Decisão teve lugar após o assassinato do líder supremo do Irão, que mostrou como a inteligência artificial pode ser usada em dados de câmaras de segurança para atingir inimigos
Os serviços de segurança russos desativaram partes de um sistema especial de vigilância que protegia o presidente Vladimir Putin e os seus conselheiros mais próximos. A notícia é avançada pelo Financial Times, que cita duas fontes próximas do processo. A decisão foi tomada após o assassinato do anterior líder supremo do Irão.
Trata-se de um sistema independente das quase 300 mil câmaras que monitorizam os cidadãos de Moscovo. E só voltou a ser ligado depois de os engenheiros o terem examinado de uma forma minuciosa, procurando isolá-lo completamente da internet.
São preocupações extraordinárias, tomadas após os serviços de informação israelitas terem recolhido imagens de câmaras de trânsito do Irão para ajudar a determinar o local e a hora exatos de uma reunião entre Ali Khamenei e os seus conselheiros a 28 de fevereiro. Consequência: muitos deles acabaram mortos, no primeiro ataque conjunto de EUA e Israel contra o Irão.
Este episódio mostra como a inteligência artificial pode ser usada para analisar milhões de horas de vídeo para vigiar e encontrar alvos. O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, recusou responder ao Financial Times sobre este assunto.
O jornal dá conta de que o diretor do serviço de segurança interna da Rússia, Alexander Bortnikov, alertou os chefes de segurança, na semana passada, que o sistema de vigilância do país se tinha tornado uma vulnerabilidade, podendo ser explorado pelos inimigos.
“A recente eliminação de altos funcionários iranianos pela aliança EUA-Israel é um claro sinal de alerta”, afirmou a 26 de maio, citado pelas agências de notícias estatais russas. “A localização das vítimas foi identificada, em parte, através de ‘portas dos fundos’ no software dos sistemas de videovigilância de Teerão”, indicou.
Os últimos avanços na inteligência artificial permitem, por exemplo, o reconhecimento facial, a deteção de armas ou o rastreamento de veículos por marcas ou matrículas. Também as pesquisas se tornaram mais rápidas, assentes em termos simples como “homem que mudou de roupa várias vezes no mesmo dia” ou “veículo que passou pelo mesmo local várias vezes na mesma hora”.
Entrevistas feitos pelo Financial Times a quase uma dezena de pessoas, incluindo antigos e atuais agentes de serviços de informação e altos funcionários desta área em quatro países, confirmam como os sistemas de vigilância se podem transformar numa brecha para eventuais inimigos. Podem mesmo ser criados dossiês com a atividade de um determinado alvo durante meses.
As informações podem se recolhidas de câmaras de segurança, mas também de redes sociais, comunicações pirateadas ou áudio captado de dispositivos como smartphones.
Cada vez mais países a usar, 3mas com um risco: abrir a porta ao inimigo
Putin e a Rússia não são caso único no que diz respeito a este sistema. Outros países têm procurado eliminar as vulnerabilidades nas suas redes de vigilância. A Índia, por exemplo, definiu um prazo para que as câmaras chinesas fossem banidas do país.
Pessoas conhecedoras do processo confirmam que os próprios iranianos conseguiram invadir câmaras de segurança em Israel. Contudo, sem capacidade de processar o fluxo de informação, a sua utilidade acabou por ser limitada.
Na Rússia, a preocupação com a segurança pessoal de Putin não é de agora, sobretudo no que envolve os serviços de informação ucranianos, que já conseguiram infiltrar-se nas câmaras de trânsito russas e recolher dados de localização de telemóveis para apoiar o assassinato de altos oficiais do Kremlin.
Um pirata informático ucraniano conta ao Financial Times que as câmaras em Moscovo, inclusive nos arredores do Kremlin, “ainda estão a funcionar”, sendo “pirateadas com regularidade”.
EUA e Reino Unido, que têm acesso a ferramentas de análise de dados em larga escala, já forneceram informações precisas ao exército ucraniano sobre os seus alvos, retiradas inclusive de drones de vigilância.
Um dos exemplos mais recentes dos receios de Putin foi conhecido poucos dias antes do Dia da Vitória, cujas celebrações este ano aconteceram numa versão reduzida. O Kremlin amentou a segurança do presidente, instalando sistemas de vigilância nas casas dos seus conselheiros mais próximos. E proibindo cozinheiros, guarda-costas e fotógrafos de utilizar transportes públicos. Quem trabalha com Putin só pode usar telefones sem acesso à internet.
Também a China está a começar a usar esta tecnologia, investindo em novas gerações de câmaras e em programas de inteligência artificial que processam grandes quantidade de informação a alta velocidade. Contudo, como admite um oficial de segurança chinês, isso também abre margem para novas “formas de entrar”.
No caso do Irão, Teerão instalou novas câmaras para monitorizar os protestos em dezembro de 2025. Israel conseguiu invadir estes fluxos de vídeo em tempo real, garante uma fonte ligada ao assunto, recebendo informações sobre a composição da força paramilitar que protege o regime.
