Falou-se numa "troca de territórios" que beneficie ambos os lados, mas não é claro como é que isso pode ir ao encontro das pretensões do presidente Zelensky
É quase do outro lado do mundo, onde os dois maiores inimigos da História Moderna se separam por apenas alguns quilómetros - nas ilhas Diomedes são apenas quatro - que Estados Unidos e Rússia vão discutir o que vai acontecer com um terceiro Estado.
Com receio da roleta russa de Donald Trump, Volodymyr Zelensky já avisou: a condição de partida apontada por Vladimir Putin é inaceitável.
O presidente da Rússia vai até ao Alasca sem se mover um centímetro daquilo que exige desde 2022 - e que provavelmente quer até antes disso. E isso deixa o homólogo ucraniano nervoso, já que o homem que manda na Casa Branca não foi claro sobre o que pretende o Kremlin.
Sem demoras, Zelensky rejeitou totalmente a sugestão de Trump, que colocou no ar possibilidade de as negociações envolverem “alguma troca de territórios”. O presidente da Ucrânia garantiu que nem ele, nem o seu povo, vão “desistir da sua terra para o invasor”.
É que a troca de que Trump falou não é bem isso, já que a Ucrânia deixou de ocupar a pequena porção de território que teve durante largos meses na região russa de Kursk. Olhando dessa forma, qualquer troca implicará sempre uma maciça perda de território para Kiev.
“A resposta para a questão territorial ucraniana já está na Constituição da Ucrânia. Ninguém se deve desviar disso - e ninguém pode fazê-lo”, afirmou Zelensky apenas alguns minutos depois de saber do encontro marcado para dia 15 de agosto.
Um encontro “altamente antecipado”, como descreveu Trump na sua Truth Social, rede social que voltou para fazer diplomacia ao mais alto nível. E foi também lá que o presidente norte-americano referiu que a Rússia não está disposta a abrir mão do que conquistou.
Falamos do Donbass - que compreende as regiões de Lugansk e Donetsk -, mas também de Zaporizhzhia e Kherson, quatro oblasts que a Rússia anexou de forma unilateral após um referendo em 2022.
E as tais cedências que Trump fala e Putin quer podem até nem ser a mesma coisa. Sem ser totalmente claro, o Kremlin já disse várias vezes que quer controlar a integralidade dessas quatro regiões, incluindo o vasto território que não ocupa, sobretudo em Zaporizhzhia e Kherson.
“É muito complicado. Vamos ter algo de volta, vamos ter algo trocado. Haverá alguma troca de territórios, para agrado de ambos”, disse mais tarde Trump na Casa Branca.
Em declarações ao Financial Times, responsáveis ucranianos referiram que a proposta russa inclui um congelamento da linha da frente, mas também a retirada da Ucrânia das zonas que ainda controla em Donetsk e Lugansk. Em suma, a concessão total das duas regiões cuja guerra já existe desde 2014, na altura ainda apenas com milícias e com o Grupo Wagner a representarem os interesses de Moscovo.
E já nem se fala da Crimeia, península anexada nesse mesmo ano, e que Trump sempre pareceu dar como perdida para a Rússia e totalmente fora de qualquer acordo, mesmo que Zelensky já tenha dito várias vezes que só com essa região é que a Ucrânia ficará totalmente completa.
Quanto às tais trocas, Kiev entende que podem referir-se às regiões de Zaporizhzhia e Kherson, sim, mas também de Sumy e Kharkiv.
“A Ucrânia está pronta para decisões reais que possam trazer a paz. Quaisquer decisões contra nós, quaisquer decisões sem a Ucrânia, são, em simultâneo, decisões contra a paz”, acrescentou Zelensky.
E o que a Ucrânia quer é uma “paz duradoura”, nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros. Andrii Sybiha quer uma garantia de que essa mesma paz não será “destruída pelo próximo passo de Moscovo”.
É por isso que não chega um cessar-fogo.
Com receio do que podem ser as ambições da Rússia, os líderes dos Estados Bálticos já criticaram a possibilidade de a Ucrânia ser forçada a ceder território.
“Se as fronteiras puderem ser mudadas à força, ninguém está seguro… a soberania e a integridade territorial são as bases da estabilidade global. Não vamos premiar a agressão - nem na Ucrânia, nem em lado nenhum”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Margus Tsahkna, já este sábado.
O homólogo da Lituânia, Baiba Braže, reforçou essa preocupação: “Uma paz justa, duradoura e digna é o que todos queremos, sobretudo os ucranianos. Tal paz deve envolver a Ucrânia e garantir a sua soberania e integridade territorial”.
Declarações fáceis de entender, já que os pequenos países, antigas repúblicas da União Soviética, temem ser o alvo que se segue caso a Rússia consiga conquistar a Ucrânia.
A diferença, claro, é que esses dois Estados, como a Letónia, fazem parte da NATO, o que levaria a guerra para outro nível. Para um nível global.
