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Master em Relações Internacionais pelas Universidades de Groningen e Universidade de Estrasburgo

A propaganda russa na imprensa brasileira

14 dez 2024, 21:27
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Kyiv, 13 de dezembro, 10h26 da manhã. O frio intenso marcava -5 graus, mas a sensação térmica atingia gélidos -10, quando o silêncio da capital ucraniana foi rompido pelo som ensurdecedor das sirenes de ataque aéreo. Quase simultaneamente, a aplicação Air Alert, instalada nos telemóveis de milhões de ucranianos, disparou com um alerta seco: "Atenção, alarme de ataques aéreos". No mapa exibido pela aplicação, o azul deu lugar ao vermelho, sinalizando perigo em todos os oblasts do país.

A rotina foi interrompida de imediato. Milhares de pessoas deslocaram-se para as estações de metro, que rapidamente ficaram lotadas. Mulheres, crianças e famílias inteiras aguardavam juntas, protegendo-se do frio e do risco iminente. Durante mais de três horas, aquele espaço tornou-se um refúgio temporário, enquanto as incertezas de um novo ataque pairavam sobre a cidade.

Poucas horas depois, a mais de 10 mil quilómetros de distância, em São Paulo, no Brasil, um dos principais veículos de notícias do país, a Folha de São Paulo, destacava na capa de seu portal uma manchete: "Putin usa 287 mísseis e drones no maior ataque da Guerra da Ucrânia: Ação contra sistema energético foi vingança contra uso de mísseis americanos, medida de Biden que Trump disse ser 'uma loucura'; não há relato de mortes."

À primeira vista, o título e o subtítulo pareciam cumprir a sua função informativa: o ataque foi o maior da guerra em número de mísseis e drones, Putin é directamente associado à acção, o alvo foi o sistema energético ucraniano e, até ao momento, não houve mortes. Mas um detalhe no subtítulo denuncia um problema maior: a suposta motivação. O texto afirma que a ofensiva contra o sistema energético ucraniano foi uma "vingança" pelo uso de mísseis americanos contra a Rússia.

Essa escolha narrativa sugere, de forma implícita, que a Rússia está apenas a reagir, em vez de assumir o papel de potência agressora numa guerra que ela própria iniciou. Além disso, o uso do termo "vingança" no título enfraquece a gravidade da acção russa, tratando-a como uma retaliação emocional e não como aquilo que realmente é: uma agressão deliberada contra infraestruturas civis, proibida pelo direito internacional. E isto é apenas o título e o subtítulo.

A matéria apresenta uma série de elementos perturbadores que, de forma subtil, procuram suavizar a responsabilidade da ditadura russa, enquanto insinuam que parte da culpa recai sobre Zelensky e o Ocidente. Um exemplo claro é a inclusão de uma declaração de Donald Trump, que, no dia 12, afirmou que "o que está a acontecer é uma loucura" e criticou as acções ucranianas. Ao optar por destacar as palavras de Trump, em vez de contextualizar as razões que levaram o Ocidente a apoiar a Ucrânia, o autor, intencionalmente ou não, legitima a narrativa russa de que o Ocidente é o responsável pela escalada do conflito. Isto, claro, omite convenientemente o facto de que o apoio ocidental procura apenas ajudar a Ucrânia a defender a sua soberania contra uma invasão não provocada.

O caso da Ucrânia é incontestável: o país tem o direito legítimo de se defender, conforme o Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, e de buscar apoio internacional para proteger a sua soberania e integridade territorial. No entanto, o texto opta por ignorar um aspecto fundamental: enquanto a Ucrânia recorre a aliados democráticos para resistir a uma invasão não provocada, a Rússia, o agressor indiscutível, consolida alianças com regimes autoritários como o Irão e a Coreia do Norte. Esta omissão não é inocente. Ela desvia o foco do papel central da Rússia na perpetuação da guerra, transformando um acto de autodefesa legítimo numa provocação, enquanto varre para debaixo do tapete as suas alianças ditatoriais e a continuidade das suas violações flagrantes ao direito internacional.

Um segundo ponto que merece atenção é o facto de o texto ter sido publicado num site amplamente respeitado. Segundo o próprio veículo, atrai mais de 114 milhões de visitantes únicos por mês, que acedem a mais de 7,4 mil milhões de páginas. Além disso, de acordo com o Reuters Digital News Report 2024, 54% da opinião pública considera-o um dos meios de comunicação mais confiáveis do país. Este alcance e credibilidade tornam ainda mais preocupantes certas afirmações, como a descrição dos ataques russos como "cirúrgicos" e o destaque para a ausência de mortes. É evidente que a informação de que não houve vítimas fatais deve ser transmitida, mas há dois problemas graves na forma como isso foi apresentado.

O primeiro é a caracterização dos ataques como "cirúrgicos", um termo que sugere precisão e cuidado, algo que raramente reflecte a realidade desta guerra. Exemplos disso não faltam: a 8 de julho, o Hospital Infantil Ohmatdyt, a maior instalação pediátrica da Ucrânia, foi atingido por mísseis russos. O ataque matou dois adultos, feriu outros e obrigou à evacuação apressada de crianças gravemente doentes, muitas delas ligadas a ventiladores ou intubadas. Também não se podem ignorar os repetidos ataques de drones russos em Kherson, que têm como alvo directo os civis, destruindo casas, escolas e vidas.

O segundo problema está no que foi omitido ao destacar a ausência de mortes: o impacto devastador do alvo escolhido. O sistema energético ucraniano, que já teve pelo menos 65% da sua infraestrutura destruída até Novembro deste ano, é crucial para a sobrevivência de uma população que enfrenta temperaturas abaixo de zero. Ao falar em "precisão", o texto minimiza a gravidade de ataques que deixam milhões sem aquecimento, electricidade ou água potável, em pleno inverno. Esta escolha de palavras mascara a realidade covarde de uma ofensiva que utiliza a privação e o sofrimento humano como armas deliberadas.

E isso sem mencionar outros aspectos do texto que, para qualquer especialista atento aos desdobramentos da guerra e comprometido com os Direitos Humanos, os princípios do Direito Internacional Humanitário e as convenções internacionais, são, no mínimo, questionáveis. Há uma tentativa clara de moldar a percepção de que a Rússia estaria prestes a alcançar uma vitória definitiva. Esta narrativa ganha força com a insinuação de que Zelensky estaria desesperado, abrindo caminho para pressões internacionais que poderiam empurrá-lo a aceitar um acordo desfavorável à Ucrânia.

Além disso, ao relegar a ofensiva ucraniana na região de Kursk a um "detalhe menor", o texto subestima a importância estratégica da resistência ucraniana. Esta escolha narrativa, longe de ser neutra, constrói uma percepção enganosa de inevitabilidade da vitória russa, desvalorizando o esforço de um país que luta pela sua própria soberania. Trata-se de uma abordagem que disfarça parcialidade sob o manto da objetividade e, nesse processo, beneficia directamente o agressor.

O objectivo desta coluna não é atacar a Folha de São Paulo, mas apontar um problema que precisa de ser discutido: mesmo veículos reconhecidos pelo seu rigor editorial, como a própria Folha, não estão imunes a reproduzir, ainda que de forma indirecta, narrativas alinhadas aos interesses do Kremlin. É importante lembrar que o Laboratório de Pesquisa Forense Digital (DFRLab), ligado ao Atlantic Council, identificou a Folha como o meio brasileiro que menos replicou as retóricas do Kremlin entre 16 grandes veículos de comunicação. Ainda assim, mesmo a imprensa mais criteriosa pode, intencionalmente ou não, incorporar informações de fontes como o Sputnik, o órgão estatal russo cuja missão é promover a visão do mundo segundo Moscovo. E é precisamente essa subtileza que torna o problema tão perigoso.

Não se trata aqui de desmoralizar um dos meios de comunicação mais respeitados do Brasil, que certamente oferece ampla liberdade editorial aos seus articulistas — liberdade que também exerço na CNN Portugal. Trata-se de expor como a retórica russa tem-se infiltrado de forma estratégica no Sul Global, moldando o discurso público e contaminando a opinião popular. Essa estratégia é clara: diluir a responsabilidade da Rússia e desviar a pressão sobre os governos nacionais para que não condenem ou isolem Moscovo diplomaticamente. O problema não é o erro pontual; é a eficácia de uma máquina de propaganda que avança sem que muitos percebam.

Uma publicação do DFRLab revelou que, apesar de o Sputnik Brasil ter encerrado o seu escritório em Março de 2023 devido a sanções económicas, o site manteve as suas operações. Entre Agosto e Outubro de 2023, foram publicados 484 artigos sobre a Ucrânia, com foco em narrativas recorrentes que questionavam a eficácia do exército ucraniano e apontavam supostas falhas no uso de armamentos ocidentais.

O alcance destas narrativas no Brasil é ainda mais preocupante. Apenas em 2023, portais brasileiros republicaram 5.610 artigos do Sputnik. Um exemplo particularmente evidente é o Brasil 247, com os seus 9,7 milhões de visitantes mensais, que sozinho foi responsável por 43% destas reproduções. Estes dados não são meramente estatísticos; revelam como a propaganda russa, mesmo sem um escritório físico no país, encontrou parceiros eficazes para amplificar as suas mensagens, manipulando o discurso público e expandindo a sua influência em territórios que deveriam ser mais críticos ao jogo que está a ser jogado.

A estratégia russa para o Brasil e a América Latina é clara: utilizar veículos locais para conferir legitimidade às suas narrativas, espalhando desinformação sobre a guerra na Ucrânia. E o terreno para isso é fértil? Absolutamente. Tal como em outros países, no Brasil a Rússia tem a habilidade de identificar frustrações e anseios locais e de os explorar em seu favor, apostando numa estratégia de convergência ideológica que atinge diferentes espectros políticos.

De um lado, a extrema-direita bolsonarista abraça a Rússia pelo discurso nacionalista e pela defesa de valores conservadores, especialmente alinhados à retórica anti-LGBTQIA+ de Putin. Do outro, sectores da esquerda, com a sua crítica histórica ao imperialismo americano, enxergam na proposta russa de uma ordem mundial multipolar um ponto de afinidade. É esta dualidade que permite ao Kremlin tecer uma rede de influência que, mesmo sem grandes esforços aparentes, consegue conectar polos políticos opostos em torno das suas narrativas, ampliando a sua penetração no discurso público brasileiro e latino-americano.

O que se observa no Brasil não é um caso isolado. A mesma estratégia repete-se noutros países da América Latina, África e Ásia, onde a propaganda russa encontrou terreno fértil, muitas vezes disfarçada de opinião ou alinhamento ideológico. É curioso, para não dizer irónico, ver jornalistas locais usarem a política externa como uma forma discreta de defender as suas próprias convicções enquanto replicam narrativas do Kremlin. Sim, o mesmo Kremlin que prende seus colegas de profissão, silencia vozes críticas e transformou a imprensa estatal numa fábrica de propaganda. Alinhar-se a um discurso destes não é só problemático — é um exercício de contradição épica, digno de quem clama pela liberdade de expressão enquanto passa pano para quem a sufoca.

Esta dinâmica também coloca em evidência um paradoxo difícil de ignorar: uma esquerda latino-americana, marcada pelos traumas de ditaduras e regimes militares, passa a relativizar ou até a justificar as acções de Putin — o mesmo líder que viola os direitos humanos que esses grupos defendem nas suas próprias lutas nacionais. Ao mesmo tempo, a extrema-direita, seja por afinidade autoritária ou pelo desprezo às minorias e apego a um moralismo conservador, abraça a mesma liderança que é idolatrada pela esquerda que tanto jura combater.

O problema? Ambos os lados, ao validarem o discurso russo, contribuem para a normalização de práticas que deveriam ser universalmente condenadas: perseguição política, autoritarismo e violação de princípios democráticos básicos. O resultado é um terreno propício para a propaganda do Kremlin, que manipula ideologias opostas e conquista aliados estratégicos de todos os espectros. Assim, Putin não apenas avança a sua agenda global, como também escapa do isolamento diplomático que deveria ser a resposta natural à sua agressão e ao desprezo pelas normas internacionais.

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