"Vocês sabem o que nós estamos a sentir": no dia em que Zelensky comparou o regime de Putin ao de Salazar, o Governo português decidiu não aplaudir o presidente ucraniano

21 abr, 19:25

Zelensky citou Porto e Lisboa, comparou a vontade de liberdade do povo português em 1974 à do povo ucraniano em 2022 ("vocês sabem o que estamos a sentir"), descreveu crimes de guerra russos, pediu a Portugal armas e sanções e ajuda humanitária - e ainda apoio na adesão à UE. No fim, o Parlamento levantou-se para aplaudi-lo, Marcelo e Santos Silva incluídos. Bem, não o Parlamento todo: o Governo não se levantou, não aplaudiu e Costa ainda advertiu uma ministra que começou a bater palmas - tudo em nome de uma tradição parlamentar

Um dia e uma imagem que ficam para a história de Portugal: foi perante um hemiciclo cheio, à exceção dos seis da bancada do PCP, que o presidente da Ucrânia comparou o tamanho de Lisboa a Mariupol, o número de ucranianos deportados a duas cidades do Porto, a Revolução Ucraniana de 2014 à Revolução dos Cravos e o regime de Salazar ao de Putin. Volodymyr Zelensky pediu a Portugal mais armamento, mais sanções contra a Rússia e ajuda humanitária. 

Volodymyr Zelensky discursa no Parlamento (Foto: Miguel A. Lopes/Lusa)

Com uma t-shirt verde-tropa, como se tem apresentado desde o início da invasão russa, e com a bandeira da Ucrânia por trás, Volodymyr Zelensky começou o seu discurso pela parte que mais tem chocado o mundo: os corpos, com sinais de tortura, espalhados pelas estradas de várias cidades ucranianas. Decidiu especificar duas: Mariupol e Bucha. "Vocês viram as fotografias, mas elas não mostram tudo o que os cidadãos que viviam lá viram. Os ocupantes mataram pessoas só para se divertir".

Por isso, o presidente da Ucrânia disse que esta luta não é só "pela nossa independência" mas também "pela nossa sobrevivência". Zelensky disse que as tropas russas continuam a bombardear habitações, supermercados, escolas, universidades e igrejas.

Em Mariupol, "uma cidade tão grande como Lisboa", disse, "não existe uma única habituação inteira". Acusou a Federação Russa de crimes de guerra, afirmando que as tropas russas já capturaram e deportaram "mais de 500 mil ucranianos". "É duas vezes o tamanho da população da cidade do Porto. Os deportados não têm direito a estabelecer ligação com as famílias, eles estão a ser deportados para as regiões mais longínquas da Rússia", onde "fizeram campos especiais para que essas pessoas fossem divididas, alguns são mortos, as raparigas são violadas". Mais: milhões de ucranianos fugiram do país, são muitos mesmo, sublinhou Zelensky: "E imaginem se Portugal todo abandonasse o país". 

"Vocês sabem perfeitamente o que nós estamos a sentir" 

Numa mensagem ao povo e ao Governo português, Zelensky pediu "coisas simples": mais apoio militar, mais sanções e toda a ajuda humanitária possível. "Senhoras e senhores, povo português, nós pedimos coisas simples. Nós pedimos armamento para nos podermos defender de forma forte - a aceleração e reforço das sanções e também apoio militar".

O presidente da Ucrânia pediu às empresas portugueses que trabalham na Rússia que deixem de o fazer - porque isso é uma forma de "combater o país agressor" - e comparou as revoluções ucranianas ao 25 de Abril e a guerra agora vivida ao período de ditadura no Estado Novo.

"Nós tivemos duas revoluções, em 2004 e em 2014, duas revoluções que conseguiram parar o alastrar da ditadura na Ucrânia. O vosso povo, que daqui a nada vai celebrar o aniversário da Revolução dos Cravos, que também vos libertou da ditadura, vocês sabem perfeitamente o que nós estamos a sentir. Vocês sabem o que traz a morte e a ditadura para a Ucrânia."

Alertou ainda que depois da Ucrânia a Rússia vai tentar fazer o mesmo na Moldava, na Geórgia e nos Países Bálticos. Zelensky pediu ainda o apoio de Portugal na candidatura da Ucrânia como membro da União Europeia: "Que sejamos livres". "Eu peço-vos mais uma vez: por favor apoiem-nos nesse caminho. Vocês estão no caminho mais oeste e nós estamos na parte mais leste, contudo as nossas visões são iguais e nós sabemos as regras que existem na Europa." 

"Glória à Ucrânia" foram as últimas palavras proferidas. O presidente ucraniano falou durante cerca de 15 minutos e foi aplaudido de pé por deputados e convidados durante 60 segundos. No entanto, nenhum dos quatro membros do Governo presentes bateu palmas: novatos nestas andanças, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação e a ministra da Defesa, Helena Carreiras, ainda esboçaram um aplauso mas pararam rapidamente, sendo que no caso da ministra isso ocorreu depois de um olhar do primeiro-ministro (ver minuto 00:05 em baixo). António Costa, tal como Ana Catarina Mendes, não bateram palmas uma única vez.

António Costa decidiu seguir à risca as regras que se praticam no Parlamento nesta intervenção do presidente Zelensky e por isso nem ele nem os membros do seu Governo bateram palmas no fim do discurso. Segundo adiantaram várias fontes à CNN Portugal, há uma regra, de tradição longa, em que, tendo em conta a separação de poderes legislativo e executivo, define que este último nunca se deve manifestar ou bater palmas dentro do hemiciclo. 

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