Rússia está a queimar enormes quantidades de gás - em vez de o exportar para a Europa

26 ago, 10:55
Central de Portovaya, na Rússia (Olga Maltseva/AFP/GettyImages)

Moscovo estará a queimar excedentes de gás natural que não quer - ou não consegue usar - na central de Portovaya, próxima do Nord Stream 1, o gasoduto por onde a Rússia envia o gás até território alemão

No início do verão, vários cidadãos finlandeses repararam numa chama alta no horizonte, que se erguia para lá da fronteira com a Rússia. A chama, que até agora não se extinguiu, vem de uma nova central para gás natural liquefeito em Portovaya, na Rússia, próxima da estação de compressão no início do gasoduto Nord Stream 1 - que transporta o gás russo até à Alemanha. 

Segundo especialistas citados pela BBC, a Rússia estará a queimar em Portovaya grandes quantidades de gás natural que seria, em condições normais, exportado para a Alemanha: na central junto à fronteira com a Finlândia, estima-se que todos os dias seja queimada uma quantidade de gás avaliada em cerca de 10 milhões de dólares (uma soma equivalente em euros).

 

A BBC teve acesso a uma análise da Rystad Energy, consultora independente norueguesa para as áreas do petróleo e do gás, que indica que a Rússia estará a queimar diariamente cerca de 4,34 milhões de metros cúbicos de gás. Além das óbvias consequências económicas na subida de preços, esta queima de gás natural também é prejudicial para o ambiente: os cientistas estão preocupados com as elevadas quantidades de dióxido de carbono libertadas para a atmosfera, que poderão exacerbar o degelo no Ártico. 

De acordo com a estação britânica, os investigadores notaram desde junho um aumento significativo do calor emanado pela central de Portovaya, a noroeste da cidade russa de São Petersburgo, que estará relacionado com a queima do gás. Recorde-se que, desde meados de julho, a Rússia reduziu o fornecimento de gás à Alemanha através do gasoduto Nord Stream 1, alegando problemas técnicos, ainda que Berlim garanta que os cortes no abastecimento são fruto de uma decisão política do Kremlin, na sequência da invasão russa da Ucrânia e do apoio dos países ocidentais a Kiev.

Rússia pode fazer descer preços do gás "amanhã"

A BBC assinala que a queima de gás é um processo comum neste tipo de infraestruturas, sendo normalmente feito por razões técnicas ou de segurança, mas a escala a que a Rússia o está a fazer está a deixar os especialistas apreensivos: "Desde junho que vimos um enorme pico e simplesmente não desaparece. Tem permanecido anormalmente elevado", disse à BBC Jessica McCarty, especialista em análise de dados de satélites. 

 

Já o diretor executivo da Capterio, uma empresa que fornece soluções para a queima de gás, refere que a situação russa não parece acidental e que a queima de gás deverá tratar-se de uma decisão deliberada e tomada por razões operacionais. "Os operadores hesitam frequentemente para fechar instalações pelo receio de que seja tecnicamente difícil ou dispendioso voltar a começar e esse é provavelmente o caso aqui", disse Mark Davis à BBC. 

"Ainda que as razões exatas para a queima de gás sejam desconhecidas, os volumes, emissões e localização das chamas são um lembrete visível do domínio russo nos mercados de energia na Europa", diz Sindre Knutsson, também da Rystad Energy. "Não poderia haver um sinal mais claro de que a Rússia poderia fazer descer os preços da energia amanhã. Este é gás que teria sido exportado via Nordstream 1 ou alternativas", garante.

Já outros especialistas acreditam que a Rússia enfrente dificuldades técnicas para gerir as quantidades de gás que deveria estar a ser exportado para a Europa através do Nord Stream: a Gazprom, empresa estatal russa que gere a produção e distribuição de gás, poderia ter intenção de usar o gás natural para fazer gás liquefeito, mas pode ter tido problemas no seu armazenamento e optado por queimá-lo como solução. 

Problemas para substituir equipamentos?

Esa Vakkilainen, engenheiro e professor na Universidade de Tecnologia de Lappeenranta, na Finlândia, admite também o cenário de que os russos, devido ao embargo do ocidente, tenham problemas em comprar e substituir equipamentos necessários ao processamento de gás e petróleo, pelo que optem por queimar os excedentes que não conseguem usar. "Talvez haja algumas válvulas partidas que não conseguem substituir", reflete Vakkilainen.

O impacto ambiental da decisão de Moscovo, por outro lado, também está a inquietar os cientistas: ainda que queimar o gás seja melhor do que libertar simplesmente o metano para a atmosfera, a Rússia estará a libertar o equivalente a nove mil toneladas de CO2 para a atmosfera todos os dias, o que poderá trazer problemas significativos para o planeta. 

A maior preocupação relaciona-se com o carbono negro, as partículas produzidas pela queima incompleta de combustíveis como o gás natural: em latitudes próximas do Ártico, podem depositar-se na neve e no gelo, acelerando o degelo dos glaciares. "Algumas estimativas muito citadas colocam a queima de gases como a fonte dominante dos depósitos de carbono negro no Ártico e quaisquer aumentos desta atividade na região são especialmente indesejados", disse à BBC Matthew Johnson, professor da Universidade Carleton em Otava, no Canadá. 

A Gazprom não respondeu aos pedidos da BBC para falar sobre a queima de gás natural na central de Portovaya.

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