntos do Médio Oriente vê como altamente provável a queda de Bashar Al-Assad, vendo "sinais claros" da perceção dessa mesma queda nos diferentes atores regionais.

Numa perspetiva militar, o major-general Agostinho Costa não tem dúvidas: com a conquista de Homs, "a pedra de toque da catedral", "Damasco está a seguir", já que está sob o tal cerco em todas as frentes.

Num desdobramento de entrevistas a órgãos de comunicação social estrangeiros (uma das quais à CNN), o líder do HTS, Abu Mohammed Al-Golani, garantiu que “a operação quebrou o inimigo”, reiterando que o destino final é mesmo Damasco.

“O nosso objetivo é libertar a Síria deste regime opressivo”, acrescentou.

Enquanto isso, todos assistem atentamente. Turquia e Estados Unidos, interessados na queda do regime, têm estado a trocar perspetivas. De Istambul pede-se que Bashar Al-Assad abra negociações com a oposição.

Do outro lado pouco se percebe das intenções russas, mas o Irão garantiu que pretende dar apoio ao regime. Já o Iraque, outrora potência regional que ficou reduzida a um quase nada militar depois da entrada dos Estados Unidos, procurou afastar intenções de se envolver, ainda que tenha deixado bem claro que é a Bashar Al-Assad que presta lealdade.

É que parte do medo é a incerteza. Se um ditador como Bashar Al-Assad cair pode ser bom, essa queda acontecer para grupos sunitas que querem instalar uma república islâmica pode radicalizar o país. Lembremo-nos: Síria pode também significar Levante. ISIS/ISIL querem dizer o mesmo (Estado Islâmico do Iraque e da Síria/Levante).

Sem prejuízo dos avanços e recuos, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos já confirmou que 370 mil pessoas foram deslocadas na última semana.

Pelo meio há ainda muita desinformação e dúvida. O Wall Street Journal escreveu que Egito e Jordânia, países do mundo árabe que mantêm uma postura de neutralidade, aconselharam o presidente sírio a deixar o país e a formar um novo governo no exílio. A embaixada jordana em Washington DC já veio criticar esta notícia, desmentindo-a de imediato.

Pelo meio, duas versões: Bashar al-Assad e a família saíram mesmo do país, tendo o presidente encontrado refúgio no Irão. Só parte desta informação será verdadeira, pelo menos segundo o exército sírio que ainda é leal ao presidente. Dizem os militares que o homem-forte se mantém em Damasco, mas tudo aponta que a sua família tenha ido mesmo para fora, mais concretamente para a Rússia.

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