Plano de paz dos EUA deixou a Ucrânia entre a espada e a parede (e a Europa não está muito melhor)

21 nov, 21:39
Volodymyr Zelensky na Casa Branca em reunião com Donald Trump (Alex Brandon/AP)

ANÁLISE || É o próprio Zelensky a assumir uma das situações mais difíceis da história. Com pouca gente em confiar, António Costa aparece como uma das possíveis bóias de salvação da Ucrânia

A guerra ainda não terminou, mas a Ucrânia já perdeu. Foi basicamente essa a ideia que Volodymyr Zelensky quis passar esta sexta-feira, num discurso quase fatalista em que se assume visivelmente desagradado com um plano de paz em que não foi visto nem achado.

Não foi ele, mas foi Vladimir Putin, a quem o plano apresentado pelos Estados Unidos agrada de sobremaneira. De tal forma que o próprio presidente da Rússia o admitiu: “Penso que pode ser a base para um acordo final. A Ucrânia está contra”.

E não é de admirar, já que o plano de 28 pontos dá à Rússia praticamente tudo o que exigia antes da guerra - em alguns pontos até mais -, enquanto a Ucrânia fica com poucas certezas quanto ao presente e ainda mais dúvidas em relação ao futuro.

A Rússia, que logo em 2014 assumiu, mesmo que oficiosamente, que Crimeia e Donbass lhe pertenciam, vê agora a possibilidade de ficar também com Kherson e Zaporizhzhia, regiões que anexou de forma unilateral em referendos realizados em 2022.

Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporizhzhia, tudo regiões ucranianas que a Rússia diz serem suas por direito, numa visão que é partilhada pelos Estados Unidos.

Praticamente colocado entre a espada e a parede, Volodymyr Zelensky avisou que a Ucrânia está perante uma escolha: ou perde o apoio dos Estados Unidos, o seu mais importante aliado na resistência, ou desiste da sua dignidade para chegar à paz com a Rússia.

“Agora a Ucrânia pode estar face a uma escolha muito difícil. Ou perde a dignidade, ou arrisca perder um parceiro-chave”, afirmou numa declaração transmitida ao país através da televisão, mostrando que não planeia ceder todos os seus princípios, mesmo que isso lhe custe a parceria com os Estados Unidos.

Uma posição que o presidente ucraniano não parece estar disposto a mudar, sendo que do outro lado recebeu um ultimato. “Tive muitos prazos, mas se as coisas estão a correr bem, tende-se a prolongar os prazos. Achamos que quinta-feira é um prazo adequado”, defendeu Trump esta sexta-feira, dando menos de uma semana à Ucrânia para aceitar a proposta.

Ataque a Ternopil
Enquanto se discute nos bastidores, a Rússia continua a intensificar os ataques. Estas imagens são de Ternopil, bem longe da linha da frente, onde mais de 30 pessoas morreram num dos mais recentes ataques de Moscovo (Vlad Kravchuk)

À beira da capitulação - a expressão é dos parceiros europeus - é precisamente com a Europa que Kiev pode contar agora. Perante a intransigência de Donald Trump, só a pressão do lado de cá do Atlântico é que pode mudar alguma coisa.

É por isso que Alemanha, França e Reino Unido já trabalham numa contraproposta, até porque a Europa também sai como um derrotado claro desta negociação a duas partes.

Se isto fosse um jogo a quatro, os Estados Unidos eram campeões - todas as propostas são a seu favor ou, no mínimo, neutras - e a Rússia sairia também vencedora - o correspondente da CNN Portugal nos Estados Unidos falou em 90% dos pontos favoráveis ao Kremlin. Já a Europa e a Ucrânia ficam, como se diz numa gíria mais popular, a “chuchar no dedo”, já que até as propostas mais favoráveis parecem ser algo inconsequentes ou facilmente alteradas.

“Este é um dos momentos mais difíceis da nossa história”, confirmou Volodymyr Zelensky, em declarações feitas já depois de falar com Ursula von der Leyen e António Costa, que vão reunir de emergência em Bruxelas este sábado para tentar chegar a uma conclusão que emende o plano de paz a favor de Kiev ou, pelo menos, de uma forma mais neutral.

Para efetivar ainda mais a pressão que quer ver a funcionar até ao Dia de Ação de Graças, Donald Trump ameaçou a Ucrânia com o fim da partilha de informações e até com o cancelamento do envio de armas.

Kiev sabe que terá de ir ao encontro da proposta, claro, mas acredita que a Europa exerça a sua própria influência para convencer os Estados Unidos a mudar de rumo. Pelo sim pelo não, Volodymyr Zelensky continua a tentar a operação de charme, nomeadamente com chamadas como a desta sexta-feira, em que passou uma hora ao telefone com JD Vance, vice-presidente dos Estados Unidos que há um mês o antagonizou fortemente na Sala Oval.

“Estamos a trabalhar para trilhar um caminho dignificante e verdadeira eficaz para atingir uma paz duradoura”, afirmou.

O presidente ucraniano não foi totalmente caro sobre o que pode trazer essa dignidade e eficácia, mas até na Europa se sabe que a discussão sobre as quatro regiões em disputa deve ser um “ponto de partida para qualquer entendimento”.

É, pelo menos, um meio caminho do que Kiev quer, já que Volodymyr Zelensky sempre insistiu que só recuperando todo o território, incluindo até a Crimeia, é que consideraria a guerra acabada.

Se esse cenário nunca pareceu plausível, até porque a região anexada em 2014 nunca foi propriamente tema no palco internacional, também não seria de pensar do lado ocidental que uma proposta pedisse à Ucrânia que desista totalmente de quatro regiões que até 2022 eram suas.

A capacidade das Forças Armadas da Ucrânia é outro ponto fulcral. Os Estados Unidos querem reduzi-las para 600 mil efetivos, o que representa cerca de metade do contingente atual. Sem concretizar números, no Ocidente defende-se que “as Forças Armadas ucranianas se mantenham capazes de defender a Ucrânia e a sua soberania”.

Esta mesma chamada vai agora transitar para reuniões pessoais. O Financial Times escreve que se esperam encontros ao mais alto nível durante o fim de semana em Joanesburgo, na África do Sul, onde se vai encontrar o G20.

“Ainda estamos a analisar [o plano de paz], mas está a andar muito mais rápido do que entendíamos”, confessa um representante europeu àquele jornal britânico, a quem assume que esta proposta é, na prática, uma “capitulação” da Ucrânia.

“Estamos de volta à estaca zero”, acrescenta um outro responsável europeu, que até pode estar a ser otimista, atendendo à dimensão “russófona” deste plano, que Luís Costa Ribas até diz estar mal escrito formalmente.

Além do abandon dos territórios ucranianos, o quem ais alarma a Europa é a proibição de tropas da NATO na Ucrânia. Há muito que o Ocidente discute na Coligação dos Dispostos, liderada por França e Reino Unido, o estabelecimento de uma força de paz internacional para um pós-guerra, mas este novo plano deixa isso fora de cena.

No fim do dia, e se quisermos ter a bolsa e os mercados como um barómetro, é claro quem ganha, e não é a Europa. Os juros da dívida ucraniana dispararam, enquanto as ações das empresas europeias da indústria de Defesa caíram a pique (Rheinmetall e Leonardo, por exemplo, caíram acima dos 6% num só dia).

É como se disse: com este plano os Estados Unidos goleiam, a Rússia ganha, a Europa perde e a Ucrânia é arrasada.

Recorde os 28 pontos do plano de paz apresentado pelos Estados Unidos:

1. A soberania da Ucrânia será confirmada (vitória para a Ucrânia)

2. Será celebrado um acordo de não-agressão global e abrangente entre a Rússia, a Ucrânia e a Europa. Todas as ambiguidades dos últimos 30 anos serão consideradas resolvidas (neutro)

3. Espera-se que a Rússia não invada os países vizinhos e que a NATO não continue a expandir-se (neutro)

4. Será realizado um diálogo entre a Rússia e a NATO, com a mediação dos Estados Unidos, para resolver todas as questões de segurança e criar condições para o desanuviamento, a fim de garantir a segurança mundial e aumentar as oportunidades de cooperação e de desenvolvimento económico futuro (neutro)

5. A Ucrânia receberá garantias de segurança fiáveis (vitória para a Ucrânia)

6. A dimensão das forças armadas ucranianas será limitada a 600 mil efetivos (vitória para a Rússia)

7. A Ucrânia concorda em consagrar na sua Constituição que não aderirá à NATO e a NATO concorda em incluir nos seus estatutos uma disposição segundo a qual a Ucrânia não será admitida no futuro (vitória para a Rússia)

8. A NATO concorda em não estacionar tropas na Ucrânia (vitória para a Rússia)

9. Os caças europeus ficarão estacionados na Polónia (vitória para a Rússia)

10. Garantia dos EUA:

▪️ Os EUA receberão uma indemnização pela garantia (neutro)

▪️ Se a Ucrânia invadir a Rússia, perderá a garantia (vitória para a Rússia)

▪️ Se a Rússia invadir a Ucrânia, para além de uma resposta militar coordenada e decisiva, serão restabelecidas todas as sanções mundiais, será revogado o reconhecimento do novo território e todos os outros benefícios deste acordo (vitória para a Ucrânia)

▪️ Se a Ucrânia lançar um míssil contra Moscovo ou São Petersburgo sem motivo, a garantia de segurança será considerada inválida (vitória para a Rússia)

11. A Ucrânia é elegível para a adesão à UE e beneficiará de um acesso preferencial de curto prazo ao mercado europeu enquanto esta questão estiver a ser analisada (vitória para a Ucrânia)

12. Um poderoso pacote global de medidas para reconstruir a Ucrânia, incluindo, mas não se limitando a:

a. A criação de um Fundo de Desenvolvimento da Ucrânia para investir em setores de rápido crescimento, incluindo a tecnologia, os centros de dados e a Inteligência Artificial (vitória para a Ucrânia)

b. Os Estados Unidos cooperarão com a Ucrânia para reconstruir, desenvolver, modernizar e explorar conjuntamente as infraestruturas de gás da Ucrânia, incluindo gasodutos e instalações de armazenamento (vitória para a Ucrânia)

c. Esforços conjuntos para reabilitar as zonas afetadas pela guerra, tendo em vista o restabelecimento, a reconstrução e a modernização de cidades e zonas residenciais (vitória para a Ucrânia)

d. Desenvolvimento de infraestruturas (vitória para a Ucrânia)

e. Extração de minerais e de recursos naturais (neutro)

f. O Banco Mundial desenvolverá um pacote de financiamento especial para acelerar estes esforços (neutro)

13. A Rússia será reintegrada na economia mundial:

a. O levantamento das sanções será discutido e acordado por fases e numa base caso a caso (vitória para a Rússia)

b. Os Estados Unidos celebrarão um acordo de cooperação económica a longo prazo para o desenvolvimento mútuo nos domínios da energia, dos recursos naturais, das infraestruturas, da Inteligência Artificial, dos centros de dados, dos projetos de extração de metais de terras raras no Ártico e de outras oportunidades empresariais mutuamente benéficas (vitória para a Rússia)

c. A Rússia será convidada a voltar a fazer parte do G8 (vitória para a Rússia)

14. Os fundos congelados serão utilizados da seguinte forma:

100 mil milhões de dólares em ativos russos congelados serão investidos em esforços liderados pelos EUA para reconstruir e investir na Ucrânia. Os EUA receberão 50% dos lucros deste empreendimento. A Europa acrescentará 100 mil milhões de dólares para aumentar o montante do investimento disponível para a reconstrução da Ucrânia. Os fundos europeus congelados serão descongelados. O remanescente dos fundos russos congelados será investido num veículo de investimento russo-americano separado que implementará projetos conjuntos em áreas específicas. Este fundo terá por objetivo reforçar as relações e aumentar os interesses comuns, a fim de criar um forte incentivo para não regressar ao conflito (neutro)

15. Será criado um grupo de trabalho conjunto americano-russo sobre questões de segurança para promover e assegurar o cumprimento de todas as disposições do presente acordo (vitória para a Rússia)

16. A Rússia consagrará na lei a sua política de não agressão em relação à Europa e à Ucrânia (vitória para a Ucrânia)

17. Os Estados Unidos e a Rússia acordarão em prorrogar a validade dos tratados sobre a não proliferação e o controlo das armas nucleares, incluindo o Tratado START I (neutro)

18. A Ucrânia acorda em ser um Estado não nuclear nos termos do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (vitória para a Rússia)

19. A Central Nuclear de Zaporizhzhia será inaugurada sob a supervisão da AIEA e a eletricidade produzida será distribuída em partes iguais entre a Rússia e a Ucrânia - 50:50 (vitória para a Rússia)

20. Ambos os países comprometem-se a implementar programas educativos nas escolas e na sociedade com o objetivo de promover a compreensão e a tolerância das diferentes culturas e de eliminar o racismo e os preconceitos:

a. A Ucrânia adotará as normas da UE em matéria de tolerância religiosa e de proteção das minorias linguísticas (neutro)

b. Ambos os países acordarão em abolir todas as medidas discriminatórias e em garantir os direitos dos meios de comunicação social e do ensino ucranianos e russos (neutro)

c. Toda a ideologia e atividades nazis devem ser rejeitadas e proibidas (neutro)

21. Territórios:

a. A Crimeia, Lugansk e Donetsk serão reconhecidos como territórios russos de facto, inclusive pelos Estados Unidos (vitória para a Rússia)

b. Kherson e Zaporizhzhia serão congelados ao longo da linha de contacto, o que significará o reconhecimento de facto ao longo da linha de da frente (vitória para a Rússia)

c. A Rússia renunciará a outros territórios acordados que controla fora das cinco regiões (vitória para a Ucrânia)

d. As forças ucranianas retirar-se-ão da parte da região de Donetsk que controlam atualmente, e esta zona de retirada será considerada uma zona-tampão desmilitarizada neutra, reconhecida internacionalmente como território pertencente à Federação da Rússia. As forças russas não entrarão nesta zona desmilitarizada (vitória para a Rússia)

22. Após terem chegado a acordo sobre as futuras disposições territoriais, tanto a Federação da Rússia como a Ucrânia comprometem-se a não alterar essas disposições pela força. Quaisquer garantias de segurança não serão aplicáveis em caso de violação deste compromisso (neutro)

23. A Rússia não impedirá a Ucrânia de utilizar o rio Dnieper para atividades comerciais e serão celebrados acordos sobre o livre transporte de cereais através do Mar Negro (vitória para a Ucrânia)

24. Será criado um comité humanitário para resolver as questões pendentes:

a. Todos os prisioneiros e cadáveres remanescentes serão trocados numa base de “todos por todos” (neutro)

b. Todos os civis detidos e reféns serão devolvidos, incluindo as crianças (neutro)

c. Será implementado um programa de reagrupamento familiar (neutro)

d. Serão adotadas medidas para aliviar o sofrimento das vítimas do conflito (neutro)

25. A Ucrânia realizará eleições dentro de 100 dias (vitória para a Rússia)

26. Todas as partes envolvidas neste conflito serão totalmente amnistiadas pelas suas ações durante a guerra e concordam em não fazer quaisquer reivindicações ou considerar quaisquer queixas no futuro (neutro)

27. Este acordo será juridicamente vinculativo. A sua aplicação será monitorizada e garantida pelo Conselho de Paz, presidido pelo presidente Donald J. Trump. Serão impostas sanções em caso de violação (neutro)

28. Uma vez que todas as partes concordem com este memorando, o cessar-fogo entrará em vigor imediatamente após ambas as partes se retirarem para os pontos acordados para iniciar a implementação do acordo (neutro)

Relacionados

Europa

Mais Europa